Princípios Básicos do Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”

Eduardo O C Chaves




I. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES


1. O Instituto Ayrton Senna


O “Sua Escola a 2000 por Hora” (Sua Escola) é um programa do Instituto Ayrton Senna (IAS). Como tal, precisa ser coerente com os objetivos, princípios norteadores e estratégicas básicas de ação do IAS.

O objetivo geral do IAS é promover o desenvolvimento humano, com foco no adolescente e no jovem.

O desenvolvimento humano é promovido quando se promovem a educação, a saúde, a integridade e o bem estar do ser humano.

O objetivo específico do IAS, na área da educação,  é promover o desenvolvimento da pessoa, do cidadão e do profissional (como especificam a Constituição Brasileira, em seu Artigo 205, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em seu Artigo 2º), através de programas voltados para a educação formal e não-formal, dentro do balisamento fornecido pelos “Quatro Pilares da Educação” definidos pelo Relatório Jacques Delors da UNESCO.

Em termos de estratégia de atuação, o IAS organiza suas ações em dois planos ou eixos de trabalho: o Fazer e o Influir.

 

2.O Programa “Sua Escola a 2000 por Hora”


O Sua Escola é um dos programas do IAS voltados para a educação formal, isto é, para a educação que se processa, de forma organizada e estruturada, dentro da escola. (Outros programas do IAS estão voltados para a educação não-formal, que se processa fora da sala de aula escolar).

O objetivo geral do Sua Escola é contribuir para que a escola pública se reveja (em termos de objetivos, organização curricular, métodos de trabalho, papel de professores e alunos, cenário (organização do espaço e do tempo), estrutura administrativa, e forma de gestão), à luz da concepção de educação como desenvolvimento humano e levando em contra as profundas transformações que as tecnologias de informação e comunicação vêm promovendo na sociedade.

Como o foco de atuação do IAS está no adolescente e no jovem, o Sua Escola prioriza a educação fundamental de 5ª a 8ª série e a educação de nível médio.

Os objetivos específicos do Sua Escola são concebidos em termos dos dois eixos de trabalho, o Fazer e o Influir, que fazem parte da estratégia de atuação do IAS:

 

II. OS PRINCÍPIOS PEDAGÓGICOS DO "SUA ESCOLA"


A contribuição específica que o Sua Escola traz para essa causa só ficam evidente quando se detalham os princípios pedagógicos em que o programa se alicerça. Esses princípios deixam evidente que não adianta introduzir tecnologia na escola apenas para torná-la mais eficiente, i.e., para que a escola faça melhor o que já vem fazendo: é necessário, primeiro, torná-la eficaz, i.e., conseguir que ela faça aquilo que deve ser feito para promover a educação à luz do paradigma do desenvolvimento humano.

Assim, tornar a escola eficaz significa transformá-la, ou até mesmo reinventá-la, para que ela possa, junto com outros agentes educacionais, participar do esforço de promover uma educação que realmente contribua para o desenvolvimento humano no contexto de uma sociedade em que a tecnologia desempenha um papel cada vez mais importante na vida das pessoas.

O material de divulgação do Programa (folders, site, etc.) caracteriza os seus princípios como seis ideais a serem buscados, a saber:

Como se pode ver, os princípios básicos do programa estão voltados, em síntese, para a busca de:

É importante que fique claro o que o Sua Escola entende por isso, pois é nesses princípios que fica evidente a identidade do Programa, o seu “DNA” próprio. Por isso, vale a pena procurar detalhar esses princípios um pouco mais, organizando-os ao redor desses quatro eixos.


1. Uma Nova Educação


Para que se entenda melhor a visão de educação que o Programa busca promover, é conveniente contrastá-la com a visão tradicional da educação.

A. A visão tradicional da educação
a. Conceituação de educação

Na visão tradicional, educar é formar a criança para que ela se torne um ser humano.

A educação tradicional parece pressupor que, ao nascer, a criança é um material sem forma que pode assumir qualquer forma que a sociedade lhe queira imprimir.

