Maria Isabel Guimarães - Texto 3
Terceiro Conjunto de Questões Desafiadoras
[Sete Questões]
Assunto Básico: Protagonismo Juvenil, Outros
Agentes Educacionais, Tecnologia)
(Quarto, Quinto e Sexto Princípio)
Maria Isabel Guimarães (Bel)
1. Considerando o binômio “heteronomia” e “autonomia” discutido por Antonio Carlos Gomes da Costa, explique por que esse autor fala em “protagonismo juvenil” (protagonismo do jovem adolescente) e não em “protagonismo infantil” (protagonismo da criança) ou “protagonismo adulto”.
Acredito que ACGC fale apenas de “protagonismo juvenil” por ser a adolescência o momento onde acontece a transição entre a “heteronomia” e a “autonomia”. Essa transição ocorre nos âmbitos afetivo, cognitivo e social. E é nesse momento de transição que passa a ser pertinente trabalhar/desenvolver o protagonismo. Na infância, a criança ainda não desenvolveu “competências” básicas necessárias para agir como um protagonista, e precisa, ainda de normas, regras e “orientações” externas para poder sobreviver e desenvolver suas competências. Na vida adulta, pressupõe-se que a pessoa já tenha desenvolvido sua autonomia a tal ponto, que não seja mais necessário “trabalhar” o protagonismo.
2. O mesmo Antonio Carlos Gomes da Costa, que é um dos maiores defensores de uma educação que incorpore o protagonismo juvenil, afirma, em outro escrito, ser contrário às “pedagogias não diretivas”. Explique como você explicaria os conceitos de “protagonismo juvenil” e de “pedagogia não diretiva” de modo a fazer sentido da posição de Antonio Carlos Gomes da Costa.
ACGC parece acreditar que para facilitar o desenvolvimento do “protagonismo
juvenil” seja necessário um conjunto de ações pedagógicas que ajudem o jovem “a
chegar lá”. Acho que, pelo adolescente não ser totalmente autônomo, ele acredita
que seja necessária uma certa dose de direcionamento. O que me parece é que ACGC
entende a pedagogia não-diretiva como laissez-faire. Mas, na prática, creio que
ele defenda uma postura não-diretiva.
3. Explique quais seriam, a seu ver, as diferenças e semelhanças entre os conceitos de “pedagogia construtivista”, “pedagogia protagonística” (estou inventando essa expressão agora, creio), “pedagogia não diretiva” e “pedagogia negativa (ou laissez faire)”. Com base no ideário do Sua Escola, como você caracterizaria, em termos desses rótulos, a pedagogia do programa?
Concordo com a Lenise quando ela diz (nas suas reflexões):
“Embora muitos pedagogos se auto-intitulem “construtivistas”, vejo o construtivismo mais como teoria da aprendizagem do que como pedagogia. O conhecimento sempre é algo construído pelo indivíduo, seja qual for a linha pedagógica na qual é educado. Tendo-se isso em conta, chega-se à conclusão de que algumas práticas educativas favorecem a aprendizagem e outras podem dificultá-la. Uma “pedagogia construtivista” seria então a que leva em conta a construção do conhecimento e procura favorecê-la”.
Quanto à “pedagogia protagonística”, “a não-diretiva” e à “negativa”, acho que elas têm uma característica básica que as aproxima - colocar o aluno como o centro do processo, “como fonte autêntica de iniciativa, compromisso e liberdade” (ACGC).
Prefiro não caracterizar a pedagogia do Programa com nenhum desses rótulos. Acho que cada uma delas pode trazer alguns aspectos positivos e interessantes para que o Programa atinja seus objetivos.
4. Parece inegável que, além do lar e da escola, muitas outras instituições da sociedade atual estão a assumir funções educativas: os locais de trabalho (em especial as grandes empresas), as associações profissionais (incluindo os sindicatos), os centros comunitários, os centros de cultura e lazer, as igrejas, órgãos governamentais de todos os níveis, instituições do terceiro setor, instituições internacionais, etc. Como você vê a relação entre a escola e essas instituições? De rivalidade e conflito ou de parceria? Se de parceria, como pode essa parceria se dar?
Essa relação só pode ser de parceria. Não sei se existe um formato para
acontecer essa parceria, mas é evidente que a escola não consegue assumir
exclusivamente todas as “funções educativas” (nem é o seu papel). As
instituições citadas acima podem, sem conflitos, assumir papéis significativos
na educação. Na minha opinião, essas parcerias só podem trazer benefícios para a
escola.
5. Você acha que faz sentido a posição que o governo federal vem assumindo de negar a pais que assim se disponham o direito de educar seus filhos em casa, fora da escola, mesmo que os pais se disponham a apresentar seus filhos para fazer testes em escolas controladas pelo governo?
Acho que não faz o menor sentido. Para mim, isso é abuso de poder. Os exemplos
trazidos na lista (pela Lenise) e nas reflexões da Lu, ilustram a minha opinião
sobre o assunto. Até me deu vontade...
6. Você acha que aquilo que muitas empresas oferecem a seus funcionários ou empregados à guisa de treinamento, desenvolvimento profissional e pessoal, etc., qualifica como educação ou não passa de adestramento? (E, a propósito, adestramento tem ou não lugar na educação? Você é daqueles que acham que “Educação Física” deveria ser chamada de “Adestramento Físico”?)
Acho que muitas vezes as empresas oferecem “educação” aos seus funcionários, sim.
Aquele programa do evento que você mandou para a lista pode ser um exemplo
disso. Quanto ao adestramento, acho que ele tem seu lugar no desenvolvimento de
determinadas habilidades, portanto, na educação.
Se a Educação Física tiver seus objetivos relacionados à saúde física, à construção de regras, à cooperação, ao trabalho em equipe etc., não poderá ser chamada de “Adestramento Físico”. Mas se for apenas uma “ginástica”, ou “campeonatos de diferentes modalidades esportivas”, lamentavelmente só poderá ser chamada de Adestramento. Acho que não deve haver lugar para isso na escola.
7. Depois de longo período de perplexidade, as empresas aprenderam (e as que não o fizeram não estão aqui para contar a história), que a mera introdução da tecnologia para alavancar processos (de produção, distribuição ou gestão) concebidos para a era industrial, embora trouxesse pequenos ganhos de eficiência, não as tornava capazes de atender às necessidades da era da informação - isto é, não as tornava eficazes. Para isso, era necessário que se reinventassem, isto é, que, primeiro, reconcebessem o seu negócio, e, depois, redefinissem a melhor maneira de promovê-lo, com o apoio da tecnologia (se reengenheirassem). Foi assim que a IBM, maior empresa de computadores do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a informação e se salvou da falência, e a ITT, maior empresa de telefonia do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a comunicação, e se salvou da obsolescência tecnológica. Qual a lição que isso ensina a pessoas interessadas no uso de tecnologia na educação - em especial a nós, do Sua Escola?
Está muito claro que estamos trabalhando por uma nova educação, uma nova escola
etc. A necessidade dessa nova educação é que vai buscar a tecnologia como uma
das ferramentas para atingir novos objetivos. Não queremos “adestrar” ninguém
para o uso do computador, mas queremos, sim, usar todas as tecnologias
disponíveis, e cabíveis, para facilitar a educação dos alunos. O uso do
computador se faz necessário nesse contexto por possibilitar a comunicação, a
cooperação e a “auto-aprendizagem” - competências básicas para que as “pessoas
se tornam capazes de viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como
no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária,
competente e produtiva”.
Eduardo Chaves
Janeiro de 2002
Maria Isabel Guimarães
Fevereiro de 2002