Maria Isabel Guimarães - Texto 1
Primeiras Questões Desafiadoras
[Quatro
Questões]
Assunto Básico: Conceito de Educação (Primeiro Princípio)
Maria Isabel Guimarães (Bel)
1) Considere esta conceituação de educação e procure responder as questões
abaixo:
Educação, em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as
pessoas se tornam capazes de [desenvolvem as competências necessárias para]
viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público),
de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva.
A) Você acha essa conceituação de educação inteiramente adequada?
Adequada até onde vai, mas incompleta? Totalmente inadequada?
Acho inteiramente adequada, sim.
B) Você acha que conceituações desse tipo podem ser consideradas definições
objetivas ou serão elas nada mais do que manifestações de persuasões
subjetivas (“definições persuasivas”)?
À primeira vista, me pareceu bastante objetiva. Mas, se pensarmos que nessa
conceituação está embutida uma visão de mundo e de homem, poderíamos dizer que é
uma definição subjetiva. Para mim, isso não faz com que seja considerada
inadequada, uma vez que, além de compartilhar dessa visão de mundo e de homem,
acredito que, ao definirmos educação, é importante esclarecer o que realmente
esperamos que aconteça com o indivíduo, ator dessa educação.
C) Você concorda que a expressão “se tornam capazes de” deva ser
interpretada como equivalente a “desenvolvem as competências necessárias
para”?
Sim. Também poderia ser “constroem as competências...”. Acho que o mais
importante é como esse processo acontece.
D) Como deve ser interpretada a expressão “se tornam capazes” nessa
conceituação de educação:
as pessoas se tornam capazes mediante a
ação de terceiros (e, portanto, são educadas);
as pessoas se tornam capazes por si mesmas,
sozinhas (e, portanto, se educam a si próprias, sozinhas);
as pessoas se tornam capazes num processo que
forçosamente envolve interação com outras pessoas (sendo a educação,
portanto, um processo em que as pessoas são educadas por outras pessoas e
se educam a si próprias em interações em que às vezes é impossível
distinguir o papel de uns e de outros).
Concordando com Piaget, quando ele diz que a aprendizagem é construída
pelo sujeito na interação com o meio (simplificando...), podemos dizer
que “as pessoas se tornam capazes num processo que forçosamente envolve
interação com outras pessoas”. Mas, na verdade, acho que as pessoas não são
educadas por outras e nem se educam a si próprias... Concordo com Paulo Freire
quando ele diz que “Ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa a si mesmo. Os
homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”.
Discuta essa questão.
E) Se você acredita que terceiros desempenham um papel importante na
educação de uma pessoa, o papel desses terceiros poderia ser definido como
sendo principalmente de exemplos, de fontes de estímulos e desafios, de
motivadores, ou de ensinantes? Se houver algum outro papel, esclareça.
Acredito que o papel de todo educador (formal ou informal) seja esse. É lógico
que temos que pensar em como isso é feito e no conceito de ensinar. O item H
complementa esse comentário. Mas não podemos excluir a importância do grupo (de
alunos, no caso da escola) no desempenho desse papel também. A pessoa que
aprende, com certeza, encontra exemplos, estímulo e situações desafiadoras, nos
seus pares.
F) O que você acha da chamada “educação negativa” (às vezes chamada de
“educação laissez faire”), que muitos atribuem a Rousseau, segundo a qual a
melhor educação é aquela que menos interfere com o desenvolvimento natural e
espontâneo da criança. Você conhece a experiência de Summerhill? O que acha
dela? Você acha que a educação em Summerhill era desse tipo negativo? Faz
sentido criar uma escola e levar as crianças lá para que lá possam ter uma
“educação negativa”?
Acredito que a função da escola seja propiciar uma educação sistemática (não
entender como tradicional!), onde o objetivo é o ensino (este conceito será
comentado a seguir) e a aprendizagem.
Ao ler sobre a experiência de Summerhill (no site da escola), me pareceu uma
escola “em sintonia” com o conceito de educação fornecido nessa questão 1. A
proposta da escola coloca em primeiro lugar o desenvolvimento da
responsabilidade, autonomia, democracia, respeitando a liberdade do indivíduo (sem
desrespeitar a do outro).