Partindo desse pressuposto, educar a criança é dar forma a esse material, moldar a criança, para que ela se transforme em um ser humano – isto é, no tipo de ser humano que a sociedade espera que ela venha a ser.

A sociedade em geral espera que a criança venha a se tornar um ser humano muito parecido, em suas idéias, em seus valores, e em suas atitudes, com os seres humanos que já a constituem.

b. O papel da escola

Mesmo a educação tradicional admite que a educação não se processa apenas na escola, tendo o lar e a comunidade em que a criança vive um papel importante em sua formação.

No seio da escola, porém, e no plano das intenções declaradas, formar a criança tem sido visto como equivalente a informá-la.

Assim, o papel que a escola desempenha no processo de formação da criança tem seu foco na transmissão à criança de um conjunto definido de informações, que englobam as idéias, os valores e as atitudes que a sociedade considera característicos do ser humano e que, por isso, considera importante preservar.

Para que ela se torne um ser humano, portanto, é preciso, nessa visão, que a criança absorva e incorpore essas informações, sendo, para tanto, coagida, se necessário for. É assim que ela se converte, de material sem forma e passível de receber qualquer forma, em ser humano.

A educação, entendida como um processo de formação do ser humano, vê a criança como um ser que, sem a sociedade, não seria realmente humano, e no qual, portanto, precisa ser instituído o ser humano. Essa instituição do humano na criança se dá, da perspectiva da criança, de fora para dentro e de cima para baixo – e a escola tem papel fundamental nesse processo.

Como a escola desempenha o seu papel dentro da visão tradicional da educação será detalhado adiante, na seção “Uma nova escola”.

c. O indivíduo e a sociedade

Por outro lado, e olhando o processo da perspectiva da sociedade, a educação é, na visão tradicional, um processo de conservação, preservação e reprodução da própria sociedade, indispensável para que ela tenha continuidade no tempo. Assim, não se educa a criança por ela mesma, mas por ser ela um canal indispensável para a conservação, preservação e reprodução da sociedade.

Émile Durkheim, o conhecido sociólogo francês, que ilustra bem essa visão, assim define a educação: "A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as gerações que não se encontrem ainda preparadas para a vida social, com o objetivo de suscitar e desenvolver na criança certo número de estados físicos, intelectuais e morais, reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, particularmente, se destine".

B. A nova visão da educação

Contrastemos com essa a visão da educação que o Sua Escola busca promover – que é nova não no sentido de ser inédita, mas, sim, no sentido de implicar uma completa inversão no que hoje se considera educação.

a. Conceituação de educação

Educar é uma das formas de promover o desenvolvimento humano. O que se chama de “paradigma do desenvolvimento humano” caracteriza a educação como um processo de desenvolvimento, não de formação. A educação tem lugar, em relação ao ser humano, de dentro para fora e de baixo para cima.

O ser humano, nesta visão, não é uma massa que pode tomar qualquer forma que a sociedade lhe queira imprimir. Ele nasce com potencialidades, trazendo em si a semente daquilo que ele pode se tornar e, encontrando condições propícias, se tornará.

Assim, pois, como a semente de uma árvore, para germinar, crescer, transformar-se em árvore adulta, dar frutos e produzir novas sementes, precisa encontrar solo propício, receber nutrientes, ser objeto de atenção e cuidados, incluindo, em alguns casos, tratamento e escoras, o desenvolvimento humano precisa ser balisado por princípios claramente definidos e entendidos.

Na visão de educação do Sua Escola, que é coerente com a do IAS, a educação deve se balisar pelos Quatro Pilares definidos pela UNESCO, que contemplam o desenvolvimento do ser humano como pessoa (aprender a ser), como cidadão (aprender a conviver), e como profissional (aprender a fazer), focando, como condição indispensável para a sustentabilidade desse desenvolvimento, a aquisição de autonomia no aprender (aprender a aprender). (Exceto pelo aprender a aprender, a Constituição Brasileira e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional revelam essas ênfases nos artigos já indicados. O material de divulgação do Sua Escola incluiu, desde o início, referência a esse balisamento).

