Maria Isabel Guimarães - Texto 2
Segundo Conjunto de Questões Desafiadoras
[Três Questões]
Assunto Básico: Escola, Currículo, Ensinar e Aprender
(Segundo e Terceiro Princípio)
Maria Isabel Guimarães (Bel)
1) Considere a seguinte passagem de Rubem Alves (a ênfase por negrito e sublinhado foi acrescentada, e foram feitas pequenas modificações no texto, substituindo uma ou outra palavra, com indicação por colchetes, e invertendo a ordem das passagens), e responda as perguntas abaixo:
“Como são e têm sido as escolas? Que nos diz a memória? A imagem: uma
casa, várias salas, crianças separadas em grupos chamados ‘turmas’.
Nas salas os professores ensinam saberes.
Toca uma campainha. Terminou o tempo aula. Os professores saem.
Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que os
professores estão fazendo? Estão cumprindo um ‘programa’.
‘Programa’ é um cardápio de saberes organizados em seqüência lógica,
estabelecido por uma autoridade superior invisível, que nunca está com as
crianças. Os saberes do cardápio ‘programa’ não são ‘respostas’ às
perguntas que as crianças têm. Por isso as crianças não entendem por
que têm de aprender o que lhes está sendo ensinado. . . . A [criança]
tem uma precisa filosofia de aprendizagem: [ela] aprende os saberes que [a]
ajudam a resolver os problemas com que está se defrontando. Os programas são
uma violência que se faz com o jeito que [a criança] tem de aprender. Não
admira que as crianças e os adolescentes se revoltem contra aquilo que os
programas os obrigam a aprender. Ainda ontem uma amiga me contava que sua
filha, de dez anos, dizia-lhe: ‘Mãe, por que tenho de ir à escola? As coisas
que tenho de aprender não servem para nada’. . . . A menina sabia mais que
aqueles que fizeram os programas. . . . A inteligência é essencialmente
prática. Está a serviço da vida. . . . A memória é um escorredor de macarrão.
O escorredor de macarrão existe para deixar passar o que não vai ser usado:
passa a água, fica o macarrão. Essa é a razão por que os estudantes esquecem
logo o que são forçados a estudar. Não por falta de memória. Mas porque sua
memória funciona bem: não sei para o que serve; deixo passar... . . .
Programa cumprido não é programa aprendido - mesmo que os alunos tenham
passado nos exames. Os exames são feitos quando a água ainda não acabou de
se escoar pelo escorredor de macarrão. Esse o destino [de tudo aquilo] que
não é aprendid[o] a partir da experiência: o esquecimento. [Mas aquilo] que
se aprende a partir da vida, . . . não é esquecid[o] nunca. A vida é o único
programa que merece ser seguido. . . . Disse, numa outra crônica, que quero
escola retrógrada. Retrógrada quer dizer ‘que vai para trás’. Quero uma
escola que vá mais para trás dos ‘programas’ científica e abstratamente
elaborados e impostos. . . . Uma escola em que o saber vá nascendo das
perguntas que [a criança] faz. Uma escola em que o ponto de referência não
seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas . . . a criança
que vive, admira, encanta-se, espanta-se, pergunta, enfia o dedo, prova com
a boca, erra, machuca-se, brinca. “
A) Se a educação tem, fundamentalmente, que ver com o desenvolvimento de competências para a vida, e a escola é a instituição criada com o objetivo único de educar, como explicar o fato de que ela se tornou tão divorciada da vida, que haja, nas palavras de Hugo Assmann, esse divórcio entre os “processos cognitivos” que se espera aconteçam na escola (aprendizagem) e os “processos vitais” (a vida, a experiência da criança)?
No seu texto “Educação Orientada para Competências...”, você cita um comentário
de Marshall McLuhan:
“Platão, em todo seu esforço de imaginar uma escola ideal, deixou de notar que Atenas era uma melhor escola do que qualquer universidade que ele conseguisse inventar”.
E, em seguida, cita Alvin Toffler falando que a sociedade industrial aperfeiçoou essa invenção.
