Rubem Paulo Saldanha - Texto 1
Primeiro Conjunto de Questões Desafiadoras
[Quatro Questões]
Assunto Básico: Conceito de Educação (Primeiro Princípio)
Rubem Paulo Saldanha
1) Considere esta conceituação de educação e procure responder as questões abaixo:
Educação, em seu sentido mais amplo, é o processo mediante o qual as pessoas se tornam capazes de [desenvolvem as competências necessárias para] viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva.
A) Você acha essa conceituação de educação inteiramente adequada? Adequada até onde vai, mas incompleta? Totalmente inadequada?
Ela é bem adequada para os dias de hoje.
B) Você acha que conceituações desse tipo podem ser consideradas definições objetivas ou serão elas nada mais do que manifestações de persuasões subjetivas (“definições persuasivas”)?
São bem objetivas embora sejam mais genéricas. Só não podemos considerar imutáveis. Com o mundo em constante mutação, o considerado correto hoje pode vir a ser inadequado no futuro, tanto quanto pode ter sido no passado.
C) Você concorda que a expressão “se tornam capazes de” deva ser interpretada como equivalente a “desenvolvem as competências necessárias para”?
Concordo absolutamente.
D) Como deve ser interpretada a expressão “se tornam capazes” nessa conceituação de educação:
as pessoas se tornam capazes mediante a ação de terceiros (e, portanto, são educadas);
as pessoas se tornam capazes por si mesmas, sozinhas (e, portanto, se educam a si próprias, sozinhas);
as pessoas se tornam capazes num processo que forçosamente envolve interação com outras pessoas (sendo a educação, portanto, um processo em que as pessoas são educadas por outras pessoas e se educam a si próprias em interações em que às vezes é impossível distinguir o papel de uns e de outros).
Discuta essa questão.
Acredito que a última seja a mais adequada, uma vez que precisamos sempre de um meio social ao nosso redor para que possamos “nos ensinar”. Acredito que a isso podemos chamar de contextualização.
E) Se você acredita que terceiros desempenham um papel importante na educação de uma pessoa, o papel desses terceiros poderia ser definido como sendo principalmente de exemplos, de fontes de estímulos e desafios, de motivadores, ou de ensinantes? Se houver algum outro papel, esclareça.
Acho que tem um pouco de cada um deles, sendo que em determinadas ocasiões uns se manifestem mais que os outros. Nessa equação não podemos ter muitas constantes.
F) O que você acha da chamada “educação negativa” (às vezes chamada de “educação laissez faire”), que muitos atribuem a Rousseau, segundo a qual a melhor educação é aquela que menos interfere com o desenvolvimento natural e espontâneo da criança. Você conhece a experiência de Summerhill?
Conheço um pouco.
O que acha dela?
É um laboratório de protagonismo juvenil enorme.
Você acha que a educação em Summerhill era desse tipo negativo? Faz sentido criar uma escola e levar as crianças lá para que lá possam ter uma “educação negativa”?
Não conheço tão bem a experiência a ponto de tentar essa análise. Pelo pouco que sei, acretido que não seja considerado essa “educação negativa”.
G) Se é verdade que aquilo que uma pessoa vai se tornar, ao longo de sua educação, não está inexoravelmente programado geneticamente, devemos concluir que a educação está necessariamente ligada à aprendizagem - e que, portanto, o conceito de educação tem uma conexão necessária com o conceito de aprendizagem?
H) Têm o ensino um papel significativo na educação? Em caso positivo, qual? Esclareça o que você entende por ensino. É viável definir “ensinar” como “fazer aprender” ou “ajudar a aprender”?
2) Compare a conceituação de educação fornecida no item anterior com as seguintes conceituações, feitas, respectivamente, por Paulo Freire e por Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, e responda as questões abaixo:
“Ninguém educa ninguém, mas ninguém se educa a si mesmo. Os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. [Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, RJ, 6ª edição, 1979, p.79]
“Educação é o processo pelo qual nos tornamos capazes de viver os próprios sonhos”. [Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, em mensagem na lista Edutec]
A) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no essencial, uma à outra? Explique.
Elas são complementares pois para poder sonhar precisamos interagir com os outros. Pegando uma carona na questão anterior, onde se falou que “aquilo que uma pessoa vai se tornar, ao longo de sua educação, não está inexoravelmente programado geneticamente, devemos concluir que a educação está necessariamente ligada à aprendizagem”, sem interação com os outros não podemos ser capazes de sonhar.