Para promover o desenvolvimento da pessoa, do cidadão e do profissional, e, para garantir a autonomia na aprendizagem, a educação deve ser definida, agora de forma mais precisa e detalhada, como o processo através do qual o ser humano se capacita para viver uma vida autônoma, solidária e produtiva, de forma competente e responsável.

Uma forma alternativa, e mais poética, de dizer basicamente a mesma coisa, caracteriza a educação como o processo através do qual o ser humano se capacita para viver os próprios sonhos (formulação feliz do Prof. Antonio Carlos Rodrigues de Moraes, de Campinas). Para viver seus sonhos, o ser humano precisa, primeiro, ser capaz de sonhá-los, e, depois, ser capaz de transformá-los em realidade.

Para que esse processo se realize de forma adequada, é preciso que, na educação, se dê ênfase à aquisição das competências e habilidades necessárias para o pleno desenvolvimento humano, no plano cognitivo, afetivo-emocional, psicomotor, e interpessoal.

Aqui entra a caracterização de educação como desenvolvimento de competências e habilidades.

b. O papel da escola

A educação, nesta nova visão, não é uma ação que adultos exercem sobre crianças (e, portanto, não se limita ao período em que o ser humano é criança). É um processo constante e permanente de desenvolvimento do ser humano, que acontece, desde o seu nascimento até a sua morte, mediante sua interação com outros seres humanos.

Essa interação pode ser imediata ou mediada (presencial ou virtual), ter lugar no lar, na comunidade local, ou em comunidades mais amplas (até mesmo virtuais), e acontecer tanto no contexto de atividades destinadas a outros fins (lazer ou trabalho) como em ambientes voltados especificamente para a aprendizagem, podendo, naturalmente, ter lugar também em instituições dedicadas especificamente ao fim de educar, a saber, em escolas.

Como o foco do Sua Escola está na redefinição do papel da escola dentro da visão de educação como desenvolvimento humano, toda uma seção, a seguinte, trata da “nova escola” que é necessária para promover essa visão de educação.

c. O indivíduo e a sociedade

Mas antes é preciso ressaltar que a educação, vista no paradigma do desenvolvimento humano, é um processo de desenvolvimento, não de formação, que tem lugar, em relação ao ser humano, de dentro para fora e de baixo para cima. A ênfase recai, portanto, naquilo que os indivíduos precisam para se desenvolver plenamente, não na conservação, preservação e reprodução da própria sociedade. Na realidade, se uma determinada sociedade não contribui, como deveria, para o desenvolvimento humano, é preciso, sem dúvida, transformá-la.

O caso brasileiro ilustra bem esse princípio. Em termos de desenvolvimento econômico, a sociedade brasileira até que caminha bem – está entre as dez sociedades mais desenvolvidas do mundo. Mas em termos de desenvolvimento humano, estamos em sexagésimo nono lugar! Isso indica que alguma coisa precisa ser mudada na sociedade brasileira, para que o desenvolvimento humano alcance, pelo menos, índices semelhantes aos do desenvolvimento econômico.


2. Uma Nova Escola


Para que se entenda melhor a visão do papel educacional da escola que o Programa busca promover, é conveniente contrastá-la com a visão do papel da escola na educação tradicional (a que já se fez referência atrás).

A. A visão tradicional da escola
a. O objetivo da escola

O objetivo da escola tradicional se reduz, no plano das intenções declaradas, a formar a criança informando-a, isto é, transmitindo-lhe, pura e simplesmente, as informações (conhecimentos, valores, atitudes) consideradas necessárias para que ela se converta no tipo de ser humano que a sociedade deseja e espera que ela venha a ser.

A escola atua, assim, prioritariamente no plano cognitivo (deixando o plano afetivo e o interpessoal para a família, a comunidade, a igreja).

b. A organização curricular da escola

A escola tradicional é organizada para transmitir informações. Por isso seu currículo se assemelha a uma matriz composta por disciplinas, no plano vertical, e por séries no plano horizontal. As disciplinas organizam as informações a serem transmitidas. As séries dosam essas informações de conformidade com a idade ou, mais raramente, a maturidade intelectual do aluno.

c. O método de trabalho da escola

O método por excelência de transmissão de informações da escola tradicional é a aula expositiva, que consiste na exposição sistemática e ordenada das informações a serem transmitidas. Imagina-se que a mera exposição das informações (“matéria”) é suficiente para o aprendizado.

