Eduardo Chaves - Texto 1
POSICIONAMENTO DE EDUARDO CHAVES QUANTO AO PRIMEIRO CONJUNTO DE QUESTÕES DESAFIADORAS
Como fui eu que preparei as Questões Desafiadoras, não creio que deva simplesmente tentar respondê-las. Acho mais frutífero explicar porque as formulei dessa forma -- o que faço aqui. No processo, ficará razoavelmente claro como as responderia, se fosse respondê-las.
Todos nós usamos definições o tempo todo. Em geral falamos em definição de um termo (definição do termo "educação", por exemplo) e isso não causa nenhum problema. Definições de dicionário são, em regra, definição de termos.
Se formos rigorosos, porém, quando tentamos definir algo, o que estamos tentando definir é um conceito, não um termo. Assim, "definição de educação", "definição do conceito de educação" e "conceituação de educação" são expressões basicamente sinônimas. (A lógica tradicional lida com conceitos e com proposições ou enunciados; a lógica moderna, matemática, apenas com proposições).
É difícil chegar a definições precisas até mesmo de conceitos bastante conhecidos, que se referem a objetos de nossa experiência. Todos nós sabemos o que é uma mesa, não sabemos? Mas como definir o conceito de mesa? Se dissermos que "uma mesa é uma superfície retangular de madeira, com largura de no mínimo 80 centímetros e comprimento de no mínimo 120 centímetros, sustentada por quatro 'pernas', também de madeira, uma em cada canto", vamos enfrentar todo tipo de problema. Certamente há mesas que se encaixam nessa proposta de definição. Mas há mesas que não são retangulares, ou que, sendo retangulares, têm dimensões menores do que as especificadas; há mesas cujo tampo não é de madeira; há mesas que não têm quatro pernas (tendo mais ou menos) ou cujas pernas não estão nos cantos (até porque mesas redondas nem canto têm...).
Diante desse problema, muitos recorrem a "definições funcionais": em vez de tentar descrever o objeto (caso seja de um objeto, como mesa, que se trate) tentam descrever sua função: "uma mesa é um móvel que tem uma superfícia plana usada para tomar refeições, escrever, costurar, jogar, ou simplesmente sustentar outras coisas como vasos, relógios, livros, etc.". Embora essa seja uma definição razoável, ela faz uso de um outro conceito: o de móvel. Para entender o que é mesa, neste caso, eu tenho que entender o que é móvel. E assim vai.
Se não é fácil definir um conceito que se refere a um objeto concreto que todos nós vemos todos os dias, a gente já pode imaginar quão difícil é conceituar um processo complexo, não facilmente identificável, como é a educação. (Como distinguir educação de socialização, doutrinação, etc.?)
Por isso, não há uma única definição de educação que seja universalmente "oficial". (Instituições, como a UNESCO ou mesmo o IAS, podem adotar uma definição de educação como sua "definição oficial").
Fui consultar o Dicionário Houaiss para ver o que ele diz sobre "educação". Eis o que achei no verbete "educação" (vou dando a definição aos poucos, com a numeração do próprio dicionário):
"1. ato ou processo de educar(-se)
1.1. qualquer estágio desse processo"
Até aqui, pouca ajuda, não é mesmo? O parêntese, porém, é curioso. O Houaiss não se compromete com a tese de que é impossível nos educarmos a nós mesmos, de que precisamos ser educados por outras pessoas. Mas continuemos:
"2. aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano; pedagogia, didática, ensino"
Aqui a definição do Houaiss já chega mais perto do que normalmente pensamos. Mas será que "formação" e "desenvolvimento" são termos sinônimos? Ou será que "formação" e "desenvolvimento" se referem a processos que podem ser vistos até mesmo como incompatíveis? E a formação e o desenvolvimento emocional e interpessoal -- onde estão? Educação e ensino são a mesma coisa? E por aí vai. Vou pular uns números:
"7. adestramento de animais
8. aclimação de plantas"
Está o Houaiss a "forçar a barra" aqui? Animais e plantas podem ser objeto da educação?
Quanto o Houaiss vai explicar qual o antônimo do termo "educação", ele diz que é "deseducação" -- mas nos manda também consultar "ignorância" e o antônimo de "delicadeza"! (Afinal de contas, dizemos de alguém que é indelicado que é "sem educação", não é mesmo?)
