Ney Mourão - Texto 1
Primeiro Conjunto de Questões Desafiadoras
[Quatro Questões]
Assunto Básico: Conceito de Educação (Primeiro Princípio)
Ney Mourão
1) Considere esta conceituação de educação e procure responder as questões abaixo:
Educação, em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as pessoas se tornam capazes de [desenvolvem as competências necessárias para] viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva.
A) Você acha essa conceituação de educação inteiramente adequada? Adequada até onde vai, mas incompleta? Totalmente inadequada?
Inteiramente adequada.
B) Você acha que conceituações desse tipo podem ser consideradas definições objetivas ou serão elas nada mais do que manifestações de persuasões subjetivas (“definições persuasivas”)?
Citando Frei Beto, “todo ponto de vista é a vista de um ponto”. Toda definição é uma tentativa de objetivação, mas toda conceituação atende a um determinado tempo, lugar, ocasião e vontade dos definidores. O olhar que hoje define uma determinada realidade, à medida que se conhece mais esta realidade tende a incorporar elementos em uma definição ou até mesmo a buscar novas formas de ver e de compreender esta realidade. Basta ver o que tínhamos como definições iniciais do programa Sua Escola (ainda enquanto concurso) e hoje, passados dois anos. É certo que o conceito de educação que teremos daqui a cinco anos terá incorporado valores mais densos, expandindo-se, ganhando em qualidade e grau de certeza.
C) Você concorda que a expressão “se tornam capazes de” deva ser interpretada como equivalente a “desenvolvem as competências necessárias para”?
A diferença é sutil, mas há, sim, uma diferença. Quando digo “se TORNAM capazes de”, parece-me, aqui, que vou transformar quem antes não tinha capacidade em seres DOTADOS de. Ao passo que dizer “DESENVOLVEM as competências”, pressupõe lidar com alguém que já possui competências, que precisam ser desenvolvidas, aprimoradas, incrementadas, articuladas, incentivadas. Particularmente, prefiro a segunda expressão, principalmente por já ter lidado em sala de aula com muitos alunos que foram taxados, pela escola tradicional, de “incapazes”. O que isso pode fazer com a auto-estima deles é cruel.
D) Como deve ser interpretada a expressão “se tornam capazes” nessa conceituação de educação:
“As pessoas se tornam capazes num processo que forçosamente envolve interação com outras pessoas (sendo a educação, portanto, um processo em que as pessoas são educadas por outras pessoas e se educam a si próprias em interações em que às vezes é impossível distinguir o papel de uns e de outros).
Discuta essa questão.
É em um processo de interação que surgem as oportunidades de crescimento, as descobertas. O educador, como um animador, provocador, gerador de acontecimentos e iniciativas é, ao mesmo tempo, um ser em contínuo estado de formação - que aprende também, com as conquistas e dificuldades de seus alunos. Cabe ao educador esta presença rica, colocando-se no lugar do outro, quando necessário, de forma solidária e compreensiva, cúmplice até. Cabe ao educador incentivar no seu educando esta vontade, este desejo contínuo de formação, esta ânsia por aprimorar-se - em outras palavras, “competências” para tornar-se um ser humano melhor.
E) Se você acredita que terceiros desempenham um papel importante na educação de uma pessoa, o papel desses terceiros poderia ser definido como sendo principalmente de exemplos, de fontes de estímulos e desafios, de motivadores, ou de ensinantes? Se houver algum outro papel, esclareça.
Creio que há um momento certo para ser cada uma dessas coisas. Utilizando a metáfora do teatro, onde os jovens devem ser encarados como “protagonistas” de suas próprias existências, o papel desses terceiros pode - e deve - variar conforme o “script” que está sendo vivenciado pelos atores no palco do aprendizado.
Há o instante alegre de ser fonte de estímulo, convocando o educando à parceria, propondo questões, estabelecendo perguntas desafiadoras, incentivando à busca e à pesquisa; há o instante de lançar motivações; há, sim, o momento certo e necessário para se transmitir, da melhor forma possível, conceitos, métodos, teorias e valores.
Há, ainda, o momento, não dito aqui, mas implícito em todas estas coisas, de se exercer o papel de observador atento, de ouvinte aberto. O observador que contempla e que através deste olhar presente pode tomar decisões, atuando ou não quando necessário. O ouvinte aberto, aquele cúmplice presente, ombro amigo, indispensável nos momentos mais difíceis da jornada de busca e crescimento.