B) Você considera essas duas conceituações de educação equivalentes, no essencial, à conceituação fornecida no item anterior? Explique.
Novamente são complementares. Pois ao mesmo tempo que não são excludentes (falei certo?), todas são corretas e atuais. Desenvolver competências para sonhar e transformar os nossos sonhos em realidade é uma tarefa a ser feita por dois ou mais em comunhão, mediados pelo mundo.
3. Comente rapidamente as seguintes considerações acerca da educação (algumas
são conceituações formais) encontradas na literatura:
"Se verificarmos que os dois grandes oponentes no pensamento educacional, os 'formalistas' (que acreditavam que a educação era uma disciplina e que as crianças aprendem o que é bom para elas, são para ser vistas e não ouvidas, e são tornadas em pessoas específicas pela sua educação) e os 'naturalistas' (que criam que a educação deve meramente 'deixar a criança se desenvolver'), ambos reivindicam a correção de suas definições em termos etimológicos, veremos quão fútil é fazer apelo à etimologia". [H. Schofield]
"A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre aquelas ainda não amadurecidas para a vida social. Tem por objeto suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo meio especial a que a criança particularmente se destina." [E. Durkheim]
Primeiramente, essa visão é antiga na questão de que são necessariamente as “gerações adultas” que atuam na educação das crianças, não dando espaço para a criança aprender com outras crianças, e até que os adultos aprendam com as crianças. Além disso, essa definição traça o destino da criança já de cara com essa história de “a que a criança particularmente se destina”.
"Do ponto de vista biopsicológico, a educação tem por escopo levar o indivíduo a realizar a sua personalidade, tendo em mira as suas possibilidades intrínsecas; logo, a educação passa a ser o processo que tem por fim atualizar todas as virtualidades do indivíduo, em um trabalho, realmente, de extrair de dentro do próprio indivíduo o que ele traz, hereditariamente, consigo." [I. G. Nérici]
É uma visão bem biológica de educação. Mas se estamos trabalhando com a idéia de “que aquilo que uma pessoa vai se tornar, ao longo de sua educação, não está inexoravelmente programado geneticamente, devemos concluir que a educação está necessariamente ligada à aprendizagem”, não podemos afirmar que a educação seja meramente um “abridor de latas” para extrair o que uma pessoa traz consigo.
"Educação é o processo de aperfeiçoamento do ser humano no sentido de facultar a realização de suas potencialidades, bem como a transmissão de conhecimentos e valores culturais do grupo social." [Manual da Escola Superior de Guerra]
Coisa bem de militar mesmo. Aqui temos meramente uma passagem de valores culturais do grupo social. Uma das potencialidades que poderia ser colocada nessa definição é um constante questionamento de valores, além de não se preocupar simplesmente na transmissão de conteúdos.
"Educação é a influência deliberada e consciente exercida sobre o ser maleável e inculto, com o propósito de formá-lo." [J. Cohn]
É preciso necessariamente ser inculto para que possa ser formado?
"Educação é a liberação das capacidades individuais em crescimento progressivo dirigido para fins sociais." [J. Dewey]
"Assim alcançamos uma definição técnica da educação: ela é aquela reconstrução ou reorganização da experiência que acrescenta algo ao significado da experiência e que aumenta a habilidade de dirigir o curso da experiência subseqüente. ... A educação pode ser concebida ou retrospectivamente ou prospectivamente. Isso quer dizer que ela pode ser tratada como um processo ou de acomodação do futuro ao passado, ou de utilização do passado como um recurso para o desenvolvimento do futuro". [J. Dewey]
Me parece que acomodar o futuro ao passado é uma constante bem presente em definições de educação. Em outras palavras, eu entenderia isso como sendo retransmissão de conteúdos e valores sem questionamentos.
"A educação é, de um lado, um processo de estabilização, de transmissão, de garantia de continuidade de cultura; do outro, um processo de correção, de aperfeiçoamento, de modificação das características adquiridas das gerações passadas." [T. Brameld]
Não seria a educação um processo de desestabilização?
G. Reisman: "Educação é o processo formal de transmitir a substância intelectual da civilização de uma geração para a seguinte, e, assim, fazer com que as mentes não cultivadas das crianças se transformem nas mentes de adultos civilizados." [G. Reisman]
A educação não precisa ser necessariamente um processo formal (aliás, cada vez menos o é), e imaginar que crianças são mentes não cultivadas esperando a enxada dos mestres é subestimar a capacidade das crianças.
