Algumas Reflexões sobre o Papel dos Orientadores: Jogadores, Técnicos ou os Dois?

 

Eduardo O C Chaves

 

 

Na Copa do Mundo de 1958 o Brasil tinha, na linha de frente, três jogadores importantes (embora nenhum deles tenha jogado todos os jogos): Garrincha, pela direita, Pelé, pelo centro, e Zagalo, pela esquerda.

Não resta dúvida de que Garrincha e Pelé eram melhores jogadores do que Zagalo. Garrincha e Pelé eram jogadores excepcionais.

Garrincha jogava, segundo tudo indica, totalmente por instinto. Não conseguia explicar, nem para si mesmo, porque fazia as jogadas que o tornaram famoso -- ou como. Jogava assim porque jogava assim. Pronto. Na hora o instinto o levava a fazer isso ou aquilo – geralmente de uma forma que o jogador adversário nunca esperava. Por não conseguir explicar porque e como jogava, Garrincha certamente nunca teria conseguido ser um técnico de futebol – nem mesmo um técnico medíocre.

Pelé parecia saber unir ao instinto uma certa dose de planejamento e de reflexão. Suas jogadas, conquanto sempre demonstrassem o gênio que era, pareciam estudadas, planejadas – até nos detalhes. O torcedor de certo modo parecia entender, depois do fato, porque Pelé havia feito isto ou aquilo, agido assim ou assado. Provavelmente Pelé teria sido um bom técnico, talvez até um técnico excelente -- se tivesse se interessado por se enveredar por esse caminho.

Zagalo, como Telê Santana, era apenas um bom jogador de futebol (não mais do que isso). E, no entanto, se tornou, como Telê, um grande técnico de futebol. Imagino que, talvez por não ser um gênio como Garrincha e Pelé, Zagalo e Telê tenham resolvido se tornar estudiosos do jogo – fazendo, assim, com que a reflexão sobre como os outros jogam e o estudo da estratégia, da tática, da jogada, viessem suprir aquilo que lhes faltou em termos de genialidade.

Essas considerações nos mostram que há excelentes jogadores de futebol que acabam não se tornando técnicos (muito menos bons técnicos), e que há bons jogadores de futebol que acabam se tornando excelentes técnicos. E não podemos nos esquecer de que também há pessoas que se tornam bons técnicos sem nunca terem jogado futebol profissionalmente.

Mesmo no caso de Zagalo (como no de Telê Santana), ele não se tornou técnico de futebol enquanto era jogador: encerrou uma atividade para daí começar a outra. É muito raro encontrar-se um time de futebol em que o técnico é também jogador.

A razão para isso é simples: tanto jogar futebol como ser técnico são atividades que de certo modo exigem atenção total. O jogador está envolvido em jogar – e vê as coisas sempre dessa perspectiva. O objetivo do time é ganhar o jogo e o jogador procura se encaixar nesse papel. Se é atacante, procura fazer gol, sem se descuidar de marcar ou mesmo de defender, se for preciso. O defensor tem que impedir o gol do adversário, mas, quando seu time ataca, ele vai cuidadosamente para a frente e, não raro, faz seus gols.

O objetivo do técnico também é ganhar o jogo – mas ele não está no campo, jogando. Ele fica de fora, até certo ponto meio distanciado, observando, refletindo... Antes do jogo ele define estratégias, escolhe os jogadores que lhe parecem os melhores para executar a estratégia escolhida, e, com eles, discute táticas. Durante o jogo, testa as suas conjeturas -- às vezes muda a estratégia, às vezes altera a tática, às vezes troca jogadores, às vezes faz as três coisas. Ao trabalhar com um determinado plantel de jogadores, pode ter que inventar novas estratégias, porque as que comumente usa não se adequam aos jogadores à sua disposição. Em jogos no campo adversário, quando o campo é muito pequeno e a torcida do adversário fica muito em cima dos jogadores, pode optar por escolher estratégias diferentes e colocar em campo jogadores mais experientes, mesmo que não estejam em sua melhor forma física. Depois do jogo, vê a fita do jogo, talvez primeiro sozinho, depois com os jogadores, e discute com eles cada jogada.

Talvez fosse possível resumir as diferenças entre o jogador e o técnico dizendo que a função do jogador é jogar, a do técnico, planejar o jogo, definir estratégias, selecionar táticas, escolher os melhores recursos para implementar as estratégias e as táticas, avaliar as decisões tomadas, fazer correções de rumo, eventualmente improvisar, sempre avaliando o que está sendo feito. Ao final do jogo, o técnico analisa, cuidadosamente, em geral com os jogadores, o que foi feito, com vistas a melhorar o desempenho de todos no futuro.

No trabalho dos Orientadores com as escolas poder-se-ia imaginar que as pessoas das escolas (alunos, professores, diretores) fazem o papel de jogadores e os orientadores o de técnicos. Em certo sentido, isso é verdadeiro – se levarmos em consideração apenas o projeto da escola. Os orientadores vão estar observando o trabalho das escolas, refletindo sobre ele, dando uma idéia aqui, outra ali, sugerindo algumas atividades, motivando, incentivando a participação dos mais recalcitrantes, etc.