F) O que você acha da chamada “educação negativa” (às vezes chamada de “educação laissez faire”), que muitos atribuem a Rousseau, segundo a qual a melhor educação é aquela que menos interfere com o desenvolvimento natural e espontâneo da criança. Você conhece a experiência de Summerhill? O que acha dela? Você acha que a educação em Summerhill era desse tipo negativo? Faz sentido criar uma escola e levar as crianças lá para que lá possam ter uma “educação negativa”?
Sinceramente, não conhecia a expressão “educação negativa”. Em relação a esta questão, algumas questões me vêm à mente. Em primeiro lugar, se tomarmos como referência os Quatro Pilares do Relatório Jacques Delors, entendendo a educação com um conjunto de “aprenderes” - conhecer, fazer, aprender, desembocando em um aprendizado maior que é o aprender a SER, acho até mesmo que a expressão carrega em si duas palavras antagônicas, contraditórias. Em um contexto inspirado nos quatro pilares, não há uma educação NEGATIVA. Ora, se estou contribuindo para a formação de um ser humano desprovido de solidariedade, NÃO estou, verdadeiramente, EDUCANDO - posso estar transmitindo algum tipo de conhecimento, mas não é educação, em seu sentido mais genuíno. Se não estou contribuindo para que um educando tenha autonomia, responsabilidade etc, etc, etc, estou fazendo outra coisa, que não é educação. Portanto, não concordo com o conceito de "educação negativa".
Com relação à visão de que a melhor educação é aquela que menos interfere com o desenvolvimento natural e espontâneo da criança, há que se perguntar, também, sobre o conceito de “interferir”. Se interferir for uma via de mão-dupla, onde educador e educando troquem de posição em seus instantes de aprendizado, em que o crescimento de um possa significar o crescimento do outro, em que haja parceria, cumplicidade, ética, responsabilidade, solidariedade, não tenho medo da palavra “interferir”- apesar de achar que não seja bem o vocábulo certo para definir a educação que temos tratado aqui e em todas as ações do Sua Escola. Não acredito em uma total ausência de interferência, quando se fala em educação - inclusive, para ser coerente com o que respondi, em uma das questões anteriores logo acima.
Não gosto da idéia de deixar educandos entregues à sua própria sorte. Lembro-me de duas posições interessantes a esse respeito. O Professor Antônio Carlos Gomes da Costa, certa vez, respondeu, em uma entrevista, que não se pode confundir “protagonismo juvenil” com “abandono”, por parte de educadores. É aí que se encaixa a PRESENÇA, necessária e indispensável. E a Professora da UERJ, a pesquisadora sobre avaliação Maria Tereza Penna Firme, ao falar de avaliação, costuma dizer que avaliar é como educar: “antes de qualquer avaliação, é necessário, primeiramente, AMPARAR”.
Conheço pouco e superficialmente o modelo de Summerhill. Uma ou outra reportagem sobre a escola. Lembro-me de uma em especial, quando os adeptos da escola tradicionalista conseguiram uma foto da “aula de matemática”: todos os alunos peladinhos, na beira da piscina. Nunca tinha visto alunos tão felizes. Havia um encantamento em seus rostos que emocionava. Eu achei o máximo! A reportagem dizia: “sabe-se lá o que se aprende pelado, em uma aula de Matemática...”. Confesso que o modelo me cativa, mas já ouvi muitas críticas a Summerhill em diversas ocasiões. Sei que o desempenho dos alunos era excepcional, tanto em seus locais de atuação profissional, quanto em provas e concursos. E não creio que a educação por lá pudesse ser classificada como “negativa”. Não creio que um lugar que ensinasse crianças a serem potencialmente felizes e capazes pudesse estar fazendo educação negativa.
G) Se é verdade que aquilo que uma pessoa vai se tornar, ao longo de sua educação, não está inexoravelmente programado geneticamente, devemos concluir que a educação está necessariamente ligada à aprendizagem - e que, portanto, o conceito de educação tem uma conexão necessária com o conceito de aprendizagem?
Sem sombra de dúvidas. Se o objetivo da educação deve ser contribuir para a formação de um ser humano melhor, não há como negar esta conexão. E não é à toa que a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, presidida por Jacques Delors, estabelece as bases para a educação sobre quatro “aprendizados”. Mais ainda, estabelece como uma destas bases de sustentação a competência voltada para o aprender a aprender. É através do aprendizado que o indivíduo estabelece as bases para a compreensão do mundo e para a auto-compreensão. Não é à toa, também, que, de maneira reiterada, temos visto analistas definirem os tempos atuais como uma sociedade de aprendizagem.
