Rubem Paulo Saldanha - Texto 2
Segundo Conjunto de Questões Desafiadoras
[Três Questões]
Assunto Básico: Escola, Currículo, Ensinar e Aprender
(Segundo e Terceiro Princípio)
Rubem Paulo Saldanha
1) Considere a seguinte passagem de Rubem Alves (a ênfase por negrito e sublinhado foi acrescentada, e foram feitas pequenas modificações no texto, substituindo uma ou outra palavra, com indicação por colchetes, e invertendo a ordem das passagens), e responda as perguntas abaixo:
“Como são e têm sido as escolas? Que nos diz a memória? A imagem: uma casa, várias salas, crianças separadas em grupos chamados ‘turmas’. Nas salas os professores ensinam saberes. Toca uma campainha. Terminou o tempo aula. Os professores saem. Outros entram. Começa uma nova aula. Novos saberes são ensinados. O que os professores estão fazendo? Estão cumprindo um ‘programa’. ‘Programa’ é um cardápio de saberes organizados em seqüência lógica, estabelecido por uma autoridade superior invisível, que nunca está com as crianças. Os saberes do cardápio ‘programa’ não são ‘respostas’ às perguntas que as crianças têm. Por isso as crianças não entendem por que têm de aprender o que lhes está sendo ensinado. . . . A [criança] tem uma precisa filosofia de aprendizagem: [ela] aprende os saberes que [a] ajudam a resolver os problemas com que está se defrontando. Os programas são uma violência que se faz com o jeito que [a criança] tem de aprender. Não admira que as crianças e os adolescentes se revoltem contra aquilo que os programas os obrigam a aprender. Ainda ontem uma amiga me contava que sua filha, de dez anos, dizia-lhe: ‘Mãe, por que tenho de ir à escola? As coisas que tenho de aprender não servem para nada’. . . . A menina sabia mais que aqueles que fizeram os programas. . . . A inteligência é essencialmente prática. Está a serviço da vida. . . . A memória é um escorredor de macarrão. O escorredor de macarrão existe para deixar passar o que não vai ser usado: passa a água, fica o macarrão. Essa é a razão por que os estudantes esquecem logo o que são forçados a estudar. Não por falta de memória. Mas porque sua memória funciona bem: não sei para o que serve; deixo passar... . . . Programa cumprido não é programa aprendido - mesmo que os alunos tenham passado nos exames. Os exames são feitos quando a água ainda não acabou de se escoar pelo escorredor de macarrão. Esse o destino [de tudo aquilo] que não é aprendid[o] a partir da experiência: o esquecimento. [Mas aquilo] que se aprende a partir da vida, . . . não é esquecid[o] nunca. A vida é o único programa que merece ser seguido. . . . Disse, numa outra crônica, que quero escola retrógrada. Retrógrada quer dizer ‘que vai para trás’. Quero uma escola que vá mais para trás dos ‘programas’ científica e abstratamente elaborados e impostos. . . . Uma escola em que o saber vá nascendo das perguntas que [a criança] faz. Uma escola em que o ponto de referência não seja o programa oficial a ser cumprido (inutilmente!), mas . . . a criança que vive, admira, encanta-se, espanta-se, pergunta, enfia o dedo, prova com a boca, erra, machuca-se, brinca. “
A) Se a educação tem, fundamentalmente, que ver com o desenvolvimento de competências para a vida, e a escola é a instituição criada com o objetivo único de educar, como explicar o fato de que ela se tornou tão divorciada da vida, que haja, nas palavras de Hugo Assmann, esse divórcio entre os “processos cognitivos” que se espera aconteçam na escola (aprendizagem) e os “processos vitais” (a vida, a experiência da criança)?
Talvez a explicação para isso seja a que as exigências que o mercado atual faz para os egressos das faculdades e outros afins não sejam contempladas no currículo atual da escola. Se antigamente a estabilidade era a grande onda (o grande status era ser um funcionário do Banco do Brasil, não era?) poderia-se aceitar que a escola ensinasse aos seus alunos somente que eles tivessem uma postura mais mecânica de simples respostas automáticas para estímulos pré-determinados. O dinamismo, a capacidade de se ter dados em mãos para se tomar decisões, a desinibição de falar em público, a capacidade de liderança e de trabalho em grupo são exigências que não são muito estimuladas nas escolas.