Em relação à discussão que há na lista sobre o ser humano nascer
essencialmente bom ou não, acredito que a proposta de Summerhill não deixe de
trabalhar o possível “lado mau” das crianças. Existem regras na escola (aprox.
230!), limites, assembléias para resolução de problemas... A diferença das
outras escolas é que em Summerhill essas regras são construídas também pelos
alunos... Deve ser um “show” de Protagonismo Juvenil! Nos depoimentos dos alunos,
questionados sobre o que achavam das aulas não-compulsórias, todos falaram que
iam para as aulas porque gostavam e queriam, não tinham medo dos professores...
Mesmo o foco da proposta da escola não sendo a “aprendizagem de conteúdos”, ela
acontece por iniciativa própria dos alunos. Não é isso que a gente quer?
Bom, essa minha análise (talvez ingênua, não sei...) é baseada somente no que
li no site da escola, mas, pelo que li, acredito que, talvez de uma maneira “menos
radical”, devamos caminhar para uma nova educação na direção de Summerhill.
Talvez essa experiência seja a “caída do pêndulo” para o lado oposto, antes de
voltar para o meio.
Não sei se a experiência de Summerhill deve ser considerada “educação
negativa”, pois acho que, de uma maneira não tradicional, existe a ação
intencional de se criar condições favoráveis à aprendizagem dos alunos.
G) Se é verdade que aquilo que uma pessoa vai se tornar, ao longo de sua
educação, não está inexoravelmente programado geneticamente, devemos
concluir que a educação está necessariamente ligada à aprendizagem - e que,
portanto, o conceito de educação tem uma conexão necessária com o conceito
de aprendizagem?
Sim. Na minha opinião, essa é uma questão fundamental. Estudei psicopedagogia e
o objeto de estudo da psicopedagogia é a aprendizagem. O psicopedagogo deve
entender como as pessoas aprendem, o que favorece a aprendizagem e o que pode
fazer com que uma pessoa não aprenda. Ao compreender o processo que uma pessoa
passa ao aprender, compreende-se que a educação deve (ou tem que!) estar
fundamentada em conceitos como os quatro pilares da educação. Torna-se
impossível pensar em uma educação tradicional, onde a transmissão de conteúdos
seja o ponto central - o que, muitas vezes caracteriza-se como um obstáculo para
a aprendizagem. Estou falando de aprendizagem real, de desenvolvimento de
habilidades e competências e não de “assimilação de conteúdos”.
H) Têm o ensino um papel significativo na educação? Em caso positivo,
qual? Esclareça o que você entende por ensino. É viável definir “ensinar”
como “fazer aprender” ou “ajudar a aprender”?
Acho que o ensino tem um papel significativo na educação, sim. No meu
entendimento, ensinar é oferecer condições ótimas para que a pessoa aprenda. Na
escola, isso pode ser feito, por exemplo, através da proposta de projetos de
aprendizagem, onde o professor poderá criar uma “atmosfera propícia” para o
aluno construir sua aprendizagem internamente, em interação com o grupo e outros
elementos do meio. Nessa relação professor/grupo, o primeiro poderá ajudar os
alunos a aprenderem facilitando a comunicação, a cooperação e a
complementaridade entre o grupo, por exemplo. Esse seria um dos papéis do
professor e uma maneira de ensinar ou “ajudar a aprender”. Caberia aqui a
pergunta: o que devemos ensinar? Mas isso deverá aparecer nas reflexões sobre os
outros princípios...
Acho que a definição “fazer aprender” ressalta mais uma ação externa do que
interna da aprendizagem.
2) Compare a conceituação de educação fornecida no item anterior com as
seguintes conceituações, feitas, respectivamente, por Paulo Freire e por Antonio
Carlos Rodrigues de Moraes, e responda as questões abaixo:
“Ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa a si
mesmo. Os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. [Paulo
Freire, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de
Janeiro, RJ, 6ª edição, 1979, p.79]
“Educação é o processo pelo qual nos
tornamos capazes de viver os próprios sonhos”. [Antonio Carlos Rodrigues de
Moraes, em mensagem na lista Edutec]
A) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no
essencial, uma à outra? Explique.
B) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no
essencial, à conceituação fornecida no item anterior? Explique.
