------------------------------------------------------------------------ There are 25 messages in this issue. Topics in this digest: 1. RE: Definicao de educacao de Schofield From: "Eduardo O C Chaves" 2. Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Eduardo O C Chaves" 3. O fantasma do tempo From: "Eduardo O C Chaves" 4. Ainda o tempo From: "Eduardo O C Chaves" 5. Planejamento Estrategico From: "Eduardo O C Chaves" 6. Re: Educacao Negativa (de novo) From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 7. Re: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 8. RE: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Maria Isabel Guimaraes" 9. RE: Educacao Negativa (de novo) From: "Eduardo O C Chaves" 10. RE: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Eduardo O C Chaves" 11. educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 12. RE: educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem From: "Maria Isabel Guimaraes" 13. RE: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Eduardo O C Chaves" 14. RE: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Maria Isabel Guimaraes" 15. RE: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Eduardo O C Chaves" 16. RE: Empecilhos 'a Aprendizagem From: "Maria Isabel Guimaraes" 17. RE: Pensando um pouco mais.... From: "Maria Isabel Guimaraes" 18. Re: educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" 19. RES: Sobre idearios e praticarios From: "Ney Mourao" 20. DriP, solte a galinha ruiva nesse mato! From: "Ney Mourao" 21. RES: Todo ponto de vista e' a vista de um ponto From: "Ney Mourao" 22. RES: Sobre idearios e praticarios From: "Ney Mourao" 23. RE: Pensando um pouco mais.... From: "Eduardo O C Chaves" 24. RE: Sobre idearios e praticarios From: "Eduardo O C Chaves" 25. PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] From: "Ney Mourao" ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 1 Date: Wed, 6 Feb 2002 07:22:58 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Definicao de educacao de Schofield Diz o Celso: >Na verdade a tensão criada entre teoria e prática, e no nosso caso, a prática são as escolas e os alunos que tentamos ajudar, é o que nos da condições de construir, ou de reconstruir a teoria sobre a educação.< Aqui nesta experiencia de aprendizagem colaborativa estamos focando o binômio teoria / prática TANTO na vida da escola -- a relação entre o que as pessoas que militam na escola pensam e o que elas fazem -- COMO na nossa própria vida como membros da equipe do Sua Escola -- a relação entre o que nós pensamos e o que nós fazemos. Assim, no nosso caso, a prática também é o que nós fazemos e sua relação com aquilo que pensamos, com aquilo em que acreditamos. Eduardo -----Original Message----- From: Celso Vallin [mailto:celsovallin@yahoo.com] Sent: Friday, January 04, 1980 12:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: Re: [escola2000] Definicao de educacao de Schofield Oi Eduardo e todos. Gostei de suas respostas às questões. Eu não sabia onde você queria chegar com aquelas definições, mas confesso que fiquei um pouco contrariado. Não escrevi nada com medo de criar algum mal estar. Gosto de definições, mas elas precisam ser construídas com nossa prática. Em cada momento percebemos mais um pedaço ou aspecto que não percebíamos antes. Mudamos de opinião em alguns lugares. O documento da Unesco define o que se pode pensar sobre educação, nestes nossos dias, de forma mais apropriada. Mesmo assim, conforme o interlocutor, sua história, seu estado atual, talvez aquelas folhas não signifiquem muita ajuda. Na verdade a tensão criada entre teoria e prática, e no nosso caso, a prática são as escolas e os alunos que tentamos ajudar, é o que nos da condições de construir, ou de reconstruir a teoria sobre a educação. Você está planejando que conversemos sobre nossas experiências (práticas) no ano passado? Vamos interlaçar essa teoria com aquelas práticas? Eu sei muito pouco sobre o que todos fizeram e conseguiram com suas escolas em 2001. Isso não seria um material rico para o seu trabalho conosco? Um abraço, Celso Vallin - Sao Jose dos Campos (SP) ---------------------------------------------------- -----Mensagem Original----- De: Eduardo O C Chaves Para: eac@escola2000.net Enviada em: Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2002 13:42 Assunto: [escola2000] Definicao de educacao de Schofield Nas primeiras Questoes Desafiadoras há a seguinte observação, de Harry Schofield, sobre o conceito de educação: "Se verificarmos que os dois grandes oponentes no pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação) e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield] A Lenise corretamente observou que fica meio difícil tomar posição sobre essa passagem, fora de contexto. Por isso estou acrescentando o contexto em que ela foi feita. Essa passagem foi retirada do livro The Philosophy of Education: An Introduction, de Harry Schofield (George Allen and Unwin, Londres, 1972). A passagem foi retirada da p.32 (tradução minha): "Foi moda, há algum tempo, usar definições 'etimológicas'. Essas são definições de uma palavra em termos do sentido de uma outra palavra, geralmente do grego ou do latim, da qual ela se deriva. Fizemos isso, no Capítulo 1, quando dissemos que o termo 'filosofia' vem de um termo grego 'philosophia' que significa 'amor à sabedoria' ou 'amor ao conhecimento'. Ducasse nos dá a seguinte definição étimológica de 'educação': 'Etimologicamente, educar é trazer de dentro para fora'. Esta é a primeira definição de educação (dentre as que já vimos) que afirma, categoricamente, o que a educação é [em vez do que 'deve ser']. Infelizmente, essa teoria é particularmente estéril, porque uma outra escola de pensamento nega que educação venha de 'educere' [trazer para fora], afirmando que vem de 'educare', que significa 'dar forma a'." A seguir vem a passagem que eu citei. Agradeço à Lenise a sua leitura atenta. Um abraço. Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 2 Date: Wed, 6 Feb 2002 08:17:57 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Empecilhos 'a Aprendizagem Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha mulher, que fazia suas lições de Inglês. Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, MAS: a) acreditamos que já sabemos b) acreditamos que não temos condições de aprender 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de aprender Será que isso cobre todos os empecilhos? No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a energia necessários para dominá-las.) No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas crenças sejam falsas. No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não sabemos aquilo que pensamos saber. No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, também, ou, pelo menos, assim me parece). Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição de aprender, não teríamos medo de não aprender. No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender clarineta). Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais freqüentes. O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 3 Date: Wed, 6 Feb 2002 09:19:14 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: O fantasma do tempo Em 1991 meu sócio na People Computação em Campinas (ele cuidava da parte administrativa e de marketing / vendas, eu da parte técnica - rompemos nossa sociedade em 1998) resolveu distribuir uma agenda aos principais clientes e me perguntou se eu não queria escrever um texto sobre a Administração do Tempo, para prefaciar, e, assim, diferenciar a agenda. Escrevi o texto, que, por demanda de público, acabou se tornando um livreto independente, com o título Administração do Tempo, publicado pela própria People, em 1992. Há uns dois anos, meu amigo Rev. Wilson Azevedo, que trabalha com educação a distância, me pediu autorização para usar o texto do livreto (desde então disponibilizado na Internet) como primeiro texto para os alunos de seus cursos a distância (em Teologia), porque havia descoberto que a maior causa de desistência em cursos desse tipo era a dificuldade com a administração do tempo. Quando o curso é presencial, temos que ir às aulas, pois, caso contrário, somos reprovados por faltas, e essa pressão nos ajuda a administrar o nosso tempo. No caso de cursos a distância, descobriu o Rev. Wilson, não havendo a obrigatoriedade de "freqüentar as aulas", as pessoas acabavam por ter maiores dificuldades para administrar o seu tempo, tornando-se esse fato um grande empecilho à aprendizagem. O problema é que dar um texto de mais ou menos 50 páginas para alguém ler, quando você diagnosticou que a maior dificuldade dessa pessoa é administrar o tempo, nem sempre funciona: a pessoa não acha tempo para ler o livro... :-) Assim, o mesmo Rev. Wilson me pediu para fazer um "Resumo Executivo" do livro. Fiz um artiguete, que compartilho com vocês, esperando que possa ser útil. Segue abaixo. Eduardo =========== Administrar o tempo é planejar a vida Eduardo O C Chaves NOTA: Este artigo é resumo, feito em 1998, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992 e que está disponível nos meus sites http://chaves.com.br e http://edutec.net. Geralmente quem escreve sobre administração do tempo não o faz porque seja especialista na questão, mas, sim, porque quer aprender mais sobre o assunto. Pelo menos foi esse o meu caso. Vou relatar aqui algumas de minhas descobertas, como roteiro para a leitura, por quem desejar, do texto original, mais extenso. 1) Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade: é uma questão de saber definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Saber administrar o tempo é ter clareza cristalina sobre o que, para nós, é mais prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer - e tomar providências para que essas coisas mais prioritárias sejam feitas, sabendo que as outras provavelmente nunca vão ser feitas (mas tudo bem: elas não são prioritárias). 2) Dentre as coisas que vamos listar como prioritárias, algumas estarão ali porque nos são importantes, outras porque são urgentes. Imagino que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista de ninguém. E também sei que na lista de todo mundo haverá coisas que são IMPORTANTES E URGENTES. Não resta a menor dúvida de que estas coisas devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas não urgentes, e com coisas que são urgentes, mas às quais não damos muita importância. 3) Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família. Por outro lado, você tem que trabalhar x horas por dia. Se o seu trabalho é mais importante do que ficar com a sua família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Neste caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem que ser feito, pois doutra forma você vai ser despedido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e vai ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vai poder passar mais tempo com ela...). Aqui o conflito é entre o importante e o urgente - e é aí que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos que realizar não são selecionadas por nós, mas nos são impostas. Isto é: não somos donos de todo o nosso tempo. Não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter. Quando aceitamos um emprego, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem o nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: não somos donos de boa parte de nosso tempo. 4) Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, temos que fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa), ou mesmo o tempo que passamos em casa. Usar mal QUER DIZER que muitas vezes usamos o nosso tempo para fazer o que não é nem importante nem urgente, mas apenas algo que sempre fizemos, pela força do hábito. Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas quanto tempo desperdicei terminando de ler coisa que de nada me serviu por causa desse conselho! Uma vez me peguei dizendo à minha família que não poderia fazer algo (não me lembro o quê) domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Eu lia, religiosamente, a Folha e o Estado aos domingos de manhã. Lia por hábito. Achava que um professor tem que se manter informado. Mas quando disse que "precisava" ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. O que é de pior que poderia me acontecer se eu não lesse os jornais, me perguntei. NADA, foi a resposta que tive honestamente que dar. Se houver algo importante nos jornais provavelmente fico sabendo no noticiário da TV, ou na VEJA. Mas daí me perguntei: e preciso ler a VEJA todas as semanas? Resposta: não. Existe algo que eu prefiro ler/fazer naquelas manhãs de domingo que ganhei? Claro, muitas coisas - PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais, ganhei as horas da VEJA, fui ganhando uma horinha aqui outra ali, para as coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e não achava tempo... 5) Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida, não é ficar escravo do relógio. É uma batalha constante, que tem que ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir passar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, você tem que ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância pode ser que você até tenha que, eventualmente, arrumar um outro emprego ou uma outra ocupação. 6) O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência). Todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas (a menos que seja o último dia de nossas vidas): nem mais, nem menos. Rico não recebe mais do que pobre, professor universitário não recebe mais do que analfabeto, executivo não recebe mais do que operário. Entretanto, apesar desse igualitarismo, uns conseguem ser bastante produtivos num dia - outros, ao final do dia, têm o sentimento de que o dia acabou e não produziram nada. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Um dia perdido hoje (perdido no sentido de que não realizei nele o que precisaria ou desejaria realizar) não é recuperado depois: é perdido para sempre. 7) Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. Mas tempo se ganha, ou se faz, deixando de fazer coisas que não são nem importantes nem urgentes e sabendo priorizar aquelas que são importantes e/ou urgentes. 8) Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que quer. 9) Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que estão o tempo todo ocupadas exatamente porque são improdutivas - não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, em primeiro lugar, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai. 10) Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a nossa vida. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, saber aonde queremos chegar (definição de objetivos). Onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos? O segundo passo é começar a "estrategiar": transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas. O terceiro passo é criar planos táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para se chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc. Em quarto lugar, fazer o que tem que ser feito. Durante todo o processo, precisamos estar constantemente avaliando os meios que estamos usando, para verificar se estão nos levando mais perto de onde queremos vamos querer estar ao final do processo. Se não, troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo). 11) Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá - por mais tempo que tenha. 12) Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação. ============ ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 4 Date: Wed, 6 Feb 2002 09:39:38 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Ainda o tempo Fui fuçar nas minhas coisas e achei esta "fala" (na realidade, "escrita") inicial que dei num chat sobre administração do tempo, num curso do Rev. Wilson, em 14 de fevereiro de 2000 -- quase dois anos atrás. Talvez seja de interesse. Se não for, Wastebasket para ela. Eduardo ========== Meu boa tarde a todos. Dizem que quem se torna psicólogo é porque tem algum problema psicológico para resolver... Ou que quem se torna pastor / padre é porque tem algum problema espiritual para acertar... A razão pela qual me interessei pela questão da administração do tempo é simples e comum a todos os que se envolvem com ela: falta de tempo! Ficava surpreso quando via o presidente da República, ou o principal executivo de uma grande empresa (como a Volkswagen), andando de barco, jogando golf, enfim, tirando horas ou dias de descanso, quando eu não conseguia tirar férias por sobrecarga de trabalho. Por que gente mais importante do que eu consegue ter tempo para descansar e se divertir e eu não consigo? Esse o meu problema. Por detrás da minha preocupação estava a constatação (num primeiro momento ainda não muito consciente) de que TEMPO É VIDA -- quando acaba o nosso tempo acaba nossa vida. A sabedoria popular expressa isso dizendo: "A hora dele chegou" -- isto é, o tempo dele acabou. Que uns vivem mais do que outros é algo que todo mundo sabe. Mas às vezes nao nos damos conta de que um dia tem a mesma duração para todo mundo -- para o presidente Clinton e para o vagabundo que passa o dia inteiro estirado na cama sem ânimo para se levantar. O que realmente me motivou a estudar um pouco mais a questão da administração do tempo foi essa constatação: por que alguns conseguem fazer tão mais do que os outros no mesmo tempo? A resposta é que eles sabem administrar o tempo. Contrário ao que muitos pensam, aqueles que estao preocupados com a administração do tempo não são escravos do relógio. Eles são, isto sim, donos de sua vida. Carlos Heitor Cony, um grande cronista, escreve em sua cronica "Veludo Cotelê" (reimpressa em O Harém das Bananeiras) que "tempo é dinheiro, mas se não se gasta o dinheiro ele fica com a gente, pode-se aplicá-lo por aí, e ele aumenta". No entanto, "com o tempo é diferente. Gastando-o bem ou mal, ou mesmo nao o gastando, ele só diminui, a cada minuto fica menos tempo" (p.44 do livro). O governo de São Paulo criou uns centros de atendimento ao cidadão chamados "Poupa Tempo". Ali você pode tirar seu RG ou título de eleitor, pagar IPVA e outros impostos estaduais, etc., ou seja, fazer uma dezena de coisas que normalmente você faria em "repartições" (estranho termo, não?) diferentes. Tudo muito bem -- só o nome é que está errado: tempo não se poupa, como se poupa dinheiro: tempo se ganha -- ou se perde. Domenico de Masi, o sociólogo italiano que estudava o trabalho e agora centra sua atenção no não-trabalho, ou seja, o lazer, disse, em uma de suas entrevistas no Roda Viva, que o grande luxo do futuro não vai ser ter uma Ferrari (como o Ronaldinho descobriu), um apartamento na Riviera francesa, ou um apartamento na quinta avenida em New York: vai ser ter tempo, ter tranqüilidade, conseguir fazer o que realmente se deseja fazer. O importante do dinheiro (além do fato de que, quando não gasto, ele nao some, exceto em tempos de alta inflação) é que com dinheiro se compra tempo. Talvez tempo seja a coisa mais importante que o dinheiro pode comprar. Se eu preciso ir a Porto Alegre, para dar uma palestra às duas da tarde, e eu moro em Campinas, eu posso ir de ônibus. Neste caso, vou provavelmente gastar três dias para fazer isso -- um para ir, outro para voltar, e o terceiro para dar a palestra. Se eu puder pagar uma passagem de avião, porém, ganho dois dias inteiros. Posso ir de manhã, no dia da palestra, e voltar no mesmo dia, depois da palestra. O que o dinheiro fez foi me comprar dois dias inteiros de tempo, que eu posso gastar de outra forma. Se, no entanto, eu não tenho nada para fazer nesses dois dias, pode ser mais conveniente ir de ônibus -- economizo dinheiro para comprar tempo numa outra ocasião, e, por cima, posso ir apreciando a paisagem. Tudo depende do que é mais importante para mim: o dinheiro gasto ou o tempo ganho. Executivos sabem muito bem disso. Por isso têm secretarias que fazem seus telefonemas, pagam suas contas, protegem-nos de interrupções e interferências que podem fazer com que eles percam tempo, têm motoristas que estão com o carro ligado quando eles saem da porta e que estacionam o carro quando eles chegam ao seu destino. Tudo isso custa dinheiro -- mas ganha tempo. Será que podemos nos dar ao luxo de perder, ou desperdiçar, aquilo que tanta gente importante gasta muito dinheiro para ganhar? ========== ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 5 Date: Wed, 6 Feb 2002 10:10:16 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Planejamento Estrategico No texto do Antonio Carlos sobre o Professor, que eu distribuí ontem, há uma passagem importante, que gostaria de citar mais uma vez (porque muitos podem não ter tido tempo de ler o texto inteiro, que é grande]. Está na seção sobre "O Professor como Profissional". [INÍCIO DA CITAÇÃO] Existe uma grande empresa brasileira, uma de nossas poucas multinacionais, onde todos os líderes empresariais e seus colaboradores fazem periodicamente seu P.A., ou seja, o seu Programa de Ação. Quando cada pessoa vai discutir esse programa com o dirigente máximo da organização, três perguntas são comuns a todos: Qual seu plano de vida? Qual seu plano de carreira? Qual seu programa de ação para o próximo período? A idéia por detrás destas perguntas é de que uma pessoa deve ter um projeto de vida, ou seja, todos devemos ser capazes de ter uma visão de como queremos que nossa vida venha ser dentro de um número definido de anos. Para que indagar sobre o projeto de vida das pessoas? É que o plano de carreira de uma pessoa só tem verdadeiramente sentido para sua vida, quando a sua realização contribui para a realização do seu projeto de vida. Se o plano de carreira está desvinculado do plano de vida, nós sabemos que a vida daquela pessoa não está centrada em objetivos coerentes. O programa de ação da pessoa é o que nos diz, por exemplo, o que ela pretende fazer no próximo ano. Esse programa de ação só tem sentido pleno, se for capaz de contribuir verdadeiramente para a realização do plano de carreira da pessoa e, este, para a realização do seu plano de vida. Quando isto ocorre, é como se o sol, a lua e a terra estivessem alinhados, enfileirados no espaço. [FIM DA CITAÇÃO] Aplicando isso ao nosso caso, de membros da equipe do Sua Escola, temos: a) O nosso Plano de Vida b) O equivalente ao nosso "Plano de Carreira" (isto é, o que esperamos, a mais longo prazo, de nosso trabalho no Sua Escola) c) O nosso Programa de Ação (PA) para 2002. A finalidade maior desta experiência de aprendizagem colaborativa é nos ajudar a elaborar o nosso PA, coletivo e individual, para 2002. Mas, como diz o Antonio Carlos, "esse programa de ação só tem sentido pleno, se for capaz de contribuir verdadeiramente para a realização do plano de carreira da pessoa e, este, para a realização do seu plano de vida." Quando isso acontece, diz o Antonio Carlos, "é como se o sol, a lua e a terra estivessem alinhados, enfileirados no espaço". Será que conseguiremos esse alinhamento? Não podemos perder de vista que é isso que precisamos alcançar. Se desequilibrarmos a balança na direção do PA, mesmo que elaboremos um belo PA, se esse PA não se encaixar bem no "plano de carreira" e no plano de vida de alguns de nós, não nos sentiremos suficientemente motivados para colocá-lo em prática num alto nível de qualidade. Por outro lado, se desequilibrarmos a balança a favor de nosso plano de vida e no nosso "plano de carreira", não faremos aquilo que o Sua Escola espera de nós -- faremos apenas aquilo que gostamos mais de fazer. Manter o equilíbrio, ou seja, o alinhamento de que fala o Antonio Carlos, é o nosso maior desafio, durante esta EAC e, na verdade, durante o ano inteiro. [Estou escrevendo mais hoje cedo para compensar o tempo que eu gastei lendo o livro de piscinas ontem à noite, viu Lu?] Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 6 Date: Wed, 6 Feb 2002 10:03:38 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: Re: Educacao Negativa (de novo) Eduardo, > "O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem > necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos > seus". > > Interpreto isso da seguinte forma: só é realmente livre a pessoa que > não depende dos outros para a consecução daquilo que ela quer, porque > ela quer apenas aquilo que ela mesma pode prover. Poderia dar-me algum exemplo de um sonho de vida que cumpra essas caracteristicas? Abracos, Lenise ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 7 Date: Wed, 6 Feb 2002 09:59:16 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: Re: Empecilhos 'a Aprendizagem Eduardo, Eu vinha pensando em uma coisa hoje no caminho, a sua mensagem veio bem ao encontro... :-) Quase todas as definicoes de educacao que vimos fazem referencia a crianças. Parece que so' as criancas precisam educar-se / ser educadas. Creio hoje haver uma clareza de que educacao e' algo permanente, para toda a vida... Dai' uma grande importancia do "aprender a aprender". E volto a Rousseau, mas ao trecho de que gostei. Se a aprendizagem e' algo tao espontaneo, o que e' "aprender a aprender"? Abracos, Lenise > Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no > conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de > aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também > olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha > mulher, que fazia suas lições de Inglês. > > Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de > empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No > caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma > olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... > > > 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera > que aprendamos > > 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que > aprendamos, MAS: > > a) acreditamos que já sabemos > > b) acreditamos que não temos condições de aprender > > 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que > aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos > condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de > aprender > > > Será que isso cobre todos os empecilhos? > > No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em > especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem > são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) > Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da > motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, > naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos > convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, > não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico > quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências > -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a > energia necessários para dominá-las.) > > No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas > crenças sejam falsas. > > No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito > tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que > pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até > mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, > porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque > achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e > alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. > Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", > realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar > esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral > independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não > sabemos aquilo que pensamos saber. > > No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não > dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, > tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e > nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música > ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas > cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais > condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos > jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por > exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para > eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos > condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos > de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar > a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, > também, ou, pelo menos, assim me parece). > > Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos > condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, > assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho > aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa > ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição > de aprender, não teríamos medo de não aprender. > > No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, > a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser > que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a > tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra > coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição > necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é > possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu > Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender > clarineta). > > Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência > tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro > empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais > freqüentes. > > O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa > questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? > > > Eduardo > eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 8 Date: Wed, 6 Feb 2002 10:23:38 -0200 From: "Maria Isabel Guimaraes" Subject: RE: Empecilhos 'a Aprendizagem Oi, Eduardo! Gostei dessa sua maneira de organizar os empecilhos à aprendizagem. Acho que vale também para ciranças na escola, sim. Mas, pensando na escola, acho que poderíamos agregar um outro empecilho: a metodologia. Esse seria mais de "responsabilidade" do professor e não um empecilho interno do aluno. Pude observar isso nos meus poucos anos de atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem. Métodos de alfabetização tradicionais (tipo "vovô viu a uva"...) são exemplos do que estou falando. Algumas crianças podem até dominar a técnica da leitura e escrita, mas será que aprendem de verdade? Levando em consideração a relação existente entre esses (e outros!) empecilhos (eles não aparecem de maneira isolada...), acho que o foco do nosso trabalho como orientadores pode ser a questão da metodologia. Partindo do como estamos trabalhando entre nós, passando por como trabalharemos com as escolas, para chegar a como os professores trabalharão com os alunos. Estou sentindo, na minha vivência da EAC, que a metodologia "ajuda" na motivação, "ajuda" a perceber que não sabemos tudo (mesmo que eu já soubesse disso ;-)), mas que temos condições de aprender muita coisa. Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 07:18 To: eac@escola2000.net Subject: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha mulher, que fazia suas lições de Inglês. Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, MAS: a) acreditamos que já sabemos b) acreditamos que não temos condições de aprender 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de aprender Será que isso cobre todos os empecilhos? No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a energia necessários para dominá-las.) No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas crenças sejam falsas. No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não sabemos aquilo que pensamos saber. No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, também, ou, pelo menos, assim me parece). Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição de aprender, não teríamos medo de não aprender. No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender clarineta). Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais freqüentes. O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 9 Date: Wed, 6 Feb 2002 11:09:21 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Educacao Negativa (de novo) Pede a Lenise: >Poderia dar-me algum exemplo de um sonho de vida que cumpra essas caracteristicas? Críticos do liberalismo, ou mesmo pessoas que não têm muita simpatia pela visão liberal, gostam de tentar criticar o individualismo dos liberais apontando para o fato de que vivemos em sociedade e, portanto, dependemos uns dos outros. A própria Lenise disse, numa das mensagens aqui nesta lista, que dependemos até dos afegãos (Mensagem de Fev 04, 2002 12:03). Segundo essa crítica, o individualismo liberal não faz sentido -- e não faz sentido, portanto, a tese de Rousseau de que "só é realmente livre a pessoa que não depende dos outros para a consecução daquilo que ela quer, porque ela quer apenas aquilo que ela mesma pode prover". Sem querer transformar nossa discussão de educação em uma discussão de filosofia política, gostaria de esclarecer: a) Nenhum liberal nega que, vivendo em sociedade, dependemos (num sentido especial do termo), mesmo como adultos, uns dos outros. (NOTA 1: Se não estamos vivendo em sociedade, como Robinson Crusoe, a questão é diferente. Robinson Crusoe teve que elaborar um projeto de vida em que dependia exclusivamente de si próprio, em qualquer sentido do termo "depender", mas essa é outra história). (NOTA 2: Se somos crianças pequenas, dependemos dos outros em qualquer sentido do termo "depender". Mas não é de crianças que estou falando aqui). b) O sentido de "depender" que é relevante para nossa vida, como adultos, em sociedade, é um depender que não envolve favor ou benevolência, mas envolve apenas a busca, por cada um, de seu interesse. [EXPLICAÇÃO: Adam Smith, numa passagem clássica, mostrou que, como nós todos precisamos de alimentos para sobreviver, ou nós produzimos os alimentos de que precisamos ou os adquirimos de terceiros. Se não os produzimos, porque nosso projeto de vida vai noutra direção, "dependemos" [no sentido especial do termo que estou empregando] do padeiro, do açougueiro, etc. O padeiro, o açougueiro, etc., também "dependem" [no mesmo sentido] de mim e de outros, porque se ninguém comprar os seus produtos, eles quebram. No entanto, esse "depender" não é depender do favor do padeiro ou do açougueiro, não é contar com a sua benevolência para comigo: é um "depender" que conta apenas com o fato de que cada um estará buscando o seu interesse, mas a sua busca do seu interesse pode também contribuir para que eu busque o meu.) c) O sentido de "depender" que estava implícito quando Rousseau disse que "o único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos seus" é um sentido de "depender" que conta com o favor, a boa vontade, a benevolência do outro. [EXPLICAÇÃO: Assim, não sou livre para executar o meu projeto de vida se a única forma de executá-lo exigir que eu ponha "os braços de outrem na ponta dos meus", isto é, exigir que eu conte com o favor, a boa vontade, a benevolência alheia.] Com esses esclarecimentos, creio que não é tão difícil encontrar exemplos de sonhos que cumpram as características especificadas por Rousseau. No sentido Rousseauiano, muitos "self made men (and women)" são, de fato, "self made". Eduardo -----Original Message----- From: Lenise Aparecida Martins Garcia [mailto:lgarcia@unb.