"Educação, no sentido em que o termo é usado aqui, é um processo, ou uma atividade, dirigido para a produção de mudanças desejáveis no comportamento de seres humanos". ... "Educação pode também ser considerada como o processo de socialização, através do qual a criança é introduzida nos costumes da sociedade em que vive". [Frederick J. McDonald]
Novamente vem a visão de reprodução de valores e costumes da sociedade. Para onde estaremos “dirigindo” o pensamento dos seres humanos?
"A educação e os cuidados com as crianças sempre foram processos conservadores, o que é justificável, pois são ações de transmissão cultural que sempre ocorreram na história da humanidade, fundamentais à sobrevivência da espécie. Porém, na fase de mudanças e de grande e crescente pobreza que atravessa o terceiro Mundo, é preciso -- sem lhe retirar o caráter conservador -- atribuir ao processo educacional a tarefa de também gerar certas rupturas inteligentes com a ordem vigente, de modo a interromper o círculo vicioso do subdesenvolvimento cultural, e, enfim, da pobreza. A conservação e a ruptura não são excludentes na educação e no trato com as crianças. Pelo contrário, o equilíbrio é que determinará sua eficaz adaptação à nossa realidade". [José A. Pinotti, Aníbal Faúndes e Eduardo O. C. Chaves (em 1988)]
Há possibilidade de conservar e romper ao mesmo tempo? Como determinamos o ponto de equilíbrio? Mas pela primeira vez nessas definições vejo a palavra “rupturas”, que é um fator importante a ser considerado na educação. Concordo com a questão de que a transmissão cultural é necessária (tem tanta gente que fala que um país sem memória é um país morto). Mas atuar de maneira crítica aos fatos do passado é uma necessidade para “gerar certas rupturas inteligentes com a ordem vigente, de modo a interromper o círculo vicioso do subdesenvolvimento cultural, e, enfim, da pobreza.”
4. Comente sucintamente o seguinte texto de Carl Bereiter, retirado do seu
livro Must We Educate?, com especial foco no conceito de educação que
o autor parece endossar:
"Devemos nós educar?
A questão 'Em que tipo de adulto vão se tornar os filhos de meus vizinhos e de meus próximos?' é uma questão de grande interesse para cada um de nós. Se eles se tornarem criminosos, ou incompetentes, podemos vir a sofrer com isso. Se se tornarem cidadãos responsáveis, nós e nossos filhos provavelmente nos beneficiaremos com isso.
Porém, apesar de estar ser uma questão de nosso interesse, nós, como indivíduos, não temos o direito de tomar providências para que nossos interesses, neste caso, sejam atendidos. Não temos o direito de pegar os filhos de nossos vizinhos e nossos próximos e moldá-los de modo a se tornarem o tipo de adultos que preferimos.
A maioria das pessoas concordaria, creio eu, que é assim que deve ser, pois também não gostaríamos que nossos vizinhos e nossos próximos, com suas idéias às vezes atravessadas e estapafúrdias, pudesse incutir essas idéias em nossos filhos.
Apesar disso, e aqui as coisas começam a ficar estranhas, se nosso vizinho ou nosso próximo é um professor, então ele, de repente, não só tem o direito de moldar nossos filhos, como sua missão, ao assim agir, é universalmente reconhecida como nobre.
Contudo, nosso vizinho/próximo-professor é um ser humano não muito diferente de nossos outros vizinhos e próximos, com as mesmas fraquezas e tendenciosidades, e, talvez, no íntimo, profundamente constrangido e preocupado por ter em suas mãos os destinos dos filhos dos outros".
Se todos os nossos vizinhos ou próximos que excercem a nobre e reconhecida função de professor tiverem sempre em mente a preocupação por ter em suas mãos os destinos dos filhos dos outros, esses se preocupariam menos em moldar e mais em criar condições para que os pequenos tenham as competências necessárias para formular as suas próprias visões de mundo, dentro do equilíbrio citado na definição de educação dada por José A. Pinotti, Aníbal Faúndes e Eduardo O. C. Chaves (em 1988) citada na questão anterior.
Eduardo O C Chaves
Janeiro de 2002
Rubem Paulo Saldanha
Fevereiro de 2002