Isso me fez pensar: e se não existisse escola? Será que esses “processos cognitivos”, que se espera aconteçam na escola, deixariam de acontecer? Claro que não. Então, se esses processos podem existir sem escola (estou partindo desse princípio...), totalmente integrados aos “processos vitais”, não deveria ser tão difícil integrá-los dentro da escola. Resumindo: não sei explicar. Mas acho que Alvin Toffler tratou bem do assunto
J.B) Como explicar, e como tem sido justificado ao longo do tempo, o fato de que a escola acabou por se tornar um lugar em que se apresentam (transmitem) às crianças informações e conhecimentos (“saberes”, no jargão atual), organizados de forma estanque em disciplinas, hierarquizadas em séries, dispensadas em doses homeopáticas (aulas), ministradas em espaços que podem ser alcançados pela voz humana desassistida (salas de aula), a alunos homogeneizados por idade (turmas)?
Acho que essa questão está relacionada com a anterior e pode ter sua explicação
na relação da escola com a sociedade industrial. Mais uma vez não sei explicar
porque acontece dessa maneira, mas o trecho que transcrevo abaixo, retirado do
mesmo texto (seu) citado acima, parece explicar de maneira bem clara:
“É interessante notar que o modelo ou paradigma que hoje é hegemônico não
possui fundamentação teórica ou justificativa séria. (...) Esse modelo ou
paradigma foi se infiltrando na escola, e acabou alcançando condição de
hegemonia, apenas porque é mais fácil de ser colocado em prática do que as
alternativas”.
O currículo atual é alguma coisa além disso, ou em vez disso? Como desaprender essa herança histórica e cultural?
O currículo atual é isso mesmo, lamentavelmente... Desaprender essa herança
parece ser o mais difícil... O pior é pensar em desaprender algo que pensamos
não ter aprendido. [Estou me referindo à falta de fundamentação teórica para a
escola que temos hoje e à distância entre o discurso e a prática dos educadores].
C) Como construir um currículo escolar que organize as competências e habilidades que as crianças precisam desenvolver para “viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva”, que mantenha um vínculo estreito com os “processos vitais” e, portanto, com os interesses (que certamente não são disciplinares) das crianças, que não as segmente no tempo e no espaço, que lhes permita agruparem-se em função dos seus interesses (dos projetos que estão desenvolvendo) e não em função de sua idade, e que permita e facilite um aprendizado ativo e colaborativo por parte das crianças?
A Escola da Ponte parece ser um bom exemplo para isso. É preciso mudar tudo. O
ideal seria começar do zero, mas isso seria realisticamente impossível (desculpem-me
pelo mau emprego do realisticamente, se for o caso ;-) . Portanto, talvez a
saída seja ir fazendo como a Lenise falou em mensagem para a nossa lista - ir
driblando algumas regras, convivendo com outras... até chegar lá. E acho que o
“Sua Escola” deve ser aquele que dá o “tratamento de choque” inicial, para que a
escola possa reviver, renascer - já com outra visão das regras antes aceitas.
D) Você acredita que seja possível definir competências e habilidades básicas (aquelas que todo ser humano deve oportunamente dominar e que se distinguem, portanto, de competências e habilidades especializadas), como a fala, a leitura e a escrita, o cálculo numérico (não no sentido técnico), a negociação, a resolução de conflitos, a administração do tempo, a busca, análise, aplicação e disseminação de informações, etc. e que seja viável tentar hierarquizá-las, indicando quais devem ser desenvolvidas primeiro, coisas assim?
Acho que podemos defini-las dessa maneira, sim. Mas hierarquizá-las, não.
Cometeríamos um engano já cometido antes, definindo o que a criança deve
aprender primeiro. Essa hierarquização será de cada um, de acordo com as
necessidades próprias.
E) Você acredita que os conteúdos disciplinares que hoje formam a essência do currículo possam ser “transversalizados”, só entrando nos projetos dos alunos à medida que forem sendo percebidos como necessários para a execução dos projetos?
Acredito! Acho que isso foi muito bem colocado nos textos relacionados a esse
conjunto de questões.
F) Deixando a educação de lado, você acredita que a ciência continuará dividida em disciplinas por muito tempo ainda?
Não sei o que seria muito tempo, mas acredito que a tendência seja a integração.
Vejo que cada vez mais um “especialista” precisa do outro, o que demonstra a
necessidade dessa integração.
2) Considere as seguintes afirmações, respectivamente de Galileu Galilei, B. F. Skinner, Carl Rogers, e Ivan Illich, e responda as questões abaixo:
"Não é possível ensinar nada a ninguém; somente é possível ajudar alguém a descobrir alguma coisa dentro de si próprio." [Galileu]
A) Você acha que o ensino, como comumente entendidos, têm lugar no tipo de educação que vimos discutindo? Ou vale a pena tentar redefinir o ensino “facilitação da aprendizagem”?