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 10:04 AM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: Re: [escola2000] Educacao Negativa (de novo) Eduardo, > "O único indivíduo que faz o que quer é aquele que não tem > necessidade, para fazê-lo, de por os braços de outro na ponta dos > seus". > > Interpreto isso da seguinte forma: só é realmente livre a pessoa que > não depende dos outros para a consecução daquilo que ela quer, porque > ela quer apenas aquilo que ela mesma pode prover. Poderia dar-me algum exemplo de um sonho de vida que cumpra essas caracteristicas? Abracos, Lenise ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 10 Date: Wed, 6 Feb 2002 11:31:23 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Empecilhos 'a Aprendizagem Pergunta a Lenise: >Se a aprendizagem e' algo tao espontaneo, o que e' "aprender a aprender"? Na visão rousseauiana, uma pessoa aprende a aprender quando aprende que, para aprender algo, não é preciso ter alguém que lh'o ensine. Diz ele: "Educado no espírito de nossas máximas, acostumado a tirar todos os seus instrumentos de si mesmo, a não recorrer nunca a ninguém, senão depois de ter reconhecido sua insuficiência, a cada novo objeto que vê, ele [o menino] o examina muito tempo sem nada dizer. Ele é pensativo e não perguntador. Contentai-vos com apresentar-lhes os objetos no momento certo; depois, quando virdes sua curiosidade suficientemente ocupada, proponde alguma pergunta lacônica que o ponha no caminho de responder." Observando o meu neto aprender as coisas, estou concluindo que ele aprender a aprender rapidamente, e de forma bem espontânea... Minhas convicções a esse respeito se tornaram bem mais radicais depois que eu comecei a observá-lo de perto e quase diariamente. Falo sério. Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Lenise Aparecida Martins Garcia [mailto:lgarcia@unb.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 9:59 AM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: Re: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Eduardo, Eu vinha pensando em uma coisa hoje no caminho, a sua mensagem veio bem ao encontro... :-) Quase todas as definicoes de educacao que vimos fazem referencia a crianças. Parece que so' as criancas precisam educar-se / ser educadas. Creio hoje haver uma clareza de que educacao e' algo permanente, para toda a vida... Dai' uma grande importancia do "aprender a aprender". E volto a Rousseau, mas ao trecho de que gostei. Se a aprendizagem e' algo tao espontaneo, o que e' "aprender a aprender"? Abracos, Lenise > Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no > conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de > aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também > olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha > mulher, que fazia suas lições de Inglês. > > Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de > empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No > caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma > olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... > > > 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera > que aprendamos > > 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que > aprendamos, MAS: > > a) acreditamos que já sabemos > > b) acreditamos que não temos condições de aprender > > 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que > aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos > condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de > aprender > > > Será que isso cobre todos os empecilhos? > > No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em > especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem > são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) > Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da > motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, > naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos > convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, > não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico > quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências > -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a > energia necessários para dominá-las.) > > No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas > crenças sejam falsas. > > No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito > tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que > pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até > mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, > porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque > achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e > alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. > Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", > realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar > esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral > independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não > sabemos aquilo que pensamos saber. > > No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não > dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, > tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e > nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música > ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas > cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais > condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos > jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por > exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para > eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos > condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos > de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar > a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, > também, ou, pelo menos, assim me parece). > > Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos > condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, > assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho > aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa > ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição > de aprender, não teríamos medo de não aprender. > > No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, > a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser > que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a > tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra > coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição > necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é > possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu > Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender > clarineta). > > Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência > tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro > empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais > freqüentes. > > O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa > questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? > > > Eduardo > eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 11 Date: Wed, 6 Feb 2002 12:07:12 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem Eduardo, todos Tambem acho que nao devemos enveredar aqui por uma discussao de filosofia politica. Mas acho bom que a tematica tenha vindo aa baila. Comentei que a visao de educacao que esta' nos Principios do Programa e' suficientemente generica para ser consensual. Comentei tambem que considerei esse documento muito equilibrado, parabenizando a equipe que o redigiu. A Bel, concordando com essa visao de educacao, disse que temos uma mesma visao do mundo e do homem. Penso que nao temos. E penso que isso e' muito bom... As pessoas, nas escolas, tambem nao tem. Muitos professores nao conseguem trabalhar juntos porque nao concordam em termos de filosofia politica e/ou politica partidaria. A questao nao é conseguir uma homogeneidade, mas trabalhar com o pluralismo e inclusive o pluralismo. Nesse sentido, vem muito a proposito a ideia de "principio", pois e' possivel, dentro de principios comuns, haver diversidade, uma diversidade importante para o "equilibrio ambiental". "Cada ponto de vista e' a vista de um ponto". Termos perspectivas diversificadas, a meu ver, melhora a visao tridimensional que temos do objeto e aproxima mais da realidade a visao de cada um. Alias, penso que essa é uma das maiores vantagens da aprendizagem colaborativa, que envolve nao apenas uma metodologia como, a meu ver, uma filosofia da educacao. Abracos, Lenise ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 12 Date: Wed, 6 Feb 2002 13:05:40 -0200 From: "Maria Isabel Guimaraes" Subject: RE: educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem Oi, Lenise! Concordo com o que você falou, mas queria só destacar um detalhe: falei que EU tenho uma visão de homem, que, por acaso, pareceu-me coerente com a aquela definição de educação. "Classifiquei-a" como subjetiva justamente porque não acho que essa idéia seja de todos. Talvez eu não tenha me expressado bem :-) Beijos, Bel -----Original Message----- From: Lenise Aparecida Martins Garcia [mailto:lgarcia@unb.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 11:07 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: [escola2000] educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem Eduardo, todos Tambem acho que nao devemos enveredar aqui por uma discussao de filosofia politica. Mas acho bom que a tematica tenha vindo aa baila. Comentei que a visao de educacao que esta' nos Principios do Programa e' suficientemente generica para ser consensual. Comentei tambem que considerei esse documento muito equilibrado, parabenizando a equipe que o redigiu. A Bel, concordando com essa visao de educacao, disse que temos uma mesma visao do mundo e do homem. Penso que nao temos. E penso que isso e' muito bom... As pessoas, nas escolas, tambem nao tem. Muitos professores nao conseguem trabalhar juntos porque nao concordam em termos de filosofia politica e/ou politica partidaria. A questao nao é conseguir uma homogeneidade, mas trabalhar com o pluralismo e inclusive o pluralismo. Nesse sentido, vem muito a proposito a ideia de "principio", pois e' possivel, dentro de principios comuns, haver diversidade, uma diversidade importante para o "equilibrio ambiental". "Cada ponto de vista e' a vista de um ponto". Termos perspectivas diversificadas, a meu ver, melhora a visao tridimensional que temos do objeto e aproxima mais da realidade a visao de cada um. Alias, penso que essa é uma das maiores vantagens da aprendizagem colaborativa, que envolve nao apenas uma metodologia como, a meu ver, uma filosofia da educacao. Abracos, Lenise ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 13 Date: Wed, 6 Feb 2002 13:11:47 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Empecilhos 'a Aprendizagem Bel, Achei interessante a sua observação. FICO, PORÉM, TENTADO A DEFENDER A SEGUINTE TESE : Se o aluno: a) Tem interesse, ou vê sentido, naquilo que se espera que ela aprenda b) Acredita que ainda não sabe, c) Acredita que tem condições de aprender, d) Tem, na verdade, condições de aprender (i.e., não enfrenta, na realidade, empecilhos do tipo 3) ele aprende com qualquer método... Eu aprendi a ler com métodos de alfabetização bastante tradicionais. E acho que aprendi de verdade (embora não negue aos outros o direito de contestar essa afirmação...). Como eu, muita gente. Na verdade, parece-me que todo mundo que foi alfabetizado até que inventaram métodos não fônicos de alfabetização aprendeu a ler bastante bem... :-) Parece que foi quando inventaram moda que o pessoal conseguiu não aprender a ler em seus anos de escola, como acontece na rede pública paulista... O último parágrafo já é provocação... Mas amigável. Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 10:24 AM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Oi, Eduardo! Gostei dessa sua maneira de organizar os empecilhos à aprendizagem. Acho que vale também para crianças na escola, sim. Mas, pensando na escola, acho que poderíamos agregar um outro empecilho: a metodologia. Esse seria mais de "responsabilidade" do professor e não um empecilho interno do aluno. Pude observar isso nos meus poucos anos de atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem. Métodos de alfabetização tradicionais (tipo "vovô viu a uva"...) são exemplos do que estou falando. Algumas crianças podem até dominar a técnica da leitura e escrita, mas será que aprendem de verdade? Levando em consideração a relação existente entre esses (e outros!) empecilhos (eles não aparecem de maneira isolada...), acho que o foco do nosso trabalho como orientadores pode ser a questão da metodologia. Partindo do como estamos trabalhando entre nós, passando por como trabalharemos com as escolas, para chegar a como os professores trabalharão com os alunos. Estou sentindo, na minha vivência da EAC, que a metodologia "ajuda" na motivação, "ajuda" a perceber que não sabemos tudo (mesmo que eu já soubesse disso ;-)), mas que temos condições de aprender muita coisa. Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 07:18 To: eac@escola2000.net Subject: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha mulher, que fazia suas lições de Inglês. Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, MAS: a) acreditamos que já sabemos b) acreditamos que não temos condições de aprender 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de aprender Será que isso cobre todos os empecilhos? No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a energia necessários para dominá-las.) No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas crenças sejam falsas. No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não sabemos aquilo que pensamos saber. No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, também, ou, pelo menos, assim me parece). Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição de aprender, não teríamos medo de não aprender. No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender clarineta). Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais freqüentes. O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 14 Date: Wed, 6 Feb 2002 13:19:30 -0200 From: "Maria Isabel Guimaraes" Subject: RE: Empecilhos 'a Aprendizagem Eduardo, Concordo com você que muitos podem aprender independente do método. Mas, ressaltando a relação que existe entre os empecilhos (eu, definitivamente, não acho que eles aconteçam de maneira isolada), acredito que a metodologia possa, no mínimo, agravar a situação - no caso de já haver algum empecilho. Se aprendemos independentemente do método, por que devemos buscar uma nova escola com novas metodologias?? Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 12:12 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Bel, Achei interessante a sua observação. FICO, PORÉM, TENTADO A DEFENDER A SEGUINTE TESE : Se o aluno: a) Tem interesse, ou vê sentido, naquilo que se espera que ela aprenda b) Acredita que ainda não sabe, c) Acredita que tem condições de aprender, d) Tem, na verdade, condições de aprender (i.e., não enfrenta, na realidade, empecilhos do tipo 3) ele aprende com qualquer método... Eu aprendi a ler com métodos de alfabetização bastante tradicionais. E acho que aprendi de verdade (embora não negue aos outros o direito de contestar essa afirmação...). Como eu, muita gente. Na verdade, parece-me que todo mundo que foi alfabetizado até que inventaram métodos não fônicos de alfabetização aprendeu a ler bastante bem... :-) Parece que foi quando inventaram moda que o pessoal conseguiu não aprender a ler em seus anos de escola, como acontece na rede pública paulista... O último parágrafo já é provocação... Mas amigável. Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 10:24 AM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Oi, Eduardo! Gostei dessa sua maneira de organizar os empecilhos à aprendizagem. Acho que vale também para crianças na escola, sim. Mas, pensando na escola, acho que poderíamos agregar um outro empecilho: a metodologia. Esse seria mais de "responsabilidade" do professor e não um empecilho interno do aluno. Pude observar isso nos meus poucos anos de atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem. Métodos de alfabetização tradicionais (tipo "vovô viu a uva"...) são exemplos do que estou falando. Algumas crianças podem até dominar a técnica da leitura e escrita, mas será que aprendem de verdade? Levando em consideração a relação existente entre esses (e outros!) empecilhos (eles não aparecem de maneira isolada...), acho que o foco do nosso trabalho como orientadores pode ser a questão da metodologia. Partindo do como estamos trabalhando entre nós, passando por como trabalharemos com as escolas, para chegar a como os professores trabalharão com os alunos. Estou sentindo, na minha vivência da EAC, que a metodologia "ajuda" na motivação, "ajuda" a perceber que não sabemos tudo (mesmo que eu já soubesse disso ;-)), mas que temos condições de aprender muita coisa. Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 07:18 To: eac@escola2000.net Subject: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha mulher, que fazia suas lições de Inglês. Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, MAS: a) acreditamos que já sabemos b) acreditamos que não temos condições de aprender 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de aprender Será que isso cobre todos os empecilhos? No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a energia necessários para dominá-las.) No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas crenças sejam falsas. No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não sabemos aquilo que pensamos saber. No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, também, ou, pelo menos, assim me parece). Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição de aprender, não teríamos medo de não aprender. No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender clarineta). Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais freqüentes. O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 15 Date: Wed, 6 Feb 2002 13:52:07 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Empecilhos 'a Aprendizagem A Bel pergunta: > Se aprendemos independentemente do método, por que devemos buscar uma nova escola com novas metodologias? < A Lenise havia perguntado: > Se a aprendizagem e' algo tao espontaneo, o que e' "aprender a aprender"? < Essas duas perguntas são equivalentes? A minha sugestão (provocadora) de que o método não faz diferença foi feita depois de um certo número de condições (SE a,b,c,d). Pode haver métodos que não permitem que a criança aprenda aquilo que tem interesse em aprender, que tentam obrigá-la a aprender o que não faz sentido, que pressupõem que ela não tem condições de aprender por si própria... Com métodos assim (que não cumprem as condições a,b,c,d) a criança não aprende... Se você me disser que até assim ela aprende, é você que tem que responder por que buscar uma nova escola com novos métodos... Eduardo -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 1:20 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Eduardo, Concordo com você que muitos podem aprender independente do método. Mas, ressaltando a relação que existe entre os empecilhos (eu, definitivamente, não acho que eles aconteçam de maneira isolada), acredito que a metodologia possa, no mínimo, agravar a situação - no caso de já haver algum empecilho. Se aprendemos independentemente do método, por que devemos buscar uma nova escola com novas metodologias?? Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 12:12 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Bel, Achei interessante a sua observação. FICO, PORÉM, TENTADO A DEFENDER A SEGUINTE TESE : Se o aluno: a) Tem interesse, ou vê sentido, naquilo que se espera que ela aprenda b) Acredita que ainda não sabe, c) Acredita que tem condições de aprender, d) Tem, na verdade, condições de aprender (i.e., não enfrenta, na realidade, empecilhos do tipo 3) ele aprende com qualquer método... Eu aprendi a ler com métodos de alfabetização bastante tradicionais. E acho que aprendi de verdade (embora não negue aos outros o direito de contestar essa afirmação...). Como eu, muita gente. Na verdade, parece-me que todo mundo que foi alfabetizado até que inventaram métodos não fônicos de alfabetização aprendeu a ler bastante bem... :-) Parece que foi quando inventaram moda que o pessoal conseguiu não aprender a ler em seus anos de escola, como acontece na rede pública paulista... O último parágrafo já é provocação... Mas amigável. Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 10:24 AM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Oi, Eduardo! Gostei dessa sua maneira de organizar os empecilhos à aprendizagem. Acho que vale também para crianças na escola, sim. Mas, pensando na escola, acho que poderíamos agregar um outro empecilho: a metodologia. Esse seria mais de "responsabilidade" do professor e não um empecilho interno do aluno. Pude observar isso nos meus poucos anos de atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem. Métodos de alfabetização tradicionais (tipo "vovô viu a uva"...) são exemplos do que estou falando. Algumas crianças podem até dominar a técnica da leitura e escrita, mas será que aprendem de verdade? Levando em consideração a relação existente entre esses (e outros!) empecilhos (eles não aparecem de maneira isolada...), acho que o foco do nosso trabalho como orientadores pode ser a questão da metodologia. Partindo do como estamos trabalhando entre nós, passando por como trabalharemos com as escolas, para chegar a como os professores trabalharão com os alunos. Estou sentindo, na minha vivência da EAC, que a metodologia "ajuda" na motivação, "ajuda" a perceber que não sabemos tudo (mesmo que eu já soubesse disso ;-)), mas que temos condições de aprender muita coisa. Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 07:18 To: eac@escola2000.net Subject: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha mulher, que fazia suas lições de Inglês. Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, MAS: a) acreditamos que já sabemos b) acreditamos que não temos condições de aprender 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de aprender Será que isso cobre todos os empecilhos? No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a energia necessários para dominá-las.) No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas crenças sejam falsas. No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não sabemos aquilo que pensamos saber. No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, também, ou, pelo menos, assim me parece). Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição de aprender, não teríamos medo de não aprender. No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender clarineta). Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais freqüentes. O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 16 Date: Wed, 6 Feb 2002 14:11:33 -0200 From: "Maria Isabel Guimaraes" Subject: RE: Empecilhos 'a Aprendizagem Eduardo, A minha dúvida é: existindo as condições a,b,c,d, será que um "mau método" pode fazê-las desaparecer? (ressalto que é uma dúvida...) Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 12:52 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem A Bel pergunta: > Se aprendemos independentemente do método, por que devemos buscar uma nova escola com novas metodologias? < A Lenise havia perguntado: > Se a aprendizagem e' algo tao espontaneo, o que e' "aprender a aprender"? < Essas duas perguntas são equivalentes? A minha sugestão (provocadora) de que o método não faz diferença foi feita depois de um certo número de condições (SE a,b,c,d). Pode haver métodos que não permitem que a criança aprenda aquilo que tem interesse em aprender, que tentam obrigá-la a aprender o que não faz sentido, que pressupõem que ela não tem condições de aprender por si própria... Com métodos assim (que não cumprem as condições a,b,c,d) a criança não aprende... Se você me disser que até assim ela aprende, é você que tem que responder por que buscar uma nova escola com novos métodos... Eduardo -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 1:20 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Eduardo, Concordo com você que muitos podem aprender independente do método. Mas, ressaltando a relação que existe entre os empecilhos (eu, definitivamente, não acho que eles aconteçam de maneira isolada), acredito que a metodologia possa, no mínimo, agravar a situação - no caso de já haver algum empecilho. Se aprendemos independentemente do método, por que devemos buscar uma nova escola com novas metodologias?? Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 12:12 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Bel, Achei interessante a sua observação. FICO, PORÉM, TENTADO A DEFENDER A SEGUINTE TESE : Se o aluno: a) Tem interesse, ou vê sentido, naquilo que se espera que ela aprenda b) Acredita que ainda não sabe, c) Acredita que tem condições de aprender, d) Tem, na verdade, condições de aprender (i.e., não enfrenta, na realidade, empecilhos do tipo 3) ele aprende com qualquer método... Eu aprendi a ler com métodos de alfabetização bastante tradicionais. E acho que aprendi de verdade (embora não negue aos outros o direito de contestar essa afirmação...). Como eu, muita gente. Na verdade, parece-me que todo mundo que foi alfabetizado até que inventaram métodos não fônicos de alfabetização aprendeu a ler bastante bem... :-) Parece que foi quando inventaram moda que o pessoal conseguiu não aprender a ler em seus anos de escola, como acontece na rede pública paulista... O último parágrafo já é provocação... Mas amigável. Eduardo eduardo@chaves.com.br -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 10:24 AM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Oi, Eduardo! Gostei dessa sua maneira de organizar os empecilhos à aprendizagem. Acho que vale também para crianças na escola, sim. Mas, pensando na escola, acho que poderíamos agregar um outro empecilho: a metodologia. Esse seria mais de "responsabilidade" do professor e não um empecilho interno do aluno. Pude observar isso nos meus poucos anos de atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem. Métodos de alfabetização tradicionais (tipo "vovô viu a uva"...) são exemplos do que estou falando. Algumas crianças podem até dominar a técnica da leitura e escrita, mas será que aprendem de verdade? Levando em consideração a relação existente entre esses (e outros!) empecilhos (eles não aparecem de maneira isolada...), acho que o foco do nosso trabalho como orientadores pode ser a questão da metodologia. Partindo do como estamos trabalhando entre nós, passando por como trabalharemos com as escolas, para chegar a como os professores trabalharão com os alunos. Estou sentindo, na minha vivência da EAC, que a metodologia "ajuda" na motivação, "ajuda" a perceber que não sabemos tudo (mesmo que eu já soubesse disso ;-)), mas que temos condições de aprender muita coisa. Beijos, Bel -----Original Message----- From: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Sent: quarta-feira, 6 de fevereiro de 2002 07:18 To: eac@escola2000.net Subject: [escola2000] Empecilhos 'a Aprendizagem Fiquei pensando, ontem à noite, depois de ter passado os olhos no conteúdo do meu livro sobre piscinas, sobre dificuldades de aprendizagem que nós, adultos, às vezes temos. Enquanto eu lia, também olhava, primeiro o Clone, depois o Big Brother e conversava com minha mulher, que fazia suas lições de Inglês. Rabisquei algumas idéias, que aqui compartilho com vocês na forma de empecilhos à aprendizagem, em especial à aprendizagem de adultos. (No caso de crianças, outras variáveis podem estar atuando). Dêem uma olhada. Se não servir para nada, não hesitem em usar o Wastebasket... 1) Não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos 2) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, MAS: a) acreditamos que já sabemos b) acreditamos que não temos condições de aprender 3) Temos interesse, ou vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos, acreditamos que ainda não sabemos, acreditamos que temos condições de aprender, MAS, na realidade, não temos condições de aprender Será que isso cobre todos os empecilhos? No caso 1, o problema é de motivação. (Creio que, na escola, em especial com adolescentes e jovens, as dificuldades de aprendizagem são muito relacionadas a esse fator. No ensino superior, sem dúvida.) Para eliminar esse empecilho, temos que trabalhar a questão da motivação, entender porque não temos interesse, ou não vemos sentido, naquilo que se espera que aprendamos. Pode ser que, no processo, nos convençamos de que não temos mesmo interesse naquilo e que, portanto, não há sentido em aprender. (Eu desisti de fazer o curso científico quando me convenci de que não tinha interesse em matemática e ciências -- pelo menos o suficiente para dedicar a essas matérias o tempo e a energia necessários para dominá-las.) No caso 2, o problema são as crenças que temos, mesmo que essas crenças sejam falsas. No caso 2a, se acreditamos que já sabemos algo, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, não saibamos o que pensamos saber. (Gosto muito de cantar, em corais, em grupos e até mesmo individualmente. Nunca fui fazer curso de música ou de canto, porém, dedicando a esse aprendizado meu tempo e minha energia, porque achava que eu já sabia cantar, pelo menos suficientemente bem, e alguns amigos bem intencionados reforçavam essa minha errônea crença. Foi só muito tarde na minha vida que concluí que, "desgraciadamente", realmente eu não sabia, como ainda não sei, cantar.) Para eliminar esse empecilho, é preciso que alguma coisa aconteça (em geral independente de nós) que nos convence de que, na realidade, não sabemos aquilo que pensamos saber. No caso 2b, se acreditamos que não temos condição de aprender, não dedicaremos muito tempo e energia a aprendê-lo, mesmo que, de fato, tenhamos condição de aprender, porque acreditamos que nosso tempo e nossos esforços serão desperdiçados. (Não faço hoje um curso de música ou de canto porque acredito que, a essas alturas, meus dedos e minhas cordas vocálicas já estão enferrujados, e, portanto, não tenho mais condições de aprender, pelo menos, condições comparáveis às dos jovens. Muita gente nunca começa a estudar uma língua estrangeira, por exemplo, porque acredita que está muito velha para começar...) Para eliminar esse empecilho, é preciso que nos convençamos de que temos condições de aprender aquilo que temos interesse em aprender. (Cursos de reprogramação neurolingüística são, em geral, dedicados a nos levar a rever crenças básicas que temos acerca de nós mesmos. A psicanálise, também, ou, pelo menos, assim me parece). Uma variante de 2b é relacionado não tanto à crença de que não temos condição de aprender, mas ao medo de que não consigamos aprender e, assim, possamos nos sentir fracassados, dar vexame, etc. O empecilho aqui é colorido mais pela emoção do que pela crença -- embora possa ser o caso de que, se realmente acreditássemos que tínhamos condição de aprender, não teríamos medo de não aprender. No caso de 3, o problema não são mais as crenças que temos, mas, sim, a ausência real de condições necessárias para a aprendizagem. Pode ser que na realidade não tenhamos capacidade (ou dom) para aprender a tocar algum instrumento ou a cantar, ou para fazer qualquer outra coisa. Ou pode ser que não tenhamos tempo, dinheiro ou outra condição necessária para aprender. Mesmo sem muita capacidade (ou dom), é possível aprender bastante, se a motivação for grande (vide Meu Adorável Professor, em relação à menina que queria aprender clarineta). Em mais de 30 anos de magistério na universidade, minha experiência tem sido, em relação à filosofia (que é minha área), que esse terceiro empecilho é MUITO RARO mesmo. Os outros três (1, 2a e 2b) são bem mais freqüentes. O que vocês acham? Vale apenas dedicar uns dedos de prosa a essa questão? O que eu disse vale também para crianças na escola? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 17 Date: Wed, 6 Feb 2002 14:20:01 -0200 From: "Maria Isabel Guimaraes" Subject: RE: Pensando um pouco mais.... Oi, Lu! Acho que sua análise foi em relação à educação propriamente dita, enquanto a minha, do Ney e da Lenise, foram em relação àquela conceituação específica de educação. Talvez por isso você não ache que tenha ficado muito claro. O que não impede que seja discutido o que você propõe!! Beijos, Bel -----Original Message----- From: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Sent: terça-feira, 5 de fevereiro de 2002 14:52 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: [escola2000] Pensando um pouco mais.... Olá pessoal! Lendo os trabalhos colocados pelo Ney, Bel, Lenise, Celso e comentários do Eduardo, percebi que, em muitos momentos, as respostas foram semelhantes, o que achei interessante, levando em conta que temos diferentes formações e construirmos nossas idéias a partir de diferentes fontes de informações e interações (apesar de uma delas ser comum a todos nós: a nossa lista). Acho que essa constatação pode levar a uma reflexão: será que nossa troca de idéias no virtual interferiu na nossa formação fazendo com que tenhamos idéias semelhantes? E outra, será que podemos dizer que estamos afinados em relação aos princípios do programa? Bom, esse início foi somente uma "viagem", mas o que me trás realmente aqui é a vontade de discutir mais sobre uma questão que para mim não ficou tão clara, apesar que tenho as minhas hipóteses, e que se confirmadas, podem levar a uma outra reflexão também bem interessante. A questão a que me refiro é a nº 2 onde é perguntado se o conceito de Educação apresentado é uma definição objetiva ou somente uma manifestação de persuasão subjetiva. Vejam as respostas de cada um: - Citando Frei Beto, "todo ponto de vista é a vista de um ponto". Toda definição é uma tentativa de objetivação, mas toda conceituação atende a um determinado tempo, lugar, ocasião e vontade dos definidores. O olhar que hoje define uma determinada realidade, à medida que se conhece mais esta realidade tende a incorporar elementos em uma definição ou até mesmo a buscar novas formas de ver e de compreender esta realidade. Basta ver o que tínhamos como definições iniciais do programa Sua Escola (ainda enquanto concurso) e hoje, passados dois anos. É certo que o conceito de educação que teremos daqui a cinco anos terá incorporado valores mais densos, expandindo-se, ganhando em qualidade e grau de certeza. (Ney) - Acho que no caso nem uma coisa nem outra. Eu diria que é uma tentativa de expressar, o mais objetivamente possível, o que efetivamente ocorre quando se educa. (Lenise) - À primeira vista, me pareceu bastante objetiva. Mas, se pensarmos que nessa conceituação está embutida uma visão de mundo e de homem, poderíamos dizer que é uma definição subjetiva. Para mim, isso não faz com que seja considerada inadequada, uma vez que, além de compartilhar dessa visão de mundo e de homem, acredito que, ao definirmos educação, é importante esclarecer o que realmente esperamos que aconteça com o indivíduo, ator dessa educação. (Bel) - E a minha hipótese: Eu acho que são manifestações de persuasões subjetivas, pois permitem que o sujeito expresse suas idéias e interfira na formação do aluno. É na oportunidade de expor suas opiniões, trabalhar em grupo, respeitar as diferenças que os sujeitos poderão persuadir e ser persuadidos levando ao desenvolvimento de competências que o tornem capaz de viver suas vidas, enquanto que na definição objetiva o sujeito é isento do processo, só recebendo informação. (Luciana) Afinal, o que podemos realmente concluir? É uma definição objetiva ou somente uma manifestação de persuasão subjetiva.? No caso de ser uma persuasão subjetiva, o que a minha hipótese me leva a crer, vamos pensar na avaliação: será que o problema da avaliação é por que os professores querem fazer uma avaliação objetiva enquanto a educação é uma manifestação de persuasão subjetiva? Aguardo, ansiosa respostas para essa minha dúvida. Beijos Luciana ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 18 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:15:35 -0200 From: "Lenise Aparecida Martins Garcia" Subject: Re: educacao, filosofia politica, visao do mundo e do homem Bel, Confesso que citei de memoria a sua colocacao [ou a impressao que me havia ficado dela :-)]. Obrigada por esclarecer. Abracos, Lenise > Concordo com o que você falou, mas queria só destacar um detalhe: > falei que EU tenho uma visão de homem, que, por acaso, pareceu-me > coerente com aquela definição de educação. "Classifiquei-a" como > subjetiva justamente porque não acho que essa idéia seja de todos. > Talvez eu não tenha me expressado bem :-) ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 19 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:25:41 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: RES: Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o “praticário” leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma “agenda” que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um “ser” em plenitude. De fato, Lu, no primeiro “degrau”, ou no “marco zero” de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros “AUTOS” viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma “ordem” no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: “O que você vai ser quando crescer?” Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: “Bandido!” Ora, a pergunta que fala sobre “ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gadner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 20 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:25:45 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: DriP, solte a galinha ruiva nesse mato! Olá... Em uma mensagem desta semana, a DriP provocou, perguntando se queríamos saber sobre a galinha ruiva. Contive até agora a minha língua (ou dedos!), para saber o que a galinha ruiva tem a ver com as calças... Como ninguém perguntou, imaginou duas coisas: ou que todo mundo se lembra da história da galinha ruiva e conseguiu estabelecer a relação (o que não é o meu caso, pois já dei “tratos à bola”, como adora dizer a minha avó, ainda viva, com nada menos que 92 anos...); ou que estão com receio de provocar a nossa contadora de histórias. Como não me agüento mais de curiosidade, reacendo a chama da galinha ruiva, pedindo que a nossa amiga conte, com o charme que Deus lhe deu, a história da famosa (?) galinha. E que faça as relações devidas com o que conversávamos sobre escolas, pontes, Rubem Alves e outros “bichos”... Direto da granja, Ney Mourão ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 21 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:25:46 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: RES: Todo ponto de vista e' a vista de um ponto Eduardo, Creio que, sim, possa ter havido alguma confusão minha. A frase foi citada por Frei Betto, sem nenhum crédito, em dois artigos dele, comentando sobre a Teologia da Libertação. Depois, ouvi-o citando a frase em um seminário na disciplina de Dogmática Cristã, na Pontifícia Universidade Católica de Minas – novamente, sem fazer referência a um possível autor. Dei-a, portanto, como dele... ;-) Agora, agradeço a informação... Um abração, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Enviada em: Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2002 09:43 Para: eac@escola2000.net Assunto: [escola2000] Todo ponto de vista e' a vista de um ponto Só uma observação menor. No texto do Ney ele menciona, duas vezes, que a frase acima (no Assunto) é de autoria do Frei Betto. Acho que houve um equívoco (ou, pelo menos, uma incrível coincidência). Embora eu não tenha o livro comigo, estou analisando uma dissertação de mestrado que cita Leonardo Boff, A Águia e a Galinha: Uma Metáfora da Condição Humana (Vozes, Petrópolis, 1997), p.9, como dizendo: "Todo ponto de vista é a vista de um ponto. (. . .) A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha". Eduardo ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 22 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:27:29 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: RES: Sobre idearios e praticarios Comentando Celso... Ele diz: > Um dos maiores problemas nas escolas é o acumulo de problemas e de tarefas. O cotidiano passa na frente do racional e do reflexivo. > Concordo, Celso. Tenho visto que um dos maiores desafios é, justamente esse. E aí, acrescento uma pergunta: É possível, antão, estabelecer iniciativas, junto aos professores (e, também nos alunos), para refletir sobre o cotidiano, racionalizar o dia-a-dia? Ou é justamente o oposto que deve ser o caminho: “cotidianizar” (isso existe? O corretor ortográfico gritou!) as reflexões? Como fazer para que essa ponte seja natural, para que não haja o “momento reflexão” e o “momento prática”? Viajei? Um abraço, Ney Como trazer bastante gente de uma escola para perto de nós, para que possamos ajuda-los? Um abraço, Celso Vallin - Sao Jose dos Campos (SP) ---------------------------------------------------- -----Mensagem Original----- De: Luciana Salgado Para: escola2000@courses.yahoo.com Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:11 Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gadner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 23 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:28:34 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Pensando um pouco mais.... Vamos admitir que "todo ponto de vista seja a vista de um ponto". É inegável que, a partir de pontos diferentes, temos vistas diferentes. Ninguém ousaria negar isso. Se eu olhar a minha rua do ponto que é o meu escritório, vejo a parte de trás da Igreja de Santa Rita; se a olhar do ponto que é a a parte de trás da igreja, vejo o meu escritório. A questão que é relevante para a objetividade, no entanto, é: todo mundo que fica neste ponto tem a mesma vista se olhar na mesma direção? Se tiver, a vista é objetiva (isto é, depende do objeto, não do sujeito). Se, no entanto, do mesmo ponto, olhando na mesma direção, um vê uma igreja e o outro, digamos, um posto de gasolina, então é difícil argumentar que a vista daquele ponto é objetiva. O que acham? Eduardo -----Original Message----- From: Maria Isabel Guimaraes [mailto:belguimaraes@uol.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 2:20 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RE: [escola2000] Pensando um pouco mais.... Oi, Lu! Acho que sua análise foi em relação à educação propriamente dita, enquanto a minha, do Ney e da Lenise, foram em relação àquela conceituação específica de educação. Talvez por isso você não ache que tenha ficado muito claro. O que não impede que seja discutido o que você propõe!! Beijos, Bel -----Original Message----- From: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Sent: terça-feira, 5 de fevereiro de 2002 14:52 To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: [escola2000] Pensando um pouco mais.... Olá pessoal! Lendo os trabalhos colocados pelo Ney, Bel, Lenise, Celso e comentários do Eduardo, percebi que, em muitos momentos, as respostas foram semelhantes, o que achei interessante, levando em conta que temos diferentes formações e construimos nossas idéias a partir de diferentes fontes de informações e interações (apesar de uma delas ser comum a todos nós: a nossa lista). Acho que essa constatação pode levar a uma reflexão: será que nossa troca de idéias no virtual interferiu na nossa formação fazendo com que tenhamos idéias semelhantes? E outra, será que podemos dizer que estamos afinados em relação aos princípios do programa? Bom, esse início foi somente uma "viagem", mas o que me trás realmente aqui é a vontade de discutir mais sobre uma questão que para mim não ficou tão clara, apesar que tenho as minhas hipóteses, e que se confirmadas, podem levar a uma outra reflexão também bem interessante. A questão a que me refiro é a nº 2 onde é perguntado se o conceito de Educação apresentado é uma definição objetiva ou somente uma manifestação de persuasão subjetiva. Vejam as respostas de cada um: - Citando Frei Beto, "todo ponto de vista é a vista de um ponto". Toda definição é uma tentativa de objetivação, mas toda conceituação atende a um determinado tempo, lugar, ocasião e vontade dos definidores. O olhar que hoje define uma determinada realidade, à medida que se conhece mais esta realidade tende a incorporar elementos em uma definição ou até mesmo a buscar novas formas de ver e de compreender esta realidade. Basta ver o que tínhamos como definições iniciais do programa Sua Escola (ainda enquanto concurso) e hoje, passados dois anos. É certo que o conceito de educação que teremos daqui a cinco anos terá incorporado valores mais densos, expandindo-se, ganhando em qualidade e grau de certeza. (Ney) - Acho que no caso nem uma coisa nem outra. Eu diria que é uma tentativa de expressar, o mais objetivamente possível, o que efetivamente ocorre quando se educa. (Lenise) - À primeira vista, me pareceu bastante objetiva. Mas, se pensarmos que nessa conceituação está embutida uma visão de mundo e de homem, poderíamos dizer que é uma definição subjetiva. Para mim, isso não faz com que seja considerada inadequada, uma vez que, além de compartilhar dessa visão de mundo e de homem, acredito que, ao definirmos educação, é importante esclarecer o que realmente esperamos que aconteça com o indivíduo, ator dessa educação. (Bel) - E a minha hipótese: Eu acho que são manifestações de persuasões subjetivas, pois permitem que o sujeito expresse suas idéias e interfira na formação do aluno. É na oportunidade de expor suas opiniões, trabalhar em grupo, respeitar as diferenças que os sujeitos poderão persuadir e ser persuadidos levando ao desenvolvimento de competências que o tornem capaz de viver suas vidas, enquanto que na definição objetiva o sujeito é isento do processo, só recebendo informação. (Luciana) Afinal, o que podemos realmente concluir? É uma definição objetiva ou somente uma manifestação de persuasão subjetiva.? No caso de ser uma persuasão subjetiva, o que a minha hipótese me leva a crer, vamos pensar na avaliação: será que o problema da avaliação é por que os professores querem fazer uma avaliação objetiva enquanto a educação é uma manifestação de persuasão subjetiva? Aguardo, ansiosa respostas para essa minha dúvida. Beijos Luciana ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 24 Date: Wed, 6 Feb 2002 15:33:34 -0200 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: RE: Sobre idearios e praticarios Sôfrego, Ney? De onde você desenterrou essa??? Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 3:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RES: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o “praticário” leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma “agenda” que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um “ser” em plenitude. De fato, Lu, no primeiro “degrau”, ou no “marco zero” de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros “AUTOS” viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma “ordem” no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: “O que você vai ser quando crescer?” Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: “Bandido!” Ora, a pergunta que fala sobre “ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gardner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 25 Date: Wed, 6 Feb 2002 17:40:12 -0200 From: "Ney Mourao" Subject: PALAVRAS [Era: Sobre idearios e praticarios] Não é lindo? Há palavras na língua portuguesa que, creio, deveríamos fazer piquetes para que fossem mais utilizadas. Sôfrego é uma delas. Seu sinônimo é outro proparoxítono simplesmente lindo: “ávido”... Não sei por que, ávido parece-me ter asas, não como de pássaros, mas de borboletas, leves, suaves, frágeis até... Sôfrego é um ávido que sofre, que tem ganas de saber, de ter retorno. Apaixono-me à primeira vista se alguém diz “ABRUPTO”. Mais ainda, se a pessoa diz como se deve dizer corretamente: AB - RUP (o R como em Rato...) - TO. Há quem diga : A – BRUP – TO. Não tem o mesmo encanto – nem a correção necessária. Um amigo disse-me que sua relação acabou de forma ab – rup - ta. Fiquei a contemplá-lo imerso em abruptas condolências, imaginando um amor que ainda acaba assim, cheio de salamaleques, tristezas e palavras fora de moda. Hoje em dia os amores acabam “de repente”. Não, Eduardo, não tem MESMO a mesma beleza. Quando o meu amor acabar, se for de forma abrupta, ficarei tão triste quanto, mas muito mais inebriado por sua beleza que se foi... Gosto de esplêndido... Não há como uma coisa de quem se diz esplêndida não ser deslumbrante. É um proparoxítono que ressoa. Que dá trabalho ao palato, que sibila. Quer outra? Girândola!!! Falem girândola sem que toda a sua face comemore a beleza de nossa língua... Impossível! Há, por certo, as feias. Não sei por que, acho “balde” uma delas! Já fiz de tudo para não ter implicâncias com balde... Até comprar um balde muito lindo, mas não deu... Detesto o relativo “cujo”. Não lembra um palavrão? Certa vez, briguei com uma professora de português. Ela, impassível, na minha frente, disse algo que magoou. Eu disse: “Sua... sua.... sua.... sua... CUJA!” Ela ficou me olhando, como se eu fosse completamente insano (outra palavra linda... Nem se parece com o sinônimo eu tem...). A dita cuja, hoje, é uma grande amiga minha; tem 71 anos e outro dia cruzei com ela em uma sala de bate-papo onde ela ostentava, com orgulho, o seu nick: “CUJA” . Juro que isso é verdade e dou fé... Na cozinha, acho horrível a palavra GRATINAR. Quando era mais jovem do que hoje sou, minha mãe dizia que iria gratinar o prato. Juro que eu pensava comigo: “Será que ela não podia separar a minha parte?” Imaginava uma coisa pisada, amassada, decomposta, “gratinada”, mesmo! Imaginava minha mãe, em seus acessos de raiva incontidos, pisando o prato, toda amalucada, gratinando tudo ao seu redor. Confesso que, ainda hoje, adoro o acepipe (linda essa, não? Qualquer gororoba chamada de acepipe é uma delícia...), mas prefiro que não falem a palavra tão feia... Certa vez, Mário Quintana disse, em um dos seus pequenos grande poemas, que não me lembro de forma literal, sobre a beleza dos cinamomos. Sabem o que é? A árvore da canela. Caneleiras, talvez? Mas, lembra bem Quintana: cinamomos não é muito mais lindo? Nossa! Até onde fui!!! Livre pensar.. É só pensar... Abraços, Eduardo... A todos, desculpem o arroubo vespertino... Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Eduardo O C Chaves [mailto:eduardo@chaves.com.br] Enviada em: Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2002 15:34 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: RE: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Sôfrego, Ney? De onde você desenterrou essa??? Eduardo -----Original Message----- From: Ney Mourao [mailto:neymourao@neymourao.com.br] Sent: Wednesday, February 06, 2002 3:26 PM To: escola2000@courses.yahoo.com Subject: RES: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Olá, Gostaria de acrescentar às questões aqui explanadas pela Luciana algumas outras. Creio que vou botar mais lenha na fogueira. Concordo plenamente com a Lu, quando ela fala da necessidade de que o “praticário” leve em consideração aspectos ligados à identidade e ao que ela chama de espiritualidade. Tenho trabalhado por aqui, em algumas experiências práticas coordenadas pelo Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, onde ele aprofunda diversas questões ligadas às competências e, principalmente, às competências pessoais, relacionadas ao aprender a ser. Como um linha de raciocínio não-reducionista, mas apenas como norteadora da compreensão, o Professor, de forma brilhante, estabeleceu um fio condutor, onde sugere alguns passos práticos, uma “agenda” que poderia nos ajudar a lidar com o educando: necessidades e trilhas para contribuir com um “ser” em plenitude. De fato, Lu, no primeiro “degrau”, ou no “marco zero” de qualquer conversa, o Professor Antônio Carlos sugere que seja trabalhada a autoconsciência, como base para a compreensão e a aceitação de si mesmo. Outros “AUTOS” viriam, na seqüência de qualquer trabalho educativo: AUTOVALORIZAÇÃO: Atribuir-se uma significação positiva; AUTO-ESTIMA: Gostar de si mesmo, apreciar-se; AUTOPERCEPÇÃO: Identificar seus pontos fortes e fracos; AUTOCONCEITO: Formar uma idéia precisa de si mesmo; AUTOCONFIANÇA: Apoiar-se primeiro em suas próprias forças; AUTOPROJEÇÃO: Tornar-se autoproposto, ter um projeto de vida; AUTOTELIA: Estabelecer seus próprios fins, encontrar seu sentido na vida; AUTONOMIA: Reger-se por critérios próprios; AUTODETERMINAÇÃO: Posicionar-se a partir de seus próprios pontos de vista e interesses; AUTOPRESERVAÇÃO: Saber lidar com a adversidade de forma resiliente; AUTO-REALIZAÇÃO: Consciência de estar no caminho certo e de não estar parado. Notem que, apesar de não haver uma “ordem” no alcance destas coisas, os três primeiros itens, incluindo a autoconsciência, autovalorização e auto-estima, constituem-se em uma base, um começo de conversa imprescindível. Vimos, na prática, em trabalhos com jovens em conflito com a lei, que a pergunta que mais os magoa e irrita é sempre: “O que você vai ser quando crescer?” Não é raro que eles respondam, apenas para agredir: “Bandido!” Ora, a pergunta que fala sobre “ser quando crescer, normalmente está associada a um PROJETO DE VIDA. Isso, na cabeça desses meninos, está lá na frente, muito longe do básico que ainda não foi construído: entender-se, aceitar-se, gostar-se, ser confiante. A partir disso, sim, pode-se falar em projeto. Creio que muitas vezes, na nossa educação, falta levar o aluno PRIMEIRO a gostar-se, aceitar-se, para DEPOIS se falar em qualquer projeto de vida. É claro que estou sôfrego de vontade de ouvir os demais... ;-) Um abraço, Ney Mourão -----Mensagem original----- De: Luciana Salgado [mailto:lsalgado@uol.com.br] Enviada em: Domingo, 3 de Fevereiro de 2002 14:12 Para: escola2000@courses.yahoo.com Assunto: Re: [escola2000] Sobre idearios e praticarios Oi Eduardo, olá pessoal! Há muito tempo venho refletindo sobre essa questão que você nos trás, mas até agora eu não havia conseguido colocá-la no papel, o que você fez de forma muito clara e que, sem dúvida, deve ser o ponto de partida para nossas discussões: "Como transformar o ideário em praticário?" Difícil, não? Mas, não impossível.... A fórmula mágica eu não tenho, mas arrisco algumas hipóteses... O que senti, durante estes dois anos de acompanhamento presencial e virtual é que as pessoas (aí incluso alunos, professores, direção, coordenação, etc...) acreditam no ideário, mas enfrentam muitas dificuldades para torná-lo uma prática. Dentre as dificuldades, destaco duas que, a meu ver, são os maiores entraves: relações humanas e aspectos organizacionais iniciais, relacionados a três perguntas: "Começar por onde?", "Quem envolver?", "Como cativá-los?". - Relações Humanas Não existe projeto de vida, escolar, familiar que vá para frente se as relações humanas não tiverem muito bem resolvidas. Acho que cabe aqui comentar sobre o que o Eduardo falou em relação a entrevista de Toro na Nova Escola. Concordo com você, Eduardo, quando coloca que Toro simplificou muito ao apresentar somente as 8 competências. A meu ver ele esqueceu a mais importante: desenvolver sua espiritualidade e reconhecer sua identidade. O desenvolvimento dessa competência deve acontecer em todas as atividades vivenciadas pela comunidade escolar diariamente. Falo em comunidade escolar e não em aluno, pois se conseguirmos fazê-los refletir sobre essas questões, não precisamos, como propõe Rubem Alves criar uma nova escola. O que temos é que trabalhar nos recursos humanos, na auto-estima destas pessoas, no reconhecimento da sua identidade e na sua identificação como pertencendo aquele grupo e, que com suas competências e habilidades, pode de alguma forma contribuir com ele. Será que fui clara? A minha hipótese é que devemos começar com textos e atividades que leve a reflexão sobre papéis na comunidade e respeito mútuo. Seria o desenvolvimento da nona inteligência apresentada por Gardner: a inteligência espiritual. Ele afirma explicitamente que não está propondo uma inteligência espiritual, religiosa ou moral baseada em quaisquer "verdades" específicas propostas por diferentes indivíduos, grupos ou instituições. Em vez disso, ele está sugerindo que qualquer representação do espectro de inteligências humanas deveria incluir a busca tão antiga da humanidade das respostas às perguntas básicas da vida: "Quem somos nós?", "Qual é o sentido disso tudo?", "Por que existe o mal?", "Para onde está indo a humanidade?", "Existe significado na Vida?", e assim por diante. - Aspectos Organizacionais Iniciais O outro ponto é relacionado à questões organizacionais. Além das relações humanas, a comunidade escolar tem muita dificuldade em colocar as idéias em prática, sistematizar. Muitas vezes eles têm boa vontade, mas não sabem como se organizar. Pensar em um encontro para reflexão, como fazer as pessoas comprarem a idéia, qual o objetivo das reuniões, etc para eles é muito difícil. Precisamos investir com um apoio para que eles dêem o pontapé inicial. Imagino que textos de apoio e reflexões em grupo de como organizar um encontro, saber definir o objetivo do momento, como elaborar dinâmicas de sensibilização pode ajudá-los a estruturar o trabalho. Bom, acho que é isso... O que vocês acham? Beijos Lu ----- Original Message ----- From: Eduardo O C Chaves To: eac@escola2000.net Sent: Sunday, February 03, 2002 11:51 AM Subject: [escola2000] Sobre idearios e praticarios No chat, nós combinamos continuar a discussão, na lista, de algumas das questões levantadas. Deixei o sabado inteiro para que isso acontecesse. Como nao aconteceu, estou comecando a provocar... Lá no chat o Ney disse que a leitura do Ideário do Programa o comoveu - e perguntou o que a gente precisava / devia fazer para conseguir que ele, o ideário, comovesse o pessoal das escolas. Na minha resposta, eu disse que minha maior preocupação não era tanto com a emoção das pessoas (a Lu concordou comigo...). Em Faxinal, e, depois, em vários encontros regionais, e mesmo através de encontros pessoais (presenciais) e nas nossas listas, tenho visto muitas pessoas se emocionarem com idéias -- em especial, com as idéias que dão sustentação ao programa. Basta apresentá-las bem que as pessoas se emocionam. A capacidade de se emocionar com idéias é uma característica única do ser humano -- porque, afinal de contas, o ser humano é o único animal a lidar com idéias, e, portanto, com capacidade de se emocionar -- ou de se irritar! -- com elas. (Essa capacidade, embora potencialmente muito positiva, está também por detrás de fanatismos de diferentes espécies, inclusive religiosos. Mas não é nessa direção que desejo continuar). Minha maior preocupação no momento está em como transformar o ideário em "praticário". Pressupondo que a maior parte das pessoas com que vamos lidar, nas escolas, está de acordo quanto ao ideário, e mesmo se emocione com ele, como transformá-lo em prática pedagógica concreta? [Certamente não terá passado despercebido o fato de que o "praticário" nada mais é do que a nossa tão buscada "tecnologia social"]. Se não soubermos fazer isso, seremos meros "utopistas" (outro nome para "idearistas"), como bem ressaltou o diretor da Escola da Ponte. E de idearistas o mundo está cheio (o que, nem de longe, é mau). Precisamos, porém, saber transformar a nossa utopia (o nosso ideário) em prática pedagógica concreta (em praticário). O Rubem Alves, que também se emociona com essas idéias, acha que só criando uma escola nova, a partir do zero. Tentar transformar a velha, na opinião dele, não vai dar certo. Será? Se ele está certo, estamos perdendo tempo. Valeria mais a pena o IAS construir uma "escola modelo" e chamar o pessoal pra ver. O grande desafio é mudar os milhares de escolas que estão esparraramadas por aí. Dá para fazer? Como? Sugestões? Eduardo eduardo@chaves.com.br ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________