H) Têm o ensino um papel significativo na educação? Em caso positivo, qual? Esclareça o que você entende por ensino. É viável definir “ensinar” como “fazer aprender” ou “ajudar a aprender”?
Sim. Já que a educação acontece em todos os âmbitos da vida humana, de forma continuada e através do contato com outros seres, em variados locais, sob a responsabilidade do Estado, da família e, inclusive, da Escola, o ensino tem grande relevância, não como único, mas como UM DOS fatores que contribuem para a educação.
O ensino seria uma forma mais sistemática de transmitir, intercambiar e buscar conhecimentos, particularmente em escolas. Os conceitos quase se confundem, mas há hoje muita gente ENSINANDO sem EDUCAR. Na minha opinião, é viável definir “ensinar” como “ajudar a aprender”, buscar meios e métodos eficazes (sistemáticos) para a transmissão e troca de “saberes”.
2) Compare a conceituação de educação fornecida no item anterior com as seguintes conceituações, feitas, respectivamente, por Paulo Freire e por Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, e responda as questões abaixo:
“Ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa a si mesmo. Os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. [Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, 6ª edição, 1979, p.79]
“Educação é o processo pelo qual nos tornamos capazes de viver os próprios sonhos”. [Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, em mensagem na lista Edutec]
A) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no essencial, uma à outra? Explique.
Em ambas, o projeto de cidadão autônomo, que deve ter nas mãos a condução de seu próprio crescimento, se torna evidente, mas não diria que são equivalentes. Creio que são, na verdade, complementares. Na definição de Freire, vemos uma educação que fala de relacionar-se com o mundo, relacionar-se com o outro, estabelecer elos, praticar interpessoalidades, descobrir e descobrir-se. Na definição do Professor Rodrigues de Moraes, é necessário indagar-se: o que seria “viver os próprios sonhos?”.
Fico pensando quando, nós, do mundo adulto, dizemos a um jovem o que “sonhamos para ele”, quais são as perspectivas de mundo que almejamos para o seu futuro - pessoal e profissional. E, como resposta, em nossa frente, a expressão de quem mira absurdos, incongruências. A expressão de quem contempla, sem nenhuma emoção, sonhos alheios, que não encaixam em seus “quereres”, em suas vontades, em sua caminhada.
Freire chama a atenção para esta “comunhão”: o sonho do outro pode até ser um espelho, um parâmetro, uma visão de mundo a ser aprendida e apreendida - ou não! A segunda definição fala sobre a necessidade de criarmos condições para que cada indivíduo faça por si próprio, construa o seu projeto.
B) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no essencial, à conceituação fornecida no item anterior? Explique.
No essencial, sim, mas a primeira definição é muito mais “feliz”, no sentido de vislumbrar mais amplamente a educação em sintonia com competências e habilidades. Ela acrescenta à responsabilidade educacional elementos novos como a responsabilidade, a autonomia, a solidariedade. É como se a definição, de caráter mais objetivo, fosse a soma das duas outras, agregando-lhes valor e relevância.
3. Comente rapidamente as seguintes considerações acerca da educação (algumas
são conceituações formais) encontradas na literatura:
"Se verificarmos que os dois grandes oponentes no pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação) e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield]
Mais uma vez, vale a frase de Frei Betto: “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”. Acho forte dizer que é “fútil” recorrer à etimologia. Pode ser necessário estabelecer-se definições, até mesmo para se ter parâmetros, nortes, diretrizes, fios condutores de raciocínio e ação. O que é preciso é que o “apelo à etimologia” não seja estratégia de amarras, ranço de encaixotar o pensamento e os atos em uma única visão.
"A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre aquelas ainda não amadurecidas para a vida social. Tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança particularmente se destina." [E. Durkheim]
Nossa! Depois de tudo o que lemos e conversamos até aqui, fica bem complicada a expressão “SOBRE”. Nunca, sob a óptica dos Princípios do Sua Escola, é possível entender a visão de uma ação exercida SOBRE. Sobre pressupõe seres superiores moldando outros seres menores, mais fracos. Ainda mais complicada é a expressão estados “RECLAMADOS PELA SOCIEDADE”. Este é um paradigma que o Sua Escola pretende transformar. A educação deve almejar contribuir para que o indivíduo esteja apto a viver os SEUS PRÓPRIOS sonhos, os seus projetos de vida, e não os projetos de vida de uma sociedade. Desafio grandioso, difícil, mas necessário.