Não tem lugar. Acho que existem duas opções: redefinir ou não ensinar mais. Na
prática, a opção é uma só.
B) O “Sua Escola” fala em “novas formas de ensinar e aprender”. Seria essa nova forma de ensinar o facilitar a aprendizagem? Ou o “Sua Escola” está propugnando por uma aprendizagem colaborativa, que envolve o professor mas não é conseqüência direta de sua ação, sendo muito mais, como diz Galileu, alguma coisa que é descoberta dentro de si próprio?
Acho que o “Sua Escola” “está propugnando por uma aprendizagem...”, mas acredito
que o facilitar a aprendizagem (como ação do professor) tenha seu lugar nessa
aprendizagem que é “alguma coisa que é descoberta dentro de si próprio”.
C) O que entendemos por “ensino” está bem resumido por Skinner quando ele diz que “ensinar é de tal modo arranjar certas condições de modo que o aprendizado exigido seja realizado mais rapidamente"?
Ensino, no sentido comumente empregado, sim. Acho que tem muito a ver com o
tempo/rapidez (como ele fala), envolvendo cumprimento de programas e desprezo
aos ritmos individuais.
D) O que você acha da afirmação de Roger de que o resultado do ensino ou é insignificante ou é maléfico? Como estaria ele concebendo o ensino para fazer essa afirmação?
Ele estaria concebendo o ensino da forma como este é usualmente concebido.
Quando ele fala que é insignificante, podemos pensar no escorredor de macarrão.
Quanto a ser maléfico... volto àquela questão que coloquei na lista, elaborada
de maneira diferente: será que o ensino (e a metodologia que passa por ele),
pode ser considerado um empecilho (externo) à aprendizagem da criança?
3) Considere a seguinte famosa citação de John Holt e esta outra passagem “composta” de Rubem Alves e responda as perguntas abaixo:
- "Se ensinássemos crianças a falar, elas nunca aprenderiam." [Holt]
A) Você concorda com Rubem Alves quando ele coloca o aprendizado da fala como o paradigma de todo aprendizado?
Creio que para o aprendizado das competências e habilidades básicas, sim.
B) Rubem Alves menciona que, no caso da fala, “quem ensina não sabe que está ensinando” e “quem aprende não sabe que está aprendendo”. Você acha isso possível: ensino inconsciente e aprendizagem inconsciente?
Sim, acho possível, e acho que isso acontece o tempo todo - na vida e na escola
(felizmente em alguns casos e infelizmente em outros).
C) Qual o papel do exemplo (por parte dos já falantes) e da imitação (ainda que “macaquícia”) no aprendizado da fala? Esse papel pode se estender para outros tipos de aprendizado?
Acho que a aprendizagem inconsciente passa por aí.
D) É possível imaginar outros aprendizados importantes modelados pelo aprendizado da fala? O aprendizado da leitura, por exemplo?
Acho que é possível, sim. Mas temos que levar em consideração que, no
aprendizado da fala, a crianças está exposta à fala o tempo todo. Ou seja, é
importante que a criança esteja “exposta”, convivendo com materiais escritos
para que possa entender o seu significado (da linguagem escrita), sentir
necessidade dela e ir criando suas hipóteses e construindo sua aprendizagem.
E) O aprendizado de uma segunda língua?
O mesmo vale para uma segunda língua. Mas nesse caso, é mais difícil da criança
estar “exposta”. Eu, por exemplo, aprendi inglês nos EUA, sem que ninguém me
ensinasse (e, com certeza, foi muito mais eficiente do que qualquer aprendizagem
por métodos sistematizados teria sido). Mas isso pode ser considerado uma
situação artificial - já que não moro num país de língua inglesa. Por outro lado,
demonstra que é possível esse aprendizado “modelado pelo aprendizado da fala”.
F) O aprendizado da matemática? O aprendizado das ciências naturais? O aprendizado da filosofia?
Acho que o necessário desses aprendizados para o desenvolvimento das
competências e habilidades básicas pode, também, ser aprendido desta maneira, já
que as crianças estão expostas a esses “conteúdos” na sua vida, independente da
escola, e necessitam deles para resolver seus problemas.
Mas não precisamos ser radicais. Uma escola, como a Escola da Ponte, por exemplo, pode ajudar nesses (e em outros) aprendizados.
Eduardo Chaves
Janeiro de 2002
Maria Isabel Guimarães
Fevereiro de 2002