Dentro da visão da escola tradicional, ensinar é dar aula (expor informações) e aprender é absorver o conteúdo do que foi ensinado. O aluno que falta acima de um percentual máximo é automaticamente reprovado, mesmo que tenha aprendido, ou que já soubesse, o que os alunos que não faltaram aprenderam.

d. Os papéis dentro da escola

Os atores principais na escola tradicional são os professores, que são os repositórios vivos das informações que devem ser transmitidas. Como as informações estão organizadas em disciplinas e séries, os professores também se definem como especialistas nas informações de determinadas disciplinas em determinadas séries (“professor de matemática na 1ª série do Ensino Médio”). Professores são dadeiros de aula, que correm de uma sala para outra, freqüentemente de uma escola para outra.

Os alunos são vistos como os beneficiários do processo: recipientes basicamente passivos do trabalho feito pelos professores.

e. Cenário (Organização do espaço e do tempo)

O espaço da educação escolar tradicional é, portanto, a sala de aula. A sala de aula tem um tamanho razoavelmente padrão (trinta a quarenta alunos em média), definido pelo alcance da voz de um professor normal, desassistida pela tecnologia. Se a sala de aula é muito grande, o professor grita mais... (Os cursinhos pré-vestibulares, dando um microfone ao professor, permitiram que a sala de aula passasse a ter até 250 lugares). A sala de aula é disposta de forma a que o professor possa controlar com a visão todos os alunos. Em alguns casos há uma plataforma que permite que o professor fique em posição elevada em relação aos alunos.

A escola tradicional é, assim, notoriamente desprovida de espaços que não sejam salas de aula voltadas para o ensino (entendido como aula expositiva).  

O tempo da educação escolar tradicional é a aula. Como as pessoas, em especial crianças, não conseguem, em regra, ficar sentadas, imóveis, passivas, ouvindo alguém falar, por um período muito longo, o tempo escolar foi dividido em segmentos em geral de 50 minutos por 10 minutos de descanso. Imagina-se que a educação acontece durante os 50 minutos de aula, o que se passa no intervalo sendo apenas descanso ou lazer.

A escola tradicional é, assim, notoriamente desprovida de tempos que não sejam regulados pela aula expositiva de 50 minutos.

f. A estrutura administrativa escola

A estrutura administrativa da escola tradicional respeita os princípios da especialização e da divisão do trabalho.

O diretor, a quem compete gerir toda a escola, em seus aspectos pedagógicos e puramente administrativos, é auxiliado por um assistente (às vezes o vice-diretor ou o secretário), que cuida da burocracia administrativa; por um coordenador pedagógico que supervisiona os professores e, portanto, se preocupa, indiretamente, com os alunos no plano cognitivo (sendo por isso chamado tradicionalmente de “supervisor pedagógico”); e, às vezes, por um outro profissional (inspetor de alunos, orientador educacional, ou psicólogo escolar) que dá atenção aos alunos no plano interpessoal e afetivo.

Na realidade, porém, no plano pedagógico, o diretor se relaciona com o coordenador que se relaciona com os professores que se relacionam com os alunos. Se a escola tem vinte turmas, cada professor administra, num determinado momento, os trinta ou quarenta alunos de sua turma, o coordenador pedagógico administra os vinte professores, e o diretor administra os seus dois ou três auxiliares diretos, numa hierarquia piramidal que representa a racionalidade administrativa da escola.

Os funcionários administrativos e de apoio da escola não são vistos como tendo qualquer papel pedagógico.

g. A forma de gestão da escola

A gestão dessa escola é hierárquica e não participativa,

Embora professores participem da gestão da escola dentro de sua esfera de competência, alunos normalmente não participam do processo de tomada de decisão em nenhum nível e em nenhuma de suas fases, nem mesmo na fase de execução dentro da sala de aula, quando estão diretamente envolvidos no processo – quanto mais nas fases de planejamento e avaliação. Na verdade, eles não têm a menor participação no processo decisório da escola.

