Celso Vallin - Texto 5
Terceiro Conjunto de Questões Desafiadoras
[Sete Questões]
Assunto Básico: Protagonismo Juvenil, Outros Agentes
Educacionais, Tecnologia)
(Quarto, Quinto e Sexto Princípio)
Celso Vallin
1. Considerando o binômio “heteronomia” e “autonomia” discutido por Antonio Carlos Gomes da Costa, explique por que esse autor fala em “protagonismo juvenil” (protagonismo do jovem adolescente) e não em “protagonismo infantil” (protagonismo da criança) ou “protagonismo adulto”.
Porque a adolescência “é o momento em que as escolhas são feitas e projetos começam a ser construídos”. Enquanto que “na infância, a existência da criança está ligada ao projeto dos pais”. Na adolescência a pessoa começa a tomar sua vida nas mãos, formulando projetos de vida e começando a fazer alguma coisa pelo seu projeto.
2. O mesmo Antonio Carlos Gomes da Costa, que é um dos maiores defensores de
uma educação que incorpore o protagonismo juvenil, afirma, em outro escrito,
ser contrário às “pedagogias não diretivas”. Explique como você explicaria
os conceitos de “protagonismo juvenil” e de “pedagogia não diretiva” de modo
a fazer sentido da posição de Antonio Carlos Gomes da Costa.
Educadores podem ajudar seus educandos, respeitando-os. Educar é ajudar a pessoa a ser o que ela quiser ser. É ajuda-la a se encontrar e a ter condições de caminhar dentro de seus sonhos. Nesse sentido, a educação é diretiva, mas não deve ser no sentido de querer que todos sigam algum modelo padrão.
3. Explique quais seriam, a seu ver, as diferenças e semelhanças entre os
conceitos de “pedagogia construtivista”, “pedagogia protagonística” (estou
inventando essa expressão agora, creio), “pedagogia não diretiva” e
“pedagogia negativa (ou laissez faire)”. Com base no ideário do Sua Escola,
como você caracterizaria, em termos desses rótulos, a pedagogia do programa?
Ser construtivista é perceber que o conhecimento é um processo mental que não pode ser transmitido de um para o outro, mas que cada pessoa em desenvolvimento deve ir se construindo. Ao educador construtivista cabe gerar situações em que aconteçam desafios possíveis de serem vencidos e que ao mesmo tempo desequilibrem o educando. Nessa busca do re-equilíbrio o aluno vai usando o conhecimento que já possui e construindo novas teias de conhecimento, ligadas às que já tem.
Pelo que entendi do texto lido, o aspecto mais marcante e que diferencia a abordagem protagonista é a preocupação com o social, tanto no nível local (escola e turma de amigos) como no nível global (bairro, cidade, país ou mundo). Não somente uma preocupação de socializar-se no sentido de estar integrado a determinados grupos sociais, mas principalmente no sentido de desenvolver a percepção das necessidades e dificuldades de todos os grupos sociais, em todos os níveis (local até global), passando a exercitar sua postura e mesmo interferindo nas realidades para que elas possam ser mais justas, éticas, solidárias, livres, democráticas e sem preconceitos.
Não conheço bem a pedagogia não-diretiva e a pedagogia negativa, mas entendo que não o que queremos porque precisamos viver em comunhão, precisamos nos ajudar, precisamos da ajuda da comunidade para estarmos no caminho do bem comum. Assim, deixar cada um fazer o que quer ou seguir algum modelo anterior não é resposta para os problemas de nosso tempo. Precisamos nos colocar em diálogo democrático, no sentido de pertencer a comunidades e deixar que outras pessoas participem de nossas decisões e da formação de opiniões, assim como devemos ajuda-los nessa reflexão.
Entendo que a pedagogia do programa se afina diretamente com o construtivismo e protagonismo juvenil, ambos ao mesmo tempo.
4. Parece inegável que, além do lar e da escola,
muitas outras instituições da sociedade atual estão a assumir funções
educativas: os locais de trabalho (em especial as grandes empresas), as
associações profissionais (incluindo os sindicatos), os centros comunitários,
os centros de cultura e lazer, as igrejas, órgãos governamentais de todos os
níveis, instituições do terceiro setor, instituições internacionais, etc.
Como você vê a relação entre a escola e essas instituições? De rivalidade e
conflito ou de parceria? Se de parceria, como pode essa parceria se dar?