Na mensagem anterior, em que esclareci uma passagem de Harry Schofield, ficou claro que o apelo à etimologia raramente é de grande ajuda. No caso da educação, uns acham que o termo vem do latim "educere" (que significa "trazer para fora") e outros acham que o termo vem do latim "educare" (que significa "dar forma a", "formar", "moldar"). Ficamos na mesma -- ou quase.
Por isso, qualquer autor que se proponha escrever sobre a educação mais cedo ou mais tarde tenta dar a sua própria conceituação de educação, isto é: tenta esclarecer como ele encara a educação, como ele entende o conceito de educação, como ele usa o termo "educação" e seus congêneres.
Filósofos da educação também oferecem suas sugestões de definição. A maior parte das vezes, antes de fazer sua própria sugestão, eles analisam as sugestões dos outros, para ver se alguém já não forneceu uma definição adequada (ou, pelo menos, razoavelmente adequada) que ele possa usar (e corrigir onde for necessário).
Faz quase 30 anos que um dos meus passatempos favoritos é fazer análise das definições (ou conceituações) de educação que eu encontro nas minhas leituras. É um negócio muito divertido. E instrutivo.
Uma conclusão a que eu cheguei é que quase todas as definições ou conceituações de educação jamais propostas, a despeito de pequenas variações de redação, caem em um dos seguintes três grupos:
a) educação é um processo de formação - de dar forma ao que não tem, formar, moldar (esses são os que Schofield chama de "formalistas", que acreditam que "educar" vem de "educare")
b) educação é um processo de desenvolvimento - de deixar que algo que potencialmente já está lá desabroche, alcance o seu potencial (esses são os que Schofield chama de "naturalistas", que acreditam que "educar" vem de "educere")
c) educação é um processo que, de alguma forma, tenta combinar essas duas coisas, formação e desenvolvimento, o que vem de fora e o que vem de dentro, o que vem de cima e o que vem de baixo, a necessidade de preservar e a necessidade de mudar, o passado e o futuro, etc.
Se vocês prestarem bem atenção às definições mencionadas no Primeiro Conjunto de Questões Desafiadoras, não será difícil encaixar cada uma delas numa dessas três categorias.
Eu, pessoalmente, me situo, hoje, claramente na categoria "b". Acho que o ideário oficial do IAS também se situa na categoria "b". E acho que até mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais, com sua tentativa de ser "construtivista", se situa na categoria "b".
A conceituação apresentada no início do Primeiro Conjunto de Questões Desafiadoras foi formulada por mim -- mas com elementos que tomei emprestado a vários outros autores.
Se vocês lerem a última definição da pergunta 3, porém, que foi retirada de um livro do qual sou co-autor, verão que eu, uns 14 anos atrás, tentava me situar na categoria "c", que tenta harmonizar "a" e "b". Mudei de opinião gradativamente.
Hoje estou bastante convicto de que esse "caráter conservador" que, lá atrás, eu achava que a educação devia ter (preservar e transmitir a herança cultural), é, se tomado em si próprio, um retrocesso ou pelo menos uma grande perda de tempo. Essa herança cultural (da qual as disciplinas são as guardiãs) só faz sentido quando nos ajuda a aprender a viver a vida que queremos viver, a vida que nos realiza, a vida que nos faz felizes. Não tenho dúvida de que muito nessa herança cultural é importante para que aprendamos a viver essa vida. Mas a ênfase deve estar no aprender a viver -- a herança deve ser "transversalizada": quando ela nos ajuda a viver, é bem-vinda; quando não é, ou porque não tem conexão com a vida ou porque nos levaria a viver uma vida que não é a que queremos, que não é a que nos realiza, que não é a que nos torna felizes, deve ser esquecida.
Por isso, se educar os nossos filhos quer dizer formá-los, dar-lhes forma, moldar-lhes as idéias, as emoções, os modos de agir, etc., conforme o "projeto de educação da sociedade ou da nação", concordo com Carl Bereiter: não devemos educá-los, ou, no mínimo, não devemos confiar a sua educação a terceiros, em especial a terceiros que desconhecemos (como é o caso dos professores das escolas).
Eduardo Chaves
4 de fevereiro de 2002