B) Como explicar, e como tem sido justificado ao longo do tempo, o fato de que a escola acabou por se tornar um lugar em que se apresentam (transmitem) às crianças informações e conhecimentos (“saberes”, no jargão atual), organizados de forma estanque em disciplinas, hierarquizadas em séries, dispensadas em doses homeopáticas (aulas), ministradas em espaços que podem ser alcançados pela voz humana desassistida (salas de aula), a alunos homogeneizados por idade (turmas)? O currículo atual é alguma coisa além disso, ou em vez disso? Como desaprender essa herança histórica e cultural?
Acredito que seja exatamente isso. Se pensarmos que a escola (principalmente as particulares) necessitam trabalhar com poucos custos e a organização feita dessa forma é mais lucrativa. A iniciativa para desaprender essa estrutura deve partir da escola pública, uma vez que ela não tem a preocupação do lucro (falando em dinheiro) imediato para os seus “donos”. Investir para que os professores fiquem mais tempo dentro da escola sem dar aulas é um dos primeiros passos necessários.
C) Como construir um currículo escolar que organize as competências e habilidades que as crianças precisam desenvolver para “viver suas vidas, tanto no plano individual (privado) como no social (público), de forma livre e responsável, autônoma e solidária, competente e produtiva”, que mantenha um vínculo estreito com os “processos vitais” e, portanto, com os interesses (que certamente não são disciplinares) das crianças, que não as segmente no tempo e no espaço, que lhes permita agruparem-se em função dos seus interesses (dos projetos que estão desenvolvendo) e não em função de sua idade, e que permita e facilite um aprendizado ativo e colaborativo por parte das crianças?
Eu acredito muito no trabalho de grupos organizados dentro da escola. Na minha época de estudante participei de vários grupos dentro da escola que me fizeram aprender muito mais do que a sala de aula. As atividades extra-classe como banda de música, grupo de elaboração de jornal e murais dentro da escola, grupos para organizar gincanas, etc, são uma grande alternativa para essa mudança. Dentro da escola em que trabalho temos um grupo (alunos do ensino médio) que organiza um acampamento para os alunos do Ens. Fundamental 1. Costumo falar que esses alunos que participam dessas atividades aprendem mais em um evento do que em 10 anos de sala de aula.
D) Você acredita que seja possível definir competências e habilidades básicas (aquelas que todo ser humano deve oportunamente dominar e que se distinguem, portanto, de competências e habilidades especializadas), como a fala, a leitura e a escrita, o cálculo numérico (não no sentido técnico), a negociação, a resolução de conflitos, a administração do tempo, a busca, análise, aplicação e disseminação de informações, etc. e que seja viável tentar hierarquizá-las, indicando quais devem ser desenvolvidas primeiro, coisas assim?
Acho que se tentarmos hierarquizá-las corremos o risco de cair numa divisão parecida com a de disciplinas, como é feito hoje em dia. Teríamos a matéria Administração do Tempo 1, 2 e 3, com níveis de dificuldade deferentes (talvez no primeiro módulo os alunos aprenderiam a olhar as horas, no segundo eles aprenderiam a marcar compromissos e cumpri-los e no terceiro , cobrar dos pares a pontualidade sem magoar..). Se na Nova Escola que sonhamos pretendemos respeitar a individualidade de cada um, não podemos dizer qual competência o aluno deve aprender primeiro (ressaltando que é óbvio, por exemplo, que é primeiro necessário aprender a falar para depois aprender a se expressar bem em público, por exemplo).
E) Você acredita que os conteúdos disciplinares que hoje formam a essência do currículo possam ser “transversalizados”, só entrando nos projetos dos alunos à medida que forem sendo percebidos como necessários para a execução dos projetos?
Essa é parte da nova visão que pretendemos. Na hora em que os conteúdos não forem mais obrigatórios a escola dará um grande passo para melhorar a sua qualidade. A única questão que vejo como problemática é como fazer um controle das escolas, sem permitir que apareçam mais “vendedores de diplomas”.
F) Deixando a educação de lado, você acredita que a ciência continuará dividida em disciplinas por muito tempo ainda?
A ciência, fora dos bancos escolares, é dividida em disciplinas? Na minha época de faculdade tínhamos equipes de vários departamentos trabalhando juntas, pois sempre houve a necessidade de mais de uma área de conhecimento. Hoje em dia, por exemplo, as pós-graduações em informática na educação contam com equipes de pedagogos e bacharéis em computação trabalhando juntos.
2) Considere as seguintes afirmações, respectivamente de Galileu Galilei, B.