A articulação da escola e dos grupos que vão se formando na escola com essas outras instituições, desde que dentro de um diálogo democrático, só vem ajudar. Essa articulação traz a tensão teoria x prática para dentro da escola, multiplica os pontos de vista, abre o diálogo... Vejo grandes possibilidades de parceria. Os dois lados podem sair ganhando - escola e instituições.
5. Você acha que faz sentido a posição que o governo
federal vem assumindo de negar a pais que assim se disponham o direito de
educar seus filhos em casa, fora da escola, mesmo que os pais se disponham a
apresentar seus filhos para fazer testes em escolas controladas pelo governo?
Testes não resolveriam nada. É difícil resolver completamente esta questão. Nenhum pai tem o direito de colocar seus filhos em condições que tolham seu desenvolvimento (cognitivo, afetivo, social, natural, ...) Se isso acontecer, o estado tem o direito e a obrigação de intervir. Por outro lado, a escola não é o único caminho para esse desenvolvimento. Difícil é imaginar o desenvolvimento de alguma pessoa sem o apoio de comunidades e instituições educativas. Seria preciso que se analisasse o projeto desses pais, para poder opinar melhor. Devemos ainda considerar que, mesmo que a criança freqüente escolas não se tem garantia de pleno e adequado desenvolvimento. Penso que caiba aos pais encontrar as melhores escolas e mesmo participar mais da escola, ajudando-a a ser a resposta de que precisam.
6. Você acha que aquilo que muitas empresas oferecem a
seus funcionários ou empregados à guisa de treinamento, desenvolvimento
profissional e pessoal, etc., qualifica como educação ou não passa de
adestramento? (E, a propósito, adestramento tem ou não lugar na educação?
Você é daqueles que acham que “Educação Física” deveria ser chamada de
“Adestramento Físico”?)
Oportunidades educativas acontecem a todos os momentos em nossas vidas, e naturalmente também acontecem em ambientes empresariais. Normalmente o objetivo das empresas é mais específico e há pouca preocupação com a educação no sentido amplo do termo. A empresa quer resultado, faturamento, lucro! Entendo que o ser humano deve decidir quando quer se treinar em alguma coisa. Tudo é válido desde que a própria pessoa julgue assim e não que seja alguma imposição externa. A necessidade vai nos determinando em que desejamos estar mais afiados, tanto no âmbito mental como no âmbito cinésio-corporal.
Educação física é a educação ligada às necessidades do corpo. Como se manter com saúde? Alimentação, exercícios, modo de viver. Há também a contribuição que essa disciplina dá à socialização da pessoa no grupo, através de jogos. Há o lado artístico, a necessidade de expressão e de realização do belo e da graça. Educação Física deve procurar se integrar às demais disciplinas, olhando o aluno como um ser integral.
7. Depois de longo período de perplexidade, as
empresas aprenderam (e as que não o fizeram não estão aqui para contar a
história), que a mera introdução da tecnologia para alavancar processos (de
produção, distribuição ou gestão) concebidos para a era industrial, embora
trouxesse pequenos ganhos de eficiência, não as tornava capazes de atender
às necessidades da era da informação - isto é, não as tornava eficazes. Para
isso, era necessário que se reinventassem, isto é, que, primeiro,
reconcebessem o seu negócio, e, depois, redefinissem a melhor maneira de
promovê-lo, com o apoio da tecnologia (se reengenheirassem). Foi assim que a
IBM, maior empresa de computadores do mundo, reconcebeu seu negócio como
sendo a informação e se salvou da falência, e a ITT, maior empresa de
telefonia do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a comunicação, e se
salvou da obsolescência tecnológica. Qual a lição que isso ensina a pessoas
interessadas no uso de tecnologia na educação - em especial a nós, do Sua
Escola?
A escola também deve ser “re-engenherada”. Não penso que se deva descartar tudo o que é velho, mas questionar cada coisa que se faz e ter abertura para fazer qualquer coisa de maneira diferente. Para isso é muito importante que os educadores (professores, direção...) exercitem hábitos de trabalho em equipe, planejamento (real e não aquele formal e desligado da prática), acompanhamento, relato (com registros e com apresentações em público), avaliação (de processo e de produto, auto-avaliação, avaliação cruzada e coletiva) e reflexão, individual e coletivamente.
Eduardo Chaves
Janeiro de 2002
Celso Vallin
Fevereiro de 2002