Alguns orientadores, às vezes, serão até mesmo tentados a colocar a camiseta, pegar a braçadeira de capitão e a entrar em campo para jogar... agindo como se fossem um Super-Coordenador Pedagógico da escola... Mas isso é temerário.

Se, entretanto, levarmos em consideração que o projeto da escola deve se inserir dentro de um programa do IAS (o “Sua Escola a 2000 por Hora”), e que o IAS vê sua missão como envolvendo mais o INFLUIR do que o FAZER (o FAZER tendo sentido na medida em que ajuda o Instituto a INFLUIR mais e melhor), poderemos chegar a uma conclusão um pouco diferente.

Para que o IAS consiga estender a sua influência além das escolas-parceiras, é preciso, no caso do “Sua Escola a 2000 por Hora”, que aqueles que estão em contato direto e constante com as escolas (no caso, os orientadores), sejam capazes de extrair das experiências das escolas uma TECNOLOGIA SOCIAL que seja aplicável a outros contextos.

Assim, os orientadores são, da perspectiva da escola, os técnicos que vão ajudá-las a ganhar a partida. Mas, da perspectiva do IAS, os orientadores são jogadores – SÓ QUE O JOGO DO IAS é elaborar essa TECNOLOGIA SOCIAL para poder INFLUIR. Para que o IAS possa ganhar o seu jogo, os orientadores precisam JOGAR O JOGO DE SER TÉCNICOS, isto é: o que devem fazer em campo é refletir sobre o trabalho que está sendo feito nas escolas para tentar extrair dele a referida TECNOLOGIA SOCIAL.

Assim, os orientadores precisam ser, ao mesmo tempo, jogadores e técnicos... Não são os consultores nem as pessoas da coordenação que vão agir como técnicos – porque eles não estarão observando de perto o jogo que está sendo realizado dentro da escola... Quem estará fazendo essa observação são os orientadores.

E essa observação tem que ser uma OBSERVAÇÃO REFLEXIVA: os orientadores devem refletir sobre o que as escolas, e eles próprios, estão fazendo, para ver se descobrem, nessas ações, princípios que tenham aplicação além do contexto em que se originaram. Por isso, é importantíssimo que encarem o seu trabalho como técnicos – mas não como técnicos que querem apenas ganhar o jogo das escolas (conseguir levar o projeto delas a bom termo), mas, sim, como técnicos que estão interessados em participar de um trabalho coletivo de elaboração dos princípios e métodos que devem ser levados em conta para que uma escola consiga melhorar a qualidade da educação que ministra, usando a tecnologia para descobrir ou inventar novas formas de ensinar e aprender, usando projetos transdisciplinares para desenvolver competências e habilidades nos alunos, envolver os alunos como protagonistas de sua própria educação, integrar o trabalho da escola com a vida da comunidade, e empregar a tecnologia para alavancar todos esses nobres objetivos.

É importante se lembrar do fato de que, mesmo que uma ou outra escola perca o jogo (não consiga levar o seu trabalho a bom termo), o orientador pode aprender bastante, refletindo sobre o que ocorreu com aquela escola que dificultou ou mesmo impossibilitou a implementação do projeto. Técnicos inteligentes aprendem muito nas derrotas também...

Embora essa tarefa possa parecer difícil para alguns, não podemos nos esquecer que os orientadores, como jogadores do IAS, são uma equipe de 11 (coincidência, não?), e que dentro dessa equipe há pessoas com competências e habilidades, interesses e aptidões, diferentes, maior ou menor experiência. É preciso, portanto, que haja muita interação entre os membros da equipe, para que todos cresçam e, juntos, possamos fazer com que o Programa “Sua Escola a 2000 por Hora” e o IAS ganhem o seu jogo...

Como dito no início, nesse processo iremos descobrir que pode haver excelentes jogadores que não se dão muito bem como técnicos, como poderá haver excelentes técnicos que não sentem muito à vontade como jogadores. Se tivermos muita sorte, teremos onze excelentes jogadores - técnicos. Se não nos sentirmos muito bem na função, podemos recorrer aos colegas, aproveitando aquilo que cada um sabe fazer melhor.

O importante é não perder de vista que, nos seus contatos com as escolas, os orientadores precisam estar alertas não só para com o projeto das escolas, mas, também, para com a missão do IAS, e, dentro dessa missão, com os objetivos do “Sua Escola a 2000 por Hora”. Por isso, não basta fazer com que o projeto da escola dê certo: é preciso entender porque deu certo, ou, se não der certo, porque não deu certo, ter clareza sobre o que foi feito, pelos alunos, pelos professores, pelo diretor, e pelo próprio orientador, para que o projeto desse certo, ou não desse. Sem isso, poderemos ter projetos que dão certo, mas não saberemos como fazer para que outros projetos dêem certo. Seremos como aquelas pessoas que resolvem um quebra-cabeça por acaso – resolvem, mas não conseguem dizer como o fizeram, e, assim, não conseguem ajudar outros a resolvê-lo também...

Não será este o tema mais importante para nossa reflexão na lista dos orientadores?



Eduardo Chaves
Campinas, Maio de 2001
(c) Eduardo O C Chaves



02-May-2004 19:41