"Do ponto de vista biopsicológico, a educação tem por escopo levar o indivíduo a realizar a sua personalidade, tendo em mira as suas possibilidades intrínsecas; logo, a educação passa a ser o processo que tem por fim atualizar todas as virtualidades do indivíduo, em um trabalho, realmente, de extrair de dentro do próprio indivíduo o que ele traz, hereditariamente, consigo." [I. G. Nérici]
Desculpem-me, mas quando li “extrair de dentro do próprio indivíduo o que ele traz...”, não consegui deixar de trazer à mente a imagem daqueles instrumentos cirúrgicos invasivos, cheios de pontas, lâminas, como um fórceps ou um bisturi. ;-) Não gosto da palavra “extrair”. Nem sempre é necessário extrair. Quando a Lenise, hoje, em nossa lista, usa o exemplo do gene do alcoolismo, por exemplo, ela é muito feliz em dizer: ali não se trata de extrair o que o indivíduo traz em si mesmo, mas sim de auxiliá-lo para que tenha competência em saber que, para ele, a maior liberdade é a abstinência.
Também não gosto da expressão “hereditariamente”... Dá-me a sensação de que o indivíduo nasce “fadado” ao sucesso, por ser de um tronco familiar de sucesso ou, perniciosamente pior, ao fracasso, inexoravelmente, se tiver nascido em uma família cujos “genes” transmitidos sejam os do fracasso ou da “incompetência”.
"Educação é o processo de aperfeiçoamento do ser humano no sentido de facultar a realização de suas potencialidades, bem como a transmissão de conhecimentos e valores culturais do grupo social." [Manual da Escola Superior de Guerra]
Olha nós aí de novo: “valores culturais do grupo social”! Nesse caso, se, como disse um dia Fernando Pessoa, eu descer do aprendizado que me deram pelo muro dos fundos, se eu rejeitar os “valores” do grupo social a que pertenço, passo, automaticamente, a ser considerado um indivíduo não educado?
"Educação é a influência deliberada e consciente exercida sobre o ser maleável e inculto, com o propósito de formá-lo." [J. Cohn]
Quando fiz o curso de Comunicação Social, houve na Puc - Minas um longo seminário sobre “Cultura e Culturas”. Na época, a discussão mais palpitante era saber se existiria um grupo humano ou mesmo um único indivíduo “inculto”, desprovido de cultura. Bem, se entendermos a cultura como o conjunto de características deste indivíduo EM RELAÇÃO, só haveria um indivíduo inculto se, ao nascer, ele fosse arrancado do total convívio humano e passasse a viver no meio dos animais - o mito de Tarzan. Além do “sobre”, então, nesta definição temos mais um caroço: a crença de que haveria indivíduos incultos, cuja missão da educação seria “moldar” (o que é maleável...).
"Educação, no sentido em que o termo é usado aqui, é um processo, ou uma atividade, dirigido para a produção de mudanças desejáveis no comportamento de seres humanos". ... "Educação pode também ser considerada como o processo de socialização, através do qual a criança é introduzida nos costumes da sociedade em que vive". [Frederick J. McDonald]
"Educação é o processo formal de transmitir a substância intelectual da civilização de uma geração para a seguinte, e, assim, fazer com que as mentes não cultivadas das crianças se transformem nas mentes de adultos civilizados." [G. Reisman]
"Educação é a liberação das capacidades individuais em crescimento progressivo dirigido para fins sociais." [J. Dewey]
“... Para fins sociais”: !!!!!!!!!! Quem definiu primeiro: o Manual da Escola Superior de Guerra ou Dewey?
“FAZER COM QUE mentes NÃO CULTIVADAS... se transformem em mentes de ADULTOS civilizados”?; “Produção de MUDANÇAS DESEJÁVEIS”? : Que horror!
"Assim alcançamos uma definição técnica da educação: ela é aquela reconstrução ou reorganização da experiência que acrescenta algo ao significado da experiência e que aumenta a habilidade de dirigir o curso da experiência subseqüente. ... A educação pode ser concebida ou retrospectivamente ou prospectivamente. Isso quer dizer que ela pode ser tratada como um processo ou de acomodação do futuro ao passado, ou de utilização do passado como um recurso para o desenvolvimento do futuro". [J. Dewey]
Parece definição tucana... Voltas complicadas e mais voltas complicadas.
