Eduardo Chaves - Texto 2



POSICIONAMENTO DE EDUARDO CHAVES QUANTO AO SEGUNDO CONJUNTO DE QUESTÕES DESAFIADORAS

 

Se o primeiro conjunto de questões lidou com a educação, em geral, incluindo a educação formal que se realiza na escola, mas também a educação não-formal (e sobre essa distinção o Terceiro Conjunto de Questões vai nos cutucar um pouco mais), este segundo conjunto lida com a escola: em especial com sua estruturação curricular, com a ênfase nas disciplinas, e com seus métodos de trabalho.

Gostaria de discutir um pouco aqui como o meu ponto de vista evoluiu acerca dessa questão.

1) Como aluno, sempre fui muito "crente" ("caxias", "cdf", etc.). Tive uma educação muito rígida em casa e entrei na escola perfeitamente convencido da necessidade de obedecer meus professores e fazer tudo o que eles ordenassem. Assim, nunca deixei de ler tudo o que se pedia, e não raro um pouco mais. Lia até o fim mesmo textos nos quais não tinha o menor interesse, que achava chatos, ou que não entendia muito bem. Só muito mais tarde vim a questionar a necessidade de aprender os nomes dos Faraós do Egito, as datas das várias guerras européias, o nome dos beneficiados com as capitanias hereditárias, o nome dos picos mais altos do mundo e dos rios mais longos e com maior volume de água, etc.

2) Quando me tornei professor, comecei por ser um professor exigente em termos de leituras e trabalhos escritos (nunca gostei de dar exames). Não via nenhum problema nisso porque os textos que mandava os meus alunos ler sempre me pareceram tão interessantes que eu não imaginava que algum aluno pudesse encará-los de forma diferente -- tinha a convicção de que os alunos iam me agradecer por estar lhes indicando textos tão desafiadores. (Custou-me um pouco descobrir que todo professor pensa isso, por isso que entope a cabeça dos alunos com leituras).

3) Aos poucos fui percebendo que embora alguns alunos meus claramente compartilhassem meu entusiasmo pela filosofia e pelos textos que eu lhes mandava ler, muitos achavam os textos pouco interessantes, áridos, difíceis de entender, distantes de sua vida diária. Nas aulas eu fazia meus melhores esforços para relacionar os textos com a vida diária dos alunos, e conseguia até discussões interessantes, mas os alunos, por si sós, raramente conseguiam extrair dos textos o que eu via neles.

4) Minhas aulas foram se tornando cada vez menos expositivas e cada vez mais discutitivas. Um dia, há um pouco mais de 25 anos, uma aluna disse, na avaliação do curso: "Achei o curso legal, apesar de você não ter ensinado nada...". A partir desse momento comecei a me preocupar com o conceito de ensino e aprendizagem, com sua relação com o conceito de educação, etc. [Dessa preocupação saiu um artigo meu, "A Filosofia da Educação e a Análise de Conceitos Educacionais", que está no meu site, na versão original e numa expandida, e que foi publicada no livro Uma Introdução Teórica e Prática às Ciências da Educação (org. Antonio Muniz de Rezende, Editora Vozes, Petrópolis, 1977].

5) Comecei nesta época a me preocupar com ensinar (sic) os alunos a filosofar, em vez de lhes ensinar filosofia. Hoje vejo que a gênese do meu interesse em competências e habilidades estava ali, embora eu naquele momento não identificasse dessa forma a minha preocupação.

6) O momento seguinte de maior importância na evolução das minhas idéias foi a passagem pela Educação Fundamental e pelo Ensino Médio de minha filha mais nova. Os outros passaram sem problemas por essa fase de sua escolaridade, mas minha filha mais nova, a Patrícia, era rebelde. Ela me questionava sobre a utilidade da maior parte das coisas que tinha que fazer na escola. Um dia a professora de português mandou que os alunos lessem uns contos de Machado de Assis, ela não conseguiu entender nada, eu fui ler para tentar ajudar e também não entendi nada. Comecei a verificar as perguntas que os professores faziam sobre os textos. Comecei a ler as explicações que aqueles livrinhos de literatura trazem para ajudar os alunos, com suas provas simuladas, etc. E concluí: esse troço é insuportável -- e, pior, totalmente inútil. Comecei a me envolver mais com os estudos da minha filha: lia os textos de história, de geografia, de Organização Moral e Cívica, etc. -- e saí da experiência convicto que, longe de minha filha ser burra, eu é que havia sido por ter estudado tudo aquilo sem o menor questionamento quando eu estava na escola. A revolta dela com o ter que aprender aquilo era semelhante à revolta do estômago quando recebe comida estragada. (Alguns anos depois encontrei um artigo do Rubem Alves em que ele dizia exatamente isso). Comecei a ser razoavelmente tolerante com o fato de que minha filha entregava aos professores trabalhos elaborados por seus colegas em anos anteriores, que colava nas provas, que só lia os resumos dos textos de literatura, etc.

7) Simultaneamente fui me interessando pelo que meus colegas davam a seus alunos no Curso de Pedagogia da UNICAMP. A maior parte das leituras, eu também considerava insuportáveis, muitas delas inúteis, e muitas pior do que inúteis: claras tentativas de doutrinação catequética nos princípios marxistas. Pouco a pouco fui chegando à conclusão que, se eu voltasse a ser aluno com as idéias que estava desenvolvendo, provavelmente iria ser um mau aluno, ou até mesmo desistir do curso.

8) Fui expandindo aos poucos o escopo de minhas observações e reflexões. Notei que muitos alunos problema eram extremamente inteligentes e os problemas que criavam em classe eram reflexo da rebeldia que tinham contra a tentativa de fazer com que aprendessem coisas em que não tinham o menor interesse. Notei que a maior parte das pessoas bem sucedidas em suas funções se esquecia com extrema facilidade e rapidez daquilo que não lhes interessava e não lhes era útil. (Só os pobres de espírito se orgulhavam de ainda saber o que haviam aprendido na escola e que de nada lhes valia além da oportunidade de mostrar que tinham boa memória...)

9) E assim foi. Minha participação no Sua Escola foi uma excelente oportunidade de dirigir a atenção de forma mais concentrada e sistemática sobre essas questões. O contato com o Projeto Amora me mostrou que uma educação diferente era possível mesmo no seio da escola pública. Depois veio a Escola da Ponte (que, infelizmente, não conheço ainda pessoalmente). Eu que, no plano teológico sempre discordei do Rubem Alves, amigo de mais 40 anos, percebi que, no plano pedagógico, havia muita convergência entre as nossas idéias. Bem mais recentemente, já aqui no IAS, descobri o Antonio Carlos Gomes da Costa, e me familiarizei com o conceito de protagonismo juvenil.

10) O maior desafio, daqui para frente, é transformar tudo isso em prática pedagógica. Confesso, aqui entre amigos, que, faz cinco anos, pensei em criar uma escola de Educação Infantil e Fundamental, para a qual até mesmo ousei escolher um nome... (segredo comercial). Descobri que o Rubem, depois de visitar a Escola da Ponte, ficou tentado a criar uma escola parecida. Mas tenho certeza de que o desafio de criar uma escola nova não se compara, em dificuldade, ao desafio de transformar a escola pública que temos naquela que nós todos gostaríamos de ter. Mas estou apostando que é possível. Com muita paciência e com muita persistência.

 

Eduardo Chaves
Fevereiro de 2002