Primeiro Conjunto de Questões Desafiadoras [Quatro Questões]
Assunto Básico: Conceito de Educação (Primeiro Princípio)
1) Considere esta conceituação de educação e procure responder as questões abaixo:
Educação, em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as pessoas se tornam capazes de [desenvolvem as competências necessárias para] viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva.
A) Você acha essa conceituação de educação inteiramente adequada? Adequada até onde vai, mas incompleta? Totalmente inadequada?
B) Você acha que conceituações desse tipo podem ser consideradas definições objetivas ou serão elas nada mais do que manifestações de persuasões subjetivas (“definições persuasivas”)?
C) Você concorda que a expressão “se tornam capazes de” deva ser interpretada como equivalente a “desenvolvem as competências necessárias para”?
D) Como deve ser interpretada a expressão “se tornam capazes” nessa conceituação de educação:
as pessoas se tornam capazes mediante a ação de terceiros (e, portanto, são educadas);
as pessoas se tornam capazes por si mesmas, sozinhas (e, portanto, se educam a si próprias, sozinhas);
as pessoas se tornam capazes num processo que forçosamente envolve interação com outras pessoas (sendo a educação, portanto, um processo em que as pessoas são educadas por outras pessoas e se educam a si próprias em interações em que às vezes é impossível distinguir o papel de uns e de outros).
Discuta essa questão.
E) Se você acredita que terceiros desempenham um papel importante na educação de uma pessoa, o papel desses terceiros poderia ser definido como sendo principalmente de exemplos, de fontes de estímulos e desafios, de motivadores, ou de ensinantes? Se houver algum outro papel, esclareça.
F) O que você acha da chamada “educação negativa” (às vezes chamada de “educação laissez faire”), que muitos atribuem a Rousseau, segundo a qual a melhor educação é aquela que menos interfere com o desenvolvimento natural e espontâneo da criança. Você conhece a experiência de Summerhill? O que acha dela? Você acha que a educação em Summerhill era desse tipo negativo? Faz sentido criar uma escola e levar as crianças lá para que lá possam ter uma “educação negativa”?
G) Se é verdade que aquilo que uma pessoa vai se tornar, ao longo de sua educação, não está inexoravelmente programado geneticamente, devemos concluir que a educação está necessariamente ligada à aprendizagem - e que, portanto, o conceito de educação tem uma conexão necessária com o conceito de aprendizagem?
H) Têm o ensino um papel significativo na educação? Em caso positivo, qual? Esclareça o que você entende por ensino. É viável definir “ensinar” como “fazer aprender” ou “ajudar a aprender”?
2) Compare a conceituação de educação fornecida no item anterior com as
seguintes conceituações, feitas, respectivamente, por Paulo Freire e por Antonio
Carlos Rodrigues de Moraes, e responda as questões abaixo:
“Ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa a si mesmo. Os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. [Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, 6ª edição, 1979, p.79]
“Educação é o processo pelo qual nos tornamos capazes de viver os próprios sonhos”. [Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, em mensagem na lista Edutec]
A) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no essencial, uma à outra? Explique.
B) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no essencial, à conceituação fornecida no item anterior? Explique.