Se virmos a escola tradicional como um teatro, os alunos não chegam sequer a ser atores coadjuvantes: não passam de figurantes – ou, em muitos casos, de platéia mesmo. Os professores, por sua vez, embora sejam são os atores principais dentro da sala de aula (que é o seu espaço), não participam da elaboração do roteiro, nem da direção do espetáculo...

h. O papel da escola além das intenções declaradas

O observador mais atento vai, porém, perceber, que, além de suas intenções declaradas, a escola tradicional emula, na forma em que organiza o espaço e o tempo, as linhas de montagem industriais.

Como o papel da escola, na visão tradicional da educação, é ser o principal agente de conservação, preservação e reprodução da sociedade, não é de admirar que, pelo menos de forma subliminar, a escola tradicional produza indivíduos disciplinados, que têm consciência de seu papel no espaço e no tempo que lhes estão destinados, e que, além disso, são tão padronizados quanto possível, para que se tornem peças intercambiáveis nas engrenagens que constituem a sociedade.

Os alunos, na verdade, não são agentes na escola tradicional: são produtos – que a escola, como mais uma fábrica da sociedade industrial, manufatura para o consumo da sociedade.

É por isso que as crianças de uma mesma idade são divididas em turmas tão homogêneas quanto possível, cujo tamanho é definido pela capacidade da sala de aula, que, por seu turno, é definida pelo alcance da voz humana desassistida. As crianças pertencentes a uma turma fazem as mesmas coisas, no mesmo local, no mesmo horário. Elas têm que absorver as mesmas informações, pelo mesmo método, a partir das mesmas fontes. O nível em que essas informações são transmitidas é o do aluno médio. Tudo isso sem que haja a menor consideração de diferenças, preferências e interesses individuais, de variedade de estilos cognitivos, e de talentos pessoais. As necessidades que estão em jogo são as da sociedade, não as das crianças.

B. A nova visão da escola

A escola, enquanto instituição encarregada de formalmente promover a educação, deve se rever, para se enquadrar na visão de educação que o Programa propõe.

a. O objetivo da escola

O objetivo da nova escola não pode ser entendido de forma incoerente com a nova visão da educação anteriormente especificada. A nova escola deve promover o desenvolvimento do ser humano, no sentido visto, num contexto dedicado especificamente a esse fim, sem, contudo, perder de vista o contexto mais amplo em que a educação tem lugar.

b. A organização curricular da escola

Se a educação é definida como o processo através do qual o ser humano se capacita para viver uma vida autônoma, solidária e produtiva, de forma competente e responsável, e, para que isso se dê, é preciso que, na educação, se dê ênfase à aquisição das competências e habilidades necessárias para o pleno desenvolvimento humano, no plano cognitivo, afetivo-emocional, psicomotor, e interpessoal, o currículo, na nova escola, deve ser centrado no desenvolvimento de competências e habilidades.

As competências e habilidades podem ser divididas em básicas e especializadas e devem ser organizadas com base em sua vinculação com os Quatro Pilares.

Competências e habilidades básicas são aquelas definidas como necessárias para todos, no tipo de sociedade em que vivemos, independentemente do projeto de vida de cada um.

Competências e habilidades específicas são mais avançadas (visto que pressupõem as básicas) e são definidas, individualmente, com base nos interesses, estilos cognitivos, talentos pessoais, e opções profissionais de cada um.

Boa parte da atenção dos profissionais da educação deve estar voltada, no momento, para a definição de competências e habilidades básicas e para a construção de um currículo centrado no desenvolvimento de competências e habilidades, básicas e específicas.

c. O método de trabalho da escola

O método básico adotado para o desenvolvimento, pelos alunos, de competências e habilidades, deve ser o trabalho com projetos.

Esse método consiste no planejamento, na execução e na avaliação de projetos de aprendizagem definidos pelos alunos, com base em seus interesses, mas que devem desembocar sempre, e simultaneamente, no desenvolvimento das competências e habilidades básicas ou específicas.

