------------------------------------------------------------------------ There is 1 message in this issue. Topics in this digest: 1. Artiguete - Outro From: "Eduardo O C Chaves" ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Message: 1 Date: Mon, 18 Feb 2002 00:58:50 -0300 From: "Eduardo O C Chaves" Subject: Artiguete - Outro Encaminho-lhes um outro artiguete que escrevi. O tema é o mesmo, a redação diferente. Eduardo A TECNOLOGIA E A ESCOLA Eduardo O C Chaves O Ministério da Educação está alardeando, através de sua publicidade, que "A Tecnologia pode Revolucionar Sua Escola". Essa afirmação é claramente mentirosa e, além de mentirosa, perniciosa. A afirmação é mentirosa porque a tecnologia, por si só, não revoluciona coisa nenhuma. Os empresários que imaginaram que a tecnologia, por si só, iria revolucionar a indústria, o comércio, e os serviços, "quebraram a cara" (e alguns não estão mais aqui para contar a história). E ela também não vai, por si só, e como que por passe de mágica, revolucionar a escola. (Uma analogia pode nos ajudar a entender o problema melhor. Para que uma revolução política ocorra, é necessário que a população tenha armas nas mãos para derrubar, pela força, ou mesmo pelo ameaço do uso da força, a ordem estabelecida. No entanto, colocar armas, ainda que as mais sofisticadas, nas mãos da população, não produz, por si só, uma revolução, se essa população não está disposta a lutar para efetuar mudanças que lhe parecem importantes na ordem estabelecida. Talvez o país que mais tenha armas per capita no mundo sejam os Estados Unidos. Esse fato, por si só, não nos permite concluir que, porque todo mundo está armado lá, esteja ocorrendo uma revolução nos Estados Unidos). Mas a afirmação do Ministério da Educação, além de mentirosa, também é perniciosa, porque, por levar as pessoas (especialmente as que militam na educação e na escola, do ministro ao servente) a imaginar que basta colocar tecnologia dentro da escola para que aconteça ali uma revolução, faz com que essas pessoas deixem de mexer naqueles aspectos da escola que, quando radicalmente transformados, podem levar a uma verdadeira revolução. Se queremos revolucionar a escola, somos nós, gente, que temos de fazê-lo - e o processo é lento e difícil, porque se trata, entre outras coisas, de mudança de mentalidade: de desaprender algumas coisas e aprender outras. E as pessoas são apegadas às suas idéias, aos seus hábitos, às maneiras tradicionais de fazer as coisas. Tão apegadas que às vezes não conseguem nem imaginar que poderiam fazer as coisas que vêm fazendo de outra maneira - quanto mais imaginar que poderiam fazer outras coisas, muito mais importantes e valiosas. o O o Se queremos melhorar a qualidade da escola pública brasileira, podemos encarar o desafio de duas maneiras (basicamente alternativas e, portanto, não muito compatíveis), a saber: · Podemos tentar aperfeiçoar os meios que a escola pública hoje utiliza para alcançar seus atuais fins (enfoque instrumental, voltado para a eficiência, e, portanto, na melhor das hipóteses, meramente modernizador) · Podemos tentar rever os atuais fins da instituição, que, uma vez revistos, certamente irão exigir novos meios (enfoque finalista, voltado para a eficácia, e, portanto, potencialmente revolucionário) Consta que Einstein uma vez tenha dito, em relação ao desenvolvimento tecnológico (inclusive na área bélica), que vivemos em uma era de meios cada vez mais aperfeiçoados e fins cada vez mais confusos. Esse afirmação não é menos verdadeira no tocante à política do Ministério da Educação. Mexer apenas nos meios (e tecnologia é apenas meio) não torna os fins menos confusos -- e sem mexer nos fins não há revolução. (Note-se que a afirmação da publicidade do MEC não diz que a tecnologia pode nos ajudar a revolucionar a escola, o que é verdade: ela afirma, taxativa e enganosamente, que a tecnologia pode revolucionar sua escola, como se a tecnologia fosse um agente que pudesse, por si só, fazer coisas). A educação (da qual a escola pretende ser o principal veículo) é um processo histórico-social e, como tal, não pode estar divorciada das condições históricas que vive a sociedade da qual é parte. Elemento importante dessas condições é o contexto cultural, econômico e social em que a educação acontece. Nesse contexto estão forçosamente incluídas as tecnologias que essa sociedade considera fundamentais para o seu funcionamento e para o seu aperfeiçoamento. As profundas e em grande medida revolucionárias transformações por que passou a sociedade ocidental desde a Segunda Guerra Mundial criaram um novo contexto cultural, econômico e social, em que as tecnologias de informação e comunicação desempenham um papel fundamental. Tão radicais foram as transformações que ocorreram nesse período, que muitos argumentam que ele representa a transição da era industrial para uma nova era, marcando o surgimento de uma nova sociedade, a Sociedade da Informação, que está a exigir uma nova visão da educação, e, por conseguinte, da escola. Essa nova visão da educação, que tem sido advogada e defendida, entre outros, pela UNESCO, é absolutamente incompatível com os objetivos, a organização curricular, os métodos de trabalho, a concepção do papel de professores e alunos, a maneira de organizar o espaço e o tempo, e as formas de gestão da escola que atualmente existe (desenvolvida para atender às necessidades da sociedade industrial). Se encarado de forma séria e não meramente paliativa, o objetivo de melhorar a qualidade da escola pública brasileira deve, portanto, ser interpretado da segunda maneira indicada e abranger uma revisão dos fins da educação e da escola e, naturalmente, uma discussão dos meios mais adequados para a consecução dos novos fins que lhe forem atribuídos, o que vai implicar uma verdadeira ressignificação da educação e a uma verdadeira revolução no nosso entendimento do papel da escola. A introdução da tecnologia (ou outros melhoramentos) na escola, mantidos seus objetivos atuais (transmitir informações e conhecimentos "empacotados" nas disciplinas tradicionais), sua atual organização curricular, seus atuais métodos de trabalho, sua concepção atual do papel de professores e alunos, sua maneira de organizar o espaço e o tempo, e suas atuais formas de gestão, pode levar a pequenos ganhos de eficiência, mas não vai tornar a escola eficaz para realizar o que se espera da educação na Sociedade da Informação, e, portanto, não representa nenhuma revolução da ou na escola. Embora a mera introdução da tecnologia na escola não vá transformá-la na direção necessária para atender às exigências deste momento histórico, o século XXI, é inconcebível que a nova escola, voltada para a promoção da educação como desenvolvimento humano, e alicerçada nos "Quatro Pilares" da UNESCO, não faça amplo uso das tecnologias de informação e comunicação hoje tão fundamentais para a Sociedade da Informação. O Programa "Sua Escola a 2000 por Hora", iniciativa conjunta da Microsoft, da Microtec, da TCO TeleCentro Celular, e do Instituto Ayrton Senna, é o único programa que eu conheço que procura pensar o binômio educação e tecnologia dentro dessa ótica: ele busca indicar a direção em que a escola pública brasileira deve mudar para se tornar eficaz no contexto atual, ou seja, para realmente melhorar a qualidade da educação pública brasileira de forma a atender às necessidades e exigências da Sociedade da Informação, e o faz com perfeita consciência de que essa mudança obviamente não acontecerá sem o uso criativo e inovador da tecnologia. ________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________