3. Comente rapidamente as seguintes considerações acerca da educação (algumas
são conceituações formais) encontradas na literatura:
"Se verificarmos que os dois grandes oponentes no pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação) e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield]
"A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre aquelas ainda não amadurecidas para a vida social. Tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança particularmente se destina." [E. Durkheim]
"Do ponto de vista biopsicológico, a educação tem por escopo levar o indivíduo a realizar a sua personalidade, tendo em mira as suas possibilidades intrínsecas; logo, a educação passa a ser o processo que tem por fim atualizar todas as virtualidades do indivíduo, em um trabalho, realmente, de extrair de dentro do próprio indivíduo o que ele traz, hereditariamente, consigo." [I. G. Nérici]
"Educação é o processo de aperfeiçoamento do ser humano no sentido de facultar a realização de suas potencialidades, bem como a transmissão de conhecimentos e valores culturais do grupo social." [Manual da Escola Superior de Guerra]
"Educação é a influência deliberada e consciente exercida sobre o ser maleável e inculto, com o propósito de formá-lo." [J. Cohn]
"Educação é a liberação das capacidades individuais em crescimento progressivo dirigido para fins sociais." [J. Dewey]
"Assim alcançamos uma definição técnica da educação: ela é aquela reconstrução ou reorganização da experiência que acrescenta algo ao significado da experiência e que aumenta a habilidade de dirigir o curso da experiência subseqüente. ... A educação pode ser concebida ou retrospectivamente ou prospectivamente. Isso quer dizer que ela pode ser tratada como um processo ou de acomodação do futuro ao passado, ou de utilização do passado como um recurso para o desenvolvimento do futuro". [J. Dewey]
"A educação é, de um lado, um processo de estabilização, de transmissão, de garantia de continuidade de cultura; do outro, um processo de correção, de aperfeiçoamento, de modificação das características adquiridas das gerações passadas." [T. Brameld]
G. Reisman: "Educação é o processo formal de transmitir a substância intelectual da civilização de uma geração para a seguinte, e, assim, fazer com que as mentes não cultivadas das crianças se transformem nas mentes de adultos civilizados." [G. Reisman]
"Educação, no sentido em que o termo é usado aqui, é um processo, ou uma atividade, dirigido para a produção de mudanças desejáveis no comportamento de seres humanos". ... "Educação pode também ser considerada como o processo de socialização, através do qual a criança é introduzida nos costumes da sociedade em que vive". [Frederick J. McDonald]
"A educação e os cuidados com as crianças sempre foram processos conservadores, o que é justificável, pois são ações de transmissão cultural que sempre ocorreram na história da humanidade, fundamentais à sobrevivência da espécie. Porém, na fase de mudanças e de grande e crescente pobreza que atravessa o terceiro Mundo, é preciso -- sem lhe retirar o caráter conservador -- atribuir ao processo educacional a tarefa de também gerar certas rupturas inteligentes com a ordem vigente, de modo a interromper o círculo vicioso do subdesenvolvimento cultural, e, enfim, da pobreza. A conservação e a ruptura não são excludentes na educação e no trato com as crianças. Pelo contrário, o equilíbrio é que determinará sua eficaz adaptação à nossa realidade". [José A. Pinotti, Aníbal Faúndes e Eduardo O. C. Chaves (em 1988)]
4. Comente sucintamente o seguinte texto de Carl Bereiter, retirado do seu livro
Must We Educate?, com especial foco no conceito de educação que o autor
parece endossar:
"Devemos nós educar?
A questão 'Em que tipo de adulto vão se tornar os filhos de meus vizinhos e de meus próximos?' é uma questão de grande interesse para cada um de nós. Se eles se tornarem criminosos, ou incompetentes, podemos vir a sofrer com isso. Se se tornarem cidadãos responsáveis, nós e nossos filhos provavelmente nos beneficiaremos com isso.
Porém, apesar de estar ser uma questão de nosso interesse, nós, como indivíduos, não temos o direito de tomar providências para que nossos interesses, neste caso, sejam atendidos. Não temos o direito de pegar os filhos de nossos vizinhos e nossos próximos e moldá-los de modo a se tornarem o tipo de adultos que preferimos.
A maioria das pessoas concordaria, creio eu, que é assim que deve ser, pois também não gostaríamos que nossos vizinhos e nossos próximos, com suas idéias às vezes atravessadas e estapafúrdias, pudesse incutir essas idéias em nossos filhos.
Apesar disso, e aqui as coisas começam a ficar estranhas, se nosso vizinho ou nosso próximo é um professor, então ele, de repente, não só tem o direito de moldar nossos filhos, como sua missão, ao assim agir, é universalmente reconhecida como nobre.
Contudo, nosso vizinho/próximo-professor é um ser humano não muito diferente de nossos outros vizinhos e próximos, com as mesmas fraquezas e tendenciosidades, e, talvez, no íntimo, profundamente constrangido e preocupado por ter em suas mãos os destinos dos filhos dos outros".
Eduardo O C Chaves
Janeiro de 2002