Respondendo aos dois itens de uma só vez, acho que sim. As três conceituações
são equivalentes, no essencial, e complementares. Parecem-me equivalentes, no
essencial, por “buscarem” um mesmo homem e um mesmo mundo. E são complementares
porque a primeira, fornecida na questão 1, aponta para os objetivos da educação,
a de Paulo Freire aponta para o “como” e a do Antonio Carlos nos dá uma visão
poética dos objetivos expostos na primeira, pois, como aparece no texto dos
Princípios Básicos do Programa, “para viver seus sonhos, o ser humano precisa,
primeiro, ser capaz de sonhá-los, e, depois, ser capaz de transformá-los em
realidade”.
3. Comente rapidamente as seguintes considerações acerca da educação (algumas
são conceituações formais) encontradas na literatura:
"Se verificarmos que os dois grandes oponentes no
pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era
uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser
vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação)
e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança
se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos
etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield]
Aos “formalistas” faltou, principalmente, pensar no indivíduo como centro do
processo. E aos “naturalistas” faltou pensar que algumas ações externas podem
criar condições favoráveis para que a criança se desenvolva de maneira livre e
autônoma.
"A educação é a ação exercida, pelas
gerações adultas, sobre aquelas ainda não amadurecidas para a vida social. Tem
por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos,
intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e
pelo meio especial a que a criança particularmente se destina." [E. Durkheim]
Essa definição aponta a educação como um processo de fora para dentro, na qual a
ação vem de fora e não do indivíduo que aprende. Não leva em consideração o
indivíduo que aprende.
"Do ponto de vista biopsicológico, a
educação tem por escopo levar o indivíduo a realizar a sua personalidade,
tendo em mira as suas possibilidades intrínsecas; logo, a educação passa a ser
o processo que tem por fim atualizar todas as virtualidades do indivíduo, em
um trabalho, realmente, de extrair de dentro do próprio indivíduo o que ele
traz, hereditariamente, consigo." [I. G. Nérici]
Apesar de colocar o indivíduo no centro do processo, não leva em consideração a
interação deste com o meio.
"Educação é o processo de aperfeiçoamento do ser
humano no sentido de facultar a realização de suas potencialidades, bem como a
transmissão de conhecimentos e valores culturais do grupo social." [Manual da
Escola Superior de Guerra]
A transmissão de conhecimentos e valores é um “objetivo clássico” da educação
tradicional. Coerente com o Manual da Escola Superior de Guerra...
"Educação é a influência deliberada e consciente
exercida sobre o ser maleável e inculto, com o propósito de formá-lo." [J.
Cohn]
Essa definição nem mereceria comentários... Considera o ser que aprende como
totalmente passivo e a aprendizagem como algo que pode acontecer de fora para
dentro, de cima para baixo.
"Educação é a liberação das capacidades individuais
em crescimento progressivo dirigido para fins sociais." [J. Dewey]
Acredito que a educação deva ser para fins individuais. Os “fins sociais” seriam
conseqüência.
"Assim alcançamos uma definição técnica da educação:
ela é aquela reconstrução ou reorganização da experiência que acrescenta algo
ao significado da experiência e que aumenta a habilidade de dirigir o curso da
experiência subseqüente. ... A educação pode ser concebida ou
retrospectivamente ou prospectivamente. Isso quer dizer que ela pode ser
tratada como um processo ou de acomodação do futuro ao passado, ou de
utilização do passado como um recurso para o desenvolvimento do futuro". [J.
Dewey]
Acho que esse poderia ser um conceito de aprendizagem, meio esdrúxulo, verdade...
Mas como conceito de educação acho que falta declarar qual seria o objetivo
desta.
"A educação é, de um lado, um processo de
estabilização, de transmissão, de garantia de continuidade de cultura; do
outro, um processo de correção, de aperfeiçoamento, de modificação das
características adquiridas das gerações passadas." [T. Brameld]
Comentarei junto com a última conceituação.
G. Reisman: "Educação é o processo formal de
transmitir a substância intelectual da civilização de uma geração para a
seguinte, e, assim, fazer com que as mentes não cultivadas das crianças se
transformem nas mentes de adultos civilizados." [G. Reisman]
Ao falar em “transmissão da substância intelectual” e “fazer com que as mentes...”,
o autor demonstra uma idéia tradicional de educação, sem levar em consideração a
pessoa que aprende.