A razão pela qual o trabalho com projetos é o mais adequado para a nossa escola está relacionado ao fato de que a educação que a escola deve promover está intrinsecamente relacionada com sua capacitação dos alunos para elaborar e executar seu projeto de vida. A vida de cada um é, portanto, o principal projeto que ele tem de elaborar e executar. Trabalhar com projetos de aprendizagem é se capacitar para enfrentar esse projeto maior.

As informações relevantes, que fazem parte do conteúdo das disciplinas do currículo tradicional, devem ser incorporadas, transversalmente, aos projetos, ao longo de sua implementação.

Projetos de aprendizagem podem ser individuais ou envolver grupos de alunos, independentemente de sua idade, fato que torna sem sentido a organização da escola em turmas, séries e classes.

Se deixarmos fluir naturalmente os interesses dos alunos, os projetos de aprendizagem que escolherem vão ser, quase que fatalmente, transdisciplinares ou, pelo menos, interdisciplinares, em sua natureza. Esse fato, por si só, torna sem sentido a organização do currículo em disciplinas.

Ao longo do processo de escolarização, é recomendável que todos os alunos tenham desenvolvido todas as competências e habilidades consideradas como básicas, mas não é necessário que o tenham feito através dos mesmos projetos – nem que tenham adquirido, no processo, as mesmas informações.

d. Os papéis dentro da escola

Os atores principais da nova escola são os alunos.

As pessoas aprendem principalmente fazendo, fato que reforça a aprendizagem por projetos, elaborados, executados e avaliados pelos alunos, que é uma aprendizagem ativa.

Todo o foco da escola deve estar na aprendizagem dos alunos, não no ensino dos professores, porque a aprendizagem, concebida de forma ativa, é decorrente da participação dos alunos nos projetos. O aprender ouvindo ou vendo os outros fazer é um aprender passivo, que, embora possível, não é tão eficiente quanto o aprender ativo.

Assim, o aluno deve ser visto como o autor de sua aprendizagem e ator principal do processo de seu desenvolvimento, servindo o professor como facilitador desse processo.

Conseqüentemente, os interesses que contam no processo de aprendizagem, como visto pelo programa, devem ser os dos alunos, fato que obriga a aprendizagem a ficar contextualizada nas experiências dos alunos na comunidade em que vivem, pelo menos como ponto de partida a partir do qual a escola, através dos professores, pode e deve procurar desvelar novos horizontes e abrir perspectivas mais amplas.

Os professores, além de serem os facilitadores do processo, devem se preocupar com garantir que os projetos desenvolvidos desemboquem no desenvolvimento de competências e habilidades e devem servir como fontes de referência dentro das suas áreas de interesse e especialidade.

Isso não desmerece ou desvaloriza o trabalho do professor.

e. Cenário (Organização do espaço e do tempo)

Para que o trabalho de alunos e professores produza os resultados desejados, a metodologia de projetos exige, da parte dos professores, a criação e organização de espaços e ambientes de aprendizagem em que, na forma de projetos de natureza transdisciplinar ou interdisciplinar, os alunos possam investigar questões e resolver problemas que os preocupam e desafiam.

Os espaços e ambientes da nova escola devem contemplar as necessidades de aprendizagem dos alunos, não o ensino (entendido como aula expositiva).

Assim, na escola devem ser criados e organizados espaços e ambientes como, por exemplo:

A lista de possibilidades é interminável.

Embora na escola deva haver salas de discussão e auditórios (em que ocasionalmente possa haver palestras, bem como a exibição de filmes de grande demanda e a realização de shows musicais e peças de teatro), não deve haver salas de aula nem sala dos professores.

Quanto à organização do tempo, o professor deve estar constantemente junto do aluno, apoiando, ajudando, incentivando, e motivando o aluno para que este, assumindo a parcela de responsabilidade que lhe cabe pela sua aprendizagem, procure encontrar respostas às suas questões e enfrentar corajosamente seus desafios.

Cada escola deve ter seu quadro de professores em tempo integral – afinal de contas, é só na organização do espaço e do tempo da escola tradicional que faz algum sentido um professor passar apenas algumas horas do dia numa escola e trabalhar em duas ou três escolas diferentes.