Gosto quando trata de “aumentar a habilidade de dirigir o curso da experiência subseqüente”. Pensei na clássica metáfora da espiral para se entender a evolução dialética. Gosto também quando se apontam os dois lados da mesma moeda - apesar de ter ficado em dúvida se, na definição, está claro o lado bom e o lado pernicioso desta história...
"A educação e os cuidados com as crianças sempre foram processos conservadores, o que é justificável, pois são ações de transmissão cultural que sempre ocorreram na história da humanidade, fundamentais à sobrevivência da espécie. Porém, na fase de mudanças e de grande e crescente pobreza que atravessa o terceiro Mundo, é preciso -- sem lhe retirar o caráter conservador -- atribuir ao processo educacional a tarefa de também gerar certas rupturas inteligentes com a ordem vigente, de modo a interromper o círculo vicioso do subdesenvolvimento cultural, e, enfim, da pobreza. A conservação e a ruptura não são excludentes na educação e no trato com as crianças. Pelo contrário, o equilíbrio é que determinará sua eficaz adaptação à nossa realidade". [José A. Pinotti, Aníbal Faúndes e Eduardo O. C. Chaves (em 1988)]
Boa, Eduardo Chaves! Pela primeira vez, aparece por aqui essa palavrinha mágica: EQUILÍBRIO! Ela diz tudo. Creio que é por ela que devemos nos pautar, é por ela que devemos buscar, é ela quem deve nos orientar em nossa relação com a escola e com os atores sociais que a compõem!
Muito bom e animador, quando se percebe, também, a possibilidade de “certas rupturas inteligentes com a ordem vigente” e a possibilidade da educação ser um elemento para romper com o círculo de desigualdades sociais intoleráveis. No prefácio do documento Educação, um tesouro a descobrir - Relatório para a UNESCO da Comissão internacional sobre a Educação para o Século XXI, cujo Capítulo 4 serviu-nos, aqui, como referência, há uma inequívoca sinergia de pensamento com esta definição: “Face aos múltiplos desafios do futuro, a educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social. (...) [É] uma via que conduza a um desenvolvimento humano mais harmonioso, mais autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões, as guerras...”
Utópico? Se for, estou nessa utopia. E creio que tenho um monte de companheiros por aqui, não!?
4. Comente sucintamente o seguinte texto de Carl Bereiter, retirado do seu
livro Must We Educate?, com especial foco no conceito de educação que
o autor parece endossar:
"Devemos nós educar?
A questão 'Em que tipo de adulto vão se tornar os filhos de meus vizinhos e de meus próximos?' é uma questão de grande interesse para cada um de nós. Se eles se tornarem criminosos, ou incompetentes, podemos vir a sofrer com isso. Se se tornarem cidadãos responsáveis, nós e nossos filhos provavelmente nos beneficiaremos com isso.
Porém, apesar de esta ser uma questão de nosso interesse, nós, como indivíduos, não temos o direito de tomar providências para que nossos interesses, neste caso, sejam atendidos. Não temos o direito de pegar os filhos de nossos vizinhos e nossos próximos e moldá-los de modo a se tornarem o tipo de adultos que preferimos.
A maioria das pessoas concordaria, creio eu, que é assim que deve ser, pois também não gostaríamos que nossos vizinhos e nossos próximos, com suas idéias às vezes atravessadas e estapafúrdias, pudesse incutir essas idéias em nossos filhos.
Apesar disso, e aqui as coisas começam a ficar estranhas, se nosso vizinho ou nosso próximo é um professor, então ele, de repente, não só tem o direito de moldar nossos filhos, como sua missão, ao assim agir, é universalmente reconhecida como nobre.
Contudo, nosso vizinho/próximo-professor é um ser humano não muito diferente de nossos outros vizinhos e próximos, com as mesmas fraquezas e tendenciosidades, e, talvez, no íntimo, profundamente constrangido e preocupado por ter em suas mãos os destinos dos filhos dos outros “.
Vemos, aqui, de novo, o “molde” com vistas à socialização. Na sua visão e seu contexto, o autor não deixa de ter toda a lógica. É um pouco assustador ouvir que um professor “tem o direito de moldar nossos filhos” - uma visão de educando que é receptáculo, argamassa a ser mexida, formada, solidificada por mãos hábeis e matreiras.
Mas, repito, é um paradigma cuja missão do Sua Escola é tentar superar e transformar. E creio que temos tido lições de que é possível, sim, ter esperança!
Eduardo Chaves
Janeiro de 2002
Ney Mourão
Fevereiro de 2002