F. Skinner, Carl Rogers, e Ivan Illich, e responda as questões abaixo:
·
"Não é possível ensinar nada a ninguém; somente é possível ajudar alguém a descobrir alguma coisa dentro de si próprio." [Galileu]·
"Os alunos aprendem sem que haja ensino. O ensino não cria a aprendizagem, nem mesmo a estimula. Ensinar é de tal modo arranjar certas condições de modo que o aprendizado exigido seja realizado mais rapidamente." [Skinner]·
"Parece-me que qualquer coisa que possa ser ensinada a outrem seja, sempre, sem maior importância. ... Quando tento ensinar -- e às vezes tento -- fico desanimado com os resultados. ... Às vezes meu ensino parece ser bem-sucedido. Quando isto acontece, porém, verifico que os resultados são maléficos. O ensino parece levar o indivíduo a desconfiar de sua própria experiência e vem impedir uma aprendizagem significativa. Portanto, cheguei à conclusão de que os resultados do ensino são ou sem maior importância ou maléficos." [Rogers]·
"A segunda ilusão em que se baseia o sistema escolar é a de que a maior parte da aprendizagem seja o resultado do ensino. O ensino, é verdade, pode contribuir para certos tipos de aprendizado, em certas circunstâncias. Mas a maior parte das pessoas obtém a maior parte de seu conhecimento fora da escola, ou na escola somente à medida que a escola, em uns poucos países ricos, tornou-se uma espécie de casa de detenção onde indivíduos estão ficando retidos por períodos cada vez maiores de sua vida." [Illich]A) Você acha que o ensino, como comumente entendidos, têm lugar no tipo de educação que vimos discutindo? Ou vale a pena tentar redefinir o ensino “facilitação da aprendizagem”?
O ensino como mero repassar de informações (sejam de maneira mais rápida ou mais lenta) não cabe no “nosso” tipo de educação.
B) O “Sua Escola” fala em “novas formas de ensinar e aprender”. Seria esse nova forma de ensinar o facilitar a aprendizagem? Ou o “Sua Escola” está propugnando por uma aprendizagem colaborativa, que envolve o professor mas não é conseqüência direta de sua ação, sendo muito mais, como diz Galileu, alguma coisa que é descoberta dentro de si próprio?
O que o “Sua Escola” se propõe é criar esta aprendizagem colaborativa, na qual o aluno, com ajuda dos seus mestres e pares, aprende o que lhe é interessante (e necessário) no momento, e ajuda os seus colegas quando estes precisam.
C) O que entendemos por “ensino” está bem resumido por Skinner quando ele diz que “ensinar é de tal modo arranjar certas condições de modo que o aprendizado exigido seja realizado mais rapidamente"?
Temos que pensar em que parâmetros está sendo definido esse “rapidamente”. Se esse professor fez uma média horária de todos os alunos e percebeu que tem alguém que está abaixo desta média e então precisa ser “acelerado” para aprender mais rapidamente, é uma grande bobagem. Mas se esse professor captar cada aluno na sua individualidade, fazer um “marco zero” de velocidade e então trabalhar para que esse aluno seja mais rápido dentro dos seus limites, aí até podemos forçar um pouco e aceitar a definição, embora precisando de algumas complementações.
D) O que você acha da afirmação de Roger de que o resultado do ensino ou é insignificante ou é maléfico? Como estaria ele concebendo o ensino para fazer essa afirmação?
Esse tio percebe que a questão do ensino como mero repassar de informações desconexas com a realidade do aluno é algo que não surte muito efeito. Quer dizer, não sei se ele REALMENTE percebe que o motivo pelo qual não dá certo é por causa deste repassar desconectado de informações, mas percebendo já é um começo.