"Educação, no sentido em que o termo é
usado aqui, é um processo, ou uma atividade, dirigido para a produção de
mudanças desejáveis no comportamento de seres humanos". ... "Educação pode
também ser considerada como o processo de socialização, através do qual a
criança é introduzida nos costumes da sociedade em que vive". [Frederick J.
McDonald]
Como determinar quais seriam as “mudanças desejáveis no comportamento” dos seres
humanos?
"A educação e os cuidados com as crianças sempre
foram processos conservadores, o que é justificável, pois são ações de
transmissão cultural que sempre ocorreram na história da humanidade,
fundamentais à sobrevivência da espécie. Porém, na fase de mudanças e de
grande e crescente pobreza que atravessa o terceiro Mundo, é preciso -- sem
lhe retirar o caráter conservador -- atribuir ao processo educacional a tarefa
de também gerar certas rupturas inteligentes com a ordem vigente, de modo a
interromper o círculo vicioso do subdesenvolvimento cultural, e, enfim, da
pobreza. A conservação e a ruptura não são excludentes na educação e no trato
com as crianças. Pelo contrário, o equilíbrio é que determinará sua eficaz
adaptação à nossa realidade". [José A. Pinotti, Aníbal Faúndes e Eduardo O. C.
Chaves (em 1988)]
Parece-me que essa conceituação e a de Brameld são parecidas. As duas falam de
conservação e ruptura, sem tratá-las como dois processos necessariamente
excludentes. As palavras transmissão, adaptação remetem a um conceito de
educação tradicional.
Confesso que “prefiro” definições que abordam o que acontece com o indivíduo
no “processo educativo”.
4. Comente sucintamente o seguinte texto de Carl Bereiter, retirado do seu
livro Must We Educate?, com especial foco no conceito de educação que o
autor parece endossar:
"Devemos nós educar?
A questão 'Em que tipo de adulto vão se tornar os filhos de meus vizinhos e
de meus próximos?' é uma questão de grande interesse para cada um de nós. Se
eles se tornarem criminosos, ou incompetentes, podemos vir a sofrer com isso.
Se se tornarem cidadãos responsáveis, nós e nossos filhos provavelmente nos
beneficiaremos com isso.
Porém, apesar de estar ser uma questão de nosso interesse, nós, como
indivíduos, não temos o direito de tomar providências para que nossos
interesses, neste caso, sejam atendidos. Não temos o direito de pegar os
filhos de nossos vizinhos e nossos próximos e moldá-los de modo a se tornarem
o tipo de adultos que preferimos.
A maioria das pessoas concordaria, creio eu, que é assim que deve ser, pois
também não gostaríamos que nossos vizinhos e nossos próximos, com suas idéias
às vezes atravessadas e estapafúrdias, pudesse incutir essas idéias em nossos
filhos.
Apesar disso, e aqui as coisas começam a ficar estranhas, se nosso vizinho
ou nosso próximo é um professor, então ele, de repente, não só tem o direito
de moldar nossos filhos, como sua missão, ao assim agir, é universalmente
reconhecida como nobre.
Contudo, nosso vizinho/próximo-professor é um ser humano não muito
diferente de nossos outros vizinhos e próximos, com as mesmas fraquezas e
tendenciosidades, e, talvez, no íntimo, profundamente constrangido e
preocupado por ter em suas mãos os destinos dos filhos dos outros".
Gostaria de destacar a seguinte passagem para meu comentário:
...”se nosso vizinho ou nosso próximo é um professor, então ele, de repente,
não só tem o direito de moldar nossos filhos, como sua missão, ao assim agir, é
universalmente reconhecida como nobre”.
Acho que o professor tem uma enorme importância na vida de uma criança,
adolescente ou adulto. Porém, não acho que tenha o direito, o poder e nem o
papel de “moldar” alguém. Acho que o professor deverá ajudar o aluno, criando
condições ótimas para isso, a aprender a ser, buscando sua própria
identidade e não sendo “moldado” por algum elemento externo. Acho que a
preocupação deve ser se o professor vai, ou não, criar as tais condições ótimas...
Eduardo Chaves
Janeiro de 2002
Maria Isabel Guimarães
Fevereiro de 2002