Os professores devem passar seu dia em trabalho junto dos alunos, resistindo à tentação de manter ambientes segregados durante intervalos de café ou almoço.

O agendamento do dia deve ser feito em resposta às necessidades dos projetos em andamento e não deve se limitar a períodos de duração pré-definida.

f. A estrutura administrativa da escola

Transformar a escola tradicional (“a escola que temos”) em uma nova escola (“a escola que queremos”) significa mudar o modo de pensar e agir das pessoas que nela atuam e criar outros que satisfaçam às exigências do novo paradigma.

Isso não é fácil.

Uma grande causa da dificuldade está no fato de que, às vezes, no plano individual, cada um deseja a mudança, mas no plano coletivo as coisas se complicam por causa de interesses pessoais conflitantes, rivalidades de vários tipos, inveja, jogos de poder, etc., que acabam por produzir resistências. Se uma idéia é sugerida por um grupo, o outro já se sente na obrigação de se opor a ela... (mesmo que, em outras situações, pudesse estar ele mesmo propondo aquela idéia!)

Uma outra grande dificuldade está no fato de que, em regra, até que abandonemos as velhas formas de fazer as coisas, não estaremos realmente prontos para adotar as novas formas de fazer as coisas. Para aprender o novo temos primeiro que desaprender o velho. E isso é difícil, porque temos que fazer isso com o carro em movimento, por assim dizer. Começamos a tentar o novo enquanto nos vemos obrigados a, pelo menos formalmente, executar o velho. Pensamos em desenvolver competências e habilidades, mas temos que cumprir um currículo organizado em termos disciplinas, cujo programa é constituído basicamente de informações a serem transmitidas aos alunos. Pensamos em trabalhar por projetos, mas temos que dar aulas para classes de 40 alunos aos quais dedicamos 50 minutos de nosso tempo de cada vez.

Nesse contexto a estrutura administrativa da escola pode também ser um sério impedimento (como, por outro lado, pode ser de grande ajuda, se estiver convencida da necessidade de mudar e estiver munida dos instrumentos que lhe permitam mudar). A escola pública em geral faz parte de uma estrutura administrativa externa, respondendo a uma Secretaria da Educação, estadual ou municipal, com ou sem a interveniência de órgãos intermediários. Em geral é fora da escola que se define a matriz curricular, a quantidade de dias letivos, a duração dos turnos, a carga horária das disciplinas nas várias series, e tudo o mais que, a rigor, deveria estar a serviço dos objetivos educacionais da escola mas que acaba por limitá-la e cercear a sua ação. Por outro lado, a estrutura administrativa interna (diretor, coordenador pedagógico, etc.) em geral define o que pode e o que não pode ser feito na rotina escolar e qual o espaço de manobra que cada um tem, se é que tem. Aqui se incluem coisas como normas disciplinares, formas de avaliação, modos de trabalho de professores e alunos, enfim, a dinâmica da escola.

Mudar da escola tradicional para a nova escola de uma forma autoritária e impositiva seria um contra-senso. A mudança, aqui, como a educação que se deseja promover, tem que partir de baixo para cima e de dentro para fora...

g. A forma de gestão da escola


3A Integração da Escola com Outros Agentes Educacionais


Tempo houve em que a família e a escola, ao lado, talvez, da igreja, eram os únicos agentes educacionais. Até mesmo nossas Leis de Diretrizes e Bases da Educação anteriores à atual se referem à educação como sendo atribuição da família e da escola - ponto final. Tudo isso mudou com a chegada dos meios de comunicação de massa e das novas tecnologias de informação e comunicação, que transformaram a sociedade a tal ponto de alguns se referirem à Sociedade da Informação como a "Sociedade do Aprendizagem" ("Learning Society"), pois a maior parte das instituições e interações passaram a ter, pelo menos potencialmente, uma função educativa.