3) Considere a seguinte famosa citação de John Holt e esta outra passagem
“composta” de Rubem Alves e responda as perguntas abaixo:
o
"Se ensinássemos crianças a falar, elas nunca aprenderiam." [Holt]o
“Sei que vocês devem estar incrédulos. Como é possível uma escola assim, [sem salas], sem turmas, sem professores e aulas de português, geografia, ciências, história, em lugares e horas determinados, de acordo com um programa, . . . com testes e conceitos ao final? Será que as crianças aprendem? Respondo fazendo uma pergunta: qual a coisa mais difícil de ser ensinada, mais difícil de ser aprendida, quem ensina não sabe que está ensinando, quem aprende não sabe que está aprendendo, e, ao final, a aprendizagem acontece sempre? É a linguagem. Não existe nada, absolutamente nada, que se compare à linguagem em complexidade. No entanto, sem que haja qualquer ensino formal, sem que os que ensinam a falar - pai, mãe, tio, avô, irmãos - tenham tido aulas teóricas sobre a formação da linguagem, as crianças aprendem a falar. Imaginem que o ensino da linguagem [fala] se desse em escolas., segundo os moldes de linha de montagem que conhecemos: aulas de substantivos, aulas de adjetivos, aulas de verbos, aulas de sintaxe, aulas de pronúncia. O que aconteceria? As crianças não aprenderiam a falar. Por que a aprendizagem da linguagem é tão perfeita, sendo tão informal e tão sem ordem certa? Porque ela vai acontecendo seguindo a experiência vital da criança: o falar vai colado à experiência que está acontecendo no presente. Somente aquilo que é vital é aprendido. Por que é que, a despeito de toda pedagogia, as crianças têm dificuldades em aprender nas escolas? Porque nas escolas o ensinado não vai colado à vida. Isso explica o desinteresse dos alunos pela escola. . . . . Explica também a indisciplina. Por que haveria uma criança de disciplinar-se, se aquilo que ela tem de aprender não é aquilo que [ela] deseja saber? E explica também a preguiça. . . . Segundo [Roland Barthes], há dois tipos de preguiça. Um deles, abençoado, é a preguiça de quem está deitado na rede de barriga cheia. Não quer fazer nada porque na rede está muito bom. O outro tipo é a preguiça infeliz, ligado inseparavelmente à escola. O aluno se arrasta sobre a lição de casa. Não quer fazê-la. A vida o está chamando numa outra direção mais alegre. Mas ele não tem alternativas. É obrigado a fazer a lição. Por isso ele se arrasta em sofrimento. . . . Nunca vi criança questionar a aprendizagem do falar. Uma criancinha de oito meses já está doidinha para aprender a falar. Ela vê os grandes falando entre si, falando com ela, sente que falar é uma coisa divertida e útil, e logo começa a ensaiar a fala, por conta própria. Faz de conta que está falando. Balbucia. Brinca com os sons. E quando consegue falar a primeira palavra, sente a alegria dos que a cercam. E vai aprendendo, sem que ninguém lhe diga que ela tem de aprender a falar e sem que o misterioso processo de ensino e aprendizagem da fala esteja submetido a um programa estabelecido por autoridades invisíveis. Ela aprende a falar porque o falar é a parte da vida.”A) Você concorda com Rubem Alves quando ele coloca o aprendizado da fala como o paradigma de todo aprendizado?
Sim.
B) Rubem Alves menciona que, no caso da fala, “quem ensina não sabe que está ensinando” e “quem aprende não sabe que está aprendendo”. Você acha isso possível: ensino inconsciente e aprendizagem inconsciente?
Acredito piamente nisso, principalmente por experiência pessoal. Na minha época de aluno, aprendi muito mais nas atividades extra-classe (jornal, grupos de música, organizando gincanas e festivais de música, festas, etc) do que em sala de aula. E não foi na mesma época que percebi isso. Foi somente depois que dei valor a esse tipo de atividade, que desenvolvei muitas coisas que percebo claramente que colegas que não participavam desse tipo de atividade não as têm tanto quanto eu e outros colegas que também participavam.
C) Qual o papel do exemplo (por parte dos já falantes) e da imitação (ainda que “macaquícia”) no aprendizado da fala? Esse papel pode se estender para outros tipos de aprendizado?
“Faça o que eu digo, não faça o que eu faço” - essa é a máxima de quem somente dá lições de moral sem seguir o que prega. Lembro de um momento em Faxinal em que, refletindo sobre como foi o encontro, o Eduardo nos falou sobre a questão do barzinho que havia na cidade. Como poderíamos querer que os alunos não bebessem se nós mesmos (os “mestres”) estávamos constantemente ali? Como um professor que fuma pode falar para um aluno sobre os males do cigarro? Tenho uma estante de livros na minha sala. Não fico falando para os alunos que ler é bom. Mas tenho uns bons livros lá, e quando perguntam eu ofereço algum para o aluno. Depois trocamos impressões sobre o livro. Para gostar de ler o aluno precisa SENTIR que você, o exemplo, também gosta de ler. O papel do exemplo é crucial para o aprendizado.
D) É possível imaginar outros aprendizados importantes modelados pelo aprendizado da fala? O aprendizado da leitura, por exemplo? O aprendizado de uma segunda língua? O aprendizado da matemática? O aprendizado das ciências naturais? O aprendizado da filosofia?
É possível, desde que não haja preocupação com os estanques formais a que estamos acostumados, como por exemplo provas, trabalhos, obrigatoriedade de seguir um currículo, etc.
Eduardo O C Chaves
Janeiro de 2002
Rubem Paulo Saldanha|
Fevereiro de 2002