Assim, além da família e da escola, locais de trabalho, associações profissionais (como sindicatos), centros comunitários de cultura e lazer, igrejas, órgãos de governo, grandes empresas, organizações não governamentais, organizações internacionais, etc., para não mencionar os meios de comunicação, que serão discutidos no capítulo seguinte, estão também se dando atribuições educacionais.

Embora algumas dessas instituições encarem seu papel educacional de forma bem tradicional, e como supletivo ao da escola tradicional, outras, em especial as grandes empresas, as organizações não governamentais e as organizações internacionais, têm bastante clareza de que a escola tradicional não vem exercendo a contento sua função educacional na Sociedade da Informação, e de que, portanto, elas precisam assumir um papel cada vez mais importante na promoção de uma educação que realmente atenda às necessidades dessa sociedade.

Isso significa que a escola, que antigamente tinha o monopólio da educação extra-familiar, hoje se vê cercada de outros agentes educacionais, que, em alguns casos, têm uma visão bem mais clara da função da educação e do papel de instituições educativas do que a própria escola.

Por isso, a nova escola, em vez de assumir uma postura crítica em relação a esses novos agentes educacionais, e de considerá-los como concorrentes e rivais, deve procurar unir seus esforços aos deles, em verdadeira parceria, para a consecução de um objetivo comum, a saber, o da promoção da educação como desenvolvimento humano. Caso contrário, tem seus dias contados.


4.
O Uso Criativo e Inovador da Tecnologia Nesse Processo


Aqui se fecha o círculo.

Os resultados da introdução da tecnologia na escola têm ficado, na maior parte dos casos, aquém das expectativas. A explicação desse desapontamento está no fato de que se espera que a tecnologia opere, por si só e como por milagre, a melhoria da qualidade da educação.

Depois de longo período de perplexidade, as empresas aprenderam (e as que não o fizeram não estão aqui para contar a história), que a mera introdução da tecnologia para alavancar processos (de produção, distribuição ou gestão) concebidos para a era industrial, embora trouxesse pequenos ganhos de eficiência, não as tornava capazes de atender às necessidades da era da informação - isto é, não as tornava eficazes. Para isso, era necessário que se reinventassem, isto é, que, primeiro, reconcebessem o seu negócio, e, depois, redefinissem a melhor maneira de promovê-lo, com o apoio da tecnologia (se reengenheirassem). Foi assim que a IBM, maior empresa de computadores do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a informação e se salvou da falência, e a ITT, maior empresa de telefonia do mundo, reconcebeu seu negócio como sendo a comunicação, e se salvou da obsolescência tecnológica.

A grande contribuição do Sua Escola para a educação pública brasileira está em mostrar que na educação o processo não será diferente. Se, antes, a escola não se reinventar, a introdução da tecnologia (aí inclusos os meios de comunicação de massa) na sala de aula pouco contribuirá para a melhoria da qualidade da educação. Para que a tecnologia possa contribuir decisivamente para a melhoria da qualidade da educação pública brasileira, é necessário, primeiro, reconceber as finalidades da educação e, por conseguinte da escola, e, segundo, reengenheirar a escola para que possa promover esses fins - agora com a ajuda da tecnologia e em parceria com outras instituições que hoje se revestem de papel educacional (até porque a escola não vem exercendo seu papel a contento).

Usar a tecnologia na educação de forma criativa e inovadora é usar a tecnologia para promover a educação como desenvolvimento humano (para ajudar as crianças a aprender a ser, a conviver, a fazer e a aprender). Descobrir como fazer isso na escola, com o carro em movimento, é desenvolver uma verdadeira tecnologia social que, uma vez produzida, poderá ajudar a escola pública brasileira a dar sua contribuição para que o país saia do vergonhoso sexagésimo nono lugar em que se encontra em termos de desenvolvimento humano.
 


* Eduardo O C Chaves (eduardo@chaves.com.br), Professor Titular de Filosofia da Educação da Universidade Estadual de Campinas, onde se encontra desde 1974, é Consultor do Programa "Sua Escola a 2000 por Hora" desde o seu início. Maiores informações sobre ele podem ser encontradas em seus sites: chaves.com.br, edutec.net, paideia.com.br, aynrand.